CRÍTICA | A Torre Negra

by Thiago de Mello

Os primeiros minutos de A Torre Negra sugerem potencial animador com informações simples e diretas o suficiente para situar o espectador no universo e na trama, seguido pela introdução dos personagens principais, robustos em suas habilidades, duelando num cenário instigante. É promissor até descobrir que o verdadeiro protagonista é um adolescente sem personalidade que estava “sonhando” – leia-se tendo visões – com esses eventos. A partir daí, A Torre Negra parte em sua busca (bem sucedida) por clichês em rumo ao genérico – e esquecível.

A adaptação da adorada obra homônima de Stephen King demonstra nenhum interesse em arriscar. Ao invés disso, opta por caminhar em linha reta e plana, com uma narrativa convencional e personagens maniqueístas, buscando dialogar com todos os públicos possíveis. Mas não consegue a atenção de nenhum. E tanto o roteiro insosso quanto a direção vacilante são os responsáveis.

Não é preciso ter lido qualquer livro da série para notar que o protagonista Jake Chambers (Tom Taylor) não é o que está nos textos de King. No filme, o adolescente, e toda sua irritabilidade sem personalidade, tem sonhos sobre uma torre negra, um pistoleiro, Roland (Idris Elba), e um homem de preto, Walter (Matthew McConaughey), que travam duelo que pode acabar com o mundo, além de outras coisas. Enquanto a mãe e o padrasto querem interná-lo, acreditando que ele está com dificuldade em superar a morte do pai, Jake sabe que não são apenas sonhos – tudo corroborado pelos desenhos que faz após acordar. Quantos clichês existem apenas nessa premissa básica? Poucos, quando comparado com o resto do filme.

A Torre Negra, se não for esquecida, será lembrada apenas pela decepcionante jornada

O roteiro de Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e Nikolaj Arcel (também o diretor) não busca desenvolver um enredo minimamente interessante, tampouco uma narrativa dinâmica. Ao invés disso, ele busca construir gatilhos burocráticos que façam a história caminhar. E o principal é o adolescente. Com zero personalidade, Jake é um (fraco) ponto de ligação entre as realidades de Roland e Walter, além de funcionar como o expositor da trama. Mas o pior defeito é a tentativa de criar um personagem com quem o público mais jovem se relacione. Na cabeça dos roteiristas, nem o pistoleiro e nem o homem de preto teriam capacidade de envolver o espectador. Assim, ficamos presos a um jovem rebelde sem causa.

A direção de Arcel é um reflexo do roteiro. Convencional, ela não consegue dar dinâmica à narrativa, nem criar sequências visuais que se sobressaiam ao fraco texto. Pelo contrário, nos momentos climáticos, principalmente no último embate, ela demonstra incômodos níveis de execução. A luta final entre Roland e Walter é vergonhosa tamanha a falta de habilidade do diretor em posicionar a câmera. A coreografia, principalmente a movimentação de McConaughey, que balança os braços como um dos bruxos de D.P.A – Detetives do Prédio Azul, é risível. Somado a isso tudo, o CGI é fraco ao ponto de destruir de vez qualquer impacto que o momento poderia ter causado.

Há, ainda, mais equívocos narrativos. Por exemplo, a torre negra que batiza o longa é mal explorada; há momentos cômicos ruins e mal alocados; personagens descartáveis; decisões preguiçosas; mundos promissores, porém mal explorados;  e muito mais. Porém, o mais incômodo é notar que havia material suficiente para realizar um grande filme.

No fim, salva-se apenas Elba, que consegue dar um mínimo de valor ao personagem que busca vingança a qualquer custo. McConaughey, e seu vilão que é mal só porque é mal, não prejudica, mas o ator não demonstra interesse em ajudar o filme. A Torre Negra passou por várias regravações e é possível ver, espalhado ao longo da trama, o ator perdendo o interesse no papel e caminhando da tentativa à obrigação contratual.

A Torre Negra não diz a que veio. Quer ser uma boa história? Com a convencionalidade cravada em seu âmago, não. Quer ter uma boa narrativa? Utilizando todos os clichês dos gêneros de fantasia/aventura adolescente, com certeza não. Quer ser lembrado? Sim, creio, mas como uma decepção genérica e descartável.

A Torre Negra estreia em 24 de agosto.

 


 

Título original: The Black Tower
Gênero: Fantasia, Ficção Científica, Ação, Aventura
Duração: 1h35
Classificação: 12
País: EUA
Direção: Nikolaj Arcel
Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e Nikolaj Arcel adaptando obra de Stephen King
Cinematografia:Rasmus Videbæk
Música: Junkie XL
Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Ben Gavin, Claudia Kim, Jackie Earle Haley


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