CRÍTICA | Blue Girl

by Thiago de Mello

[Blue Girl é o primeiro filme da Mostra Competitiva do 7º BIFF – BRASÍLIA INTERNATIONAL FILM FESTIVAL. Todos os filmes estão disponíveis de forma gratuita até o dia 26 de abril. Para assistir – assista! –, acesse: https://www.looke.com.br/biffestival. Para conferir a programação, o link é: https://www.biffestival.com/programacao]

Em setembro de 2019 uma mulher chamada Sahar Khodayari ateou fogo no próprio corpo em frente de um tribunal no Teerã, no Irã. Ela foi presa e processada após tentar ir a um estádio de futebol, disfarçada de homem, para assistir uma partida do seu time favorito. Sahar Khodayari ficou conhecida mundialmente como Blue Girl. Em nenhum momento o documentário Blue Girl, de Keivan Majidi cita esse fato. Não precisa.

Blue Girl oferece algumas camadas. A mais evidente é a perspectiva da jovem Himma, a narradora e não-protagonista da própria história. Himma, tal como todas as outras crianças da vila Zhivar, no Curdistão, é apaixonada por futebol. Ela torce para a seleção italiana, daí seu apelido Blue Girl. É através do olhar da jovem que acompanhamos a realidade da vila e o esforço das crianças para poder terem um campo para jogar futebol. Aliás, o uso de uma lente rápida dá uma textura esportiva a atos comuns, como lavar o rosto com água. Não é apenas esteticamente interessante, como também comunica e reforça a nossa conexão com a narradora, já que conseguimos enxergar tal como ela que, de tão apaixonada, parece observar o mundo através das lentes esportivas dos jogos na TV.

Blue Girl
Hammi está presa na própria realidade

A direção de Keivan Majidi se destaca pela linguagem visual simples e multifacetada. Os planos abertos do início, por exemplo, conseguem ao mesmo tempo destacar belas imagens naturais, ambientar o espectador, expor as dificuldades físicas para o jogo (“não há terrenos planos nem para um parquinho”, reforça Himma) e o isolamento de Zhivar, que parece sintetizar as tradições do país – o Irã permanece sendo o único país do mundo a proibir a presença de mulheres no estádio.  A conclusão é igualmente rica na sua objetividade, mas isso é um assunto pra daqui a pouco.

Blue Girl conta a história de como as crianças de Zhivar se uniram para construir um campo de futebol no alto de um morro distante para poderem se divertir. Num primeiro vislumbre, o documentário parece ser apenas uma homenagem à paixão pelo futebol e tudo mais que esse esporte permite. É bonito acompanhar esse sentimento, a união das crianças e todo o esforço, por vezes até perigoso, deles. A câmera de Majidi adota uma presença mais analítica, direcionando o olhar do espectador em planos-detalhes nos sorrisos, trabalho e esforços de cada criança, sempre reforçando a paixão. Porém, a eloquência direta dos planos entra em conflito com a narração que cria redundâncias que prejudicam o ritmo vez ou outra. Mas mesmo assim, a narração continua sendo um dos recursos mais interessantes do filme. É graças a ele que Blue Girl consegue habilmente dizer tanto com tão pouco.

Na primeira metade, Himma narra praticamente tudo. A própria câmera a acompanha com boa freqüência. Mas se a narração de Himma era constante enquanto ainda havia a promessa de jogar bola (até mesmo a câmera a acompanhava mais no início), ela vai se tornando mais espaçada conforme o campo é finalizado. Através da frequência da narração, Majidi cria uma narrativa que reflete o distanciamento entre Himma e o seu desejo. No último plano, quando finalmente nos é revelado o campo, completamente torto, mas funcional, a câmera usa um plongeé extremo e um movimento vertical: o completo distanciamento de Himma daquela vontade. Como dito antes, Himma não é a protagonista da própria história. Sua narração se centra em outra criança, homem, esse sim podendo se permitir sonhar com arquibancadas cheias e com o coro do Estádio. Às garotas, restam observar os garotos da lateral. Ou como a sequência da foto (que também reflete o abandono e distanciamento geracional) expõe, elas ficam às margens do protagonismo, ainda que tenham feito a mesma e até mais parte dele.

Blue Girl expõe a cruel realidade das mulheres no Irã através de sonhos e sorrisos de crianças e da paixão pelo futebol. Blue Girl é sobre o contexto social que culminou na autoimolação de Sahar Khodayari, sobre uma apaixonada torcedora da Itália e sobre a resignação melancólica de ser mulher numa terra com tantos preconceitos.


Gênero: Documentário
Duração: 1h24
Classificação: Livre
País: Irã
Direção: Keivan Majidi

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