CRÍTICA | Adoráveis Mulheres

by João Rafael

“Se a protagonista for uma moça, ela precisa se casar no final”

Essa é a principal exigência que o chefe de uma editora, Mr. Dashwood (Tracy Letts), faz à jovem Jo March (Saoirse Ronan) quando a recebe para discutir a possibilidade de publicar um romance sobre a vida de quatro irmãs escrito por uma “amiga”. Após algumas correções e olhares julgadores, o homem indica que é preciso que a história seja rápida e picante. Afinal, parafraseando uma confissão feita pela própria autora em certo momento, quem irá querer saber sobre aventuras domésticas femininas? Bom, segundo o livro que originou esta já 6ª adaptação para o cinema, Adoráveis Mulheres (Greta Gerwig, 2019), várias gerações tem demonstrado interesse no romance Little Women (Mulherzinhas, no Brasil), publicado por Louisa May Alcott em 1868. Mas claro, dizer que a obra se resume a “aventuras domésticas” seria justamente se entregar ao que foi tão foi questionado há um século e meio atrás, muito tempo antes de a pauta dos direitos das mulheres finalmente se tornar uma grande questão por todo o mundo no Séc XX.

A trama do longa mantém o mesmo período de seu material original e se passa durante a Guerra Civil Americana, quando Robert March (Bob Odenkirk) é obrigado a partir para a batalha e deixar sua família aos cuidados da esposa, Marmee (Laura Dern). Em um período de sete anos no tempo, acompanhamos as irmãs March crescerem em meio à inocência dos conflitos juvenis em uma época onde o papel da mulher já começava a ser predefinido na infância. Nesse contexto, enquanto as possibilidades de futuro quanto ao casamento já fazem parte de suas rotinas, elas ainda tentam se agarrar à ligação fraterna, marcada pela pureza de quem tinha de atingir a maturidade cedo demais.

É preciso sempre lembrar que o romance foi escrito em um tempo onde várias de suas escolhas seriam consideradas datadas hoje. Aliás, essa é uma das criticas resultantes de um revisionismo que se torna óbvio para os padrões atuais. Os valores são bem diferentes atualmente, mas, mesmo assim, o livro ainda é extremamente popular nos EUA, especialmente para o público infanto-juvenil – que sempre foi o alvo original, diga-se de passagem. Por isso havia ainda uma expectativa maior em relação ao que a diretora e roteirista Greta Gerwig faria com uma nova releitura cujo tema que ressoa no livro rebate com força na indústria cinematográfica americana de hoje.

A boa notícia é que a cineasta não só consegue manter o espírito da história, mas exerce um bom trabalho ao flertar com elementos do melodrama sem soar anacrônico. A trilha sonora de Alexandre Desplat (vencedor do Oscar por A Forma da Água) é mais propositalmente marcada para dar o ar de doçura inicial e os diálogos são levemente cantados de forma quase teatral quando as quatro March vivem na bolha de sua convivência caseira sonhando com vestidos, festas e como se apresentarão para a sociedade. Contudo, fora das aparências, cada uma delas ganha seus anseios no ótimo texto de Gerwig, que dá a todas características próprias que marcarão seus arcos durante a narrativa. Inclinadas aos caminhos da arte (pintura, teatro, música e literatura), o promissor futuro distante de cada uma é usado pelo roteiro como uma forma de torna-las únicas como personagens, além de inseri-las no contexto maior em relação as funções a que são atribuídas pela época. É assim, por exemplo, com Meg (Emma Watson, apenas discreta), que é atribuída o gosto por ser atriz, mas é a que a mais se contenta com a ideia de se casar – incluive, sua função acaba sendo justamente o que significa a verdadeira felicidade dentro de um matrimônio sem muito futuro financeiro. Já Beth (Eliza Scanlen), cujo tempo reduzido em tela não tira sua função essencial posterior na trama, é mais um símbolo da união familiar que vai se perdendo ao longo dos anos.

Porém, é mesmo nas figuras de Jo (Ronan) e Amy (a sempre ótima Florence Pugh) que os temas do longa surgem com mais força. Apontada pela própria Alcott como uma personagem baseada em si mesma, Jo é a expressão mais intensa contra os desígnios tradicionais de encontrar um marido e dedicar a vida a ele e os filhos: “eu acho que nunca vou me casar”, diz ao jovem Laurie (Timothée Chalamet) enquanto nega seus interesses românticos. Ao invés disso, prefere se esconder das danças obrigatórias em grandes ocasiões e focar as energias em escrever contos e peças de teatro. Em mais um trabalho sólido da atriz, Saoirse Ronan traça com habilidade as expressões sonhadoras e defensivas da jovem para uma crescente desilusão ao perceber que suas aspirações talvez não sejam tão capazes assim de resistir aos valores que lhe são impostos – estes que, também, são representados na pele da tia (interpretada por Meryl Streep), uma mulher já completamente resignada que se refere à sobrinha como “um caso perdido”.

Por outro lado, Florence Pugh dá a Amy talvez a jornada mais acentuada, mesmo que não pareça em uma leitura mais superficial. Se mostrando com uma imaturidade mais explosiva, sua relação de rivalidade com Jo vai revelando uma insegurança que passa da inveja inofensiva na disputa pela atenção de Laurie à aparente aceitação de seu papel com o passar dos anos, quando sua vontade de se tornar uma pintora fica cada vez mais distante. Assim, quando é obrigada a reconhecer a realidade financeira de sua família para um homem que questionava suas intenções – “não venha me dizer que um casamento não é um acordo econômico” –, fica claro que este não percebe que a seu gênero lhe cabe muito mais o privilégio de encarar o amor como algo realmente romântico do que uma necessidade.

‘Adoráveis Mulheres’ é um resgate do que é um bom filme de época com o mesmo espírito atemporal do romance de onde se originou.

Embora os arcos individuais tenham sua importância, é realmente no conjunto que Greta Gerwig consegue aquilo que já fez com destreza em seu excelente trabalho anterior, Lady Bird (2017): transpor uma sensação de afeto entre os personagens que acaba sendo a ligação primordial para que o público se engaje na trama. As diferenças entre cada uma das March se unem em uma dinâmica bastante eficiente, cheia de pequenos conflitos seguidos por demonstrações de carinho. O trabalho de design de produção oferece uma construção que não só funciona por representar fidedignamente sua época, mas por refletir o lar cheio de apego e de vida, repleto de cores fortes presentes nas roupas, nos ornamentos e na própria lógica visual. Usando uma abordagem um pouco óbvia (mas eficiente), essas mesmas cores quentes servem como contraponto na bela fotografia de Yorick Le Saux (Personal Shopper, Amantes Eternos) entre o passado mais alegre e o presente já mais cicatrizado pela frieza de tons azulados do início da vida adulta. Além disso, o filme tem alguns planos inspirados pela estética e pelo simbolismo – e o que provavelmente permanecerá comigo é aquele em que Jo e Beth se abraçam nas areias de uma praia contra um vento forte.

Outro grande responsável por fazer com que a trama funcione é a essencial montagem de Nick Houy (Lady Bird), que transita com bastante competência entre o presente e o passado, estabelecendo relações temáticas importantes entre os personagens, principalmente sobre o confronto entre os desejos e as eventuais decepções trazidas pelo tempo. Embora haja um indicativo do período quando acontece o primeiro flashback, o vai e vem da narrativa se mostra um dos pontos fortes para unir tanto os arcos individuais quanto as motivações que se entrelaçam ao longo da obra. Mostrando compreender o poder da junção das imagens, os melhores momentos são aqueles onde um simples raccord passa uma mensagem mais poderosa do que um diálogo ou uma sequência inteira – o que traz outro momento também de destaque, onde a expressão sonhadora de Jo contemplando uma janela é seguida por sua versão mais velha ao observar a irmã Beth, que é um dos elementos de conexão mais importantes para a vida das irmãs.

Mas, de modo geral, será que Adoráveis Mulheres consegue de verdade ser relevante para os dias de hoje, mesmo que tenha sido baseado em uma história escrita com uma mentalidade muito distinta? É aí que entra outro trunfo de Gerwig ao investir numa narrativa segura, porém bastante eficiente (ou redondinha, como queira), mas também com visão o bastante para misturar um pouco do protagonismo de Jo na trama com a própria característica autobiográfica de Louisa May Alcott. Em um desfecho satisfatório (sem spoilers), a obra tem a perspicácia de brincar com as possibilidades, dialogando com esse espaço entre os tempos novos e os conflitos universais do romance – e claro, dando uma ideia do porquê as “aventuras domésticas” das irmãs March serem tão relacionáveis e atemporais.

Voltando à pergunta feia por Mr. Dashwood a Jo March, a resposta seria certamente diferente hoje em dia, mas é provável que as reflexões dela ainda tenham plena validade assim como a importância de Little Women para as novas gerações.  


Data de estreia: 09 de janeiro de 2020
Título Original: Little Women
Gênero: Drama
Duração: 2h15
Classificação: 10 anos
País: Estados Unidos
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig, adaptando o livro ‘Mulherzinhas’, de Louisa May Alcott
Cinematografia: Yorick Le Saux
Edição: Nick Houy
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Elenco: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Emma Watson, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Mery Streep, Bob Odenkirk, Tracy Letts

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