CRÍTICA: A BRUXA

by Thiago de Mello

Antes de mais nada é preciso deixar claro que o título do filme está incompleto. Na abertura, o título apresentado é The Witch: A New-England Folktale, que pode ser livremente traduzido para A Bruxa: Um conto folclórico da Nova Inglaterra. É isso que o filme nos apresenta: um conto de horror, uma história com começo, meio e fim, linear, conciso, com poucos personagens e ações que se encaminham diretamente para o desfecho.

A Bruxa acontece na Inglaterra, em 1630, e acompanha a devota família de William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) que é excomungada e banida do vilarejo onde vivem. Junto de seus filhos Thomasin (Anya Taylor-Joy), Caleb (Harvey Scrimshaw) e os gêmeos Mercy e Jonas (Ellie Grainger e Lucas Dawson, respectivamente) – a família estabelece nova casa no meio de uma floresta isolada. Já na nova propriedade, nasce Samuel, filho mais novo do casal, que desaparece misteriosamente, pouco tempo depois, quando estava aos cuidados de Thomasin. E são nas consequências desse desaparecimento que o filme acontece: afinal, há uma bruxa na floresta? Em poucos minutos nós, espectadores, sabemos a resposta. Mas a família, não.

Escrito e dirigido pelo estreante Robert Eggers, A Bruxa certamente divide opiniões. A força deste filme está no poder de sugestão. Não há jump-scares, violência gráfica e gratuita, litros de sangue ou uma edição frenética. O terror acontece quase sempre fora da tela, na expressão dos personagens, nas sombras da floresta.

A história é construída aos poucos, desenvolvendo cada membro da família. Cada um possui suas camadas, seus defeitos próprios que funcionam como catalizadores dos desastres familiares que ocorrem. Principalmente William e Thomasin. O pai e a filha fazem bons diálogos, com uma boa química e movem a trama, tudo apoiado em atuações muito convincentes.

Black Phillip

Eggers utiliza todos os recursos que pode para estabelecer uma atmosfera imersiva, lúgubre e tensa. Não há muitos cortes, os takes são longos e a câmera não se mexe. As cores frias e neutras do filme criam uma melancolia visual. Por fim, depois de construir essa atmosfera, a trilha sonora adiciona um belo toque de horror e inquietação. Tudo no filme foi pensando para pontuar a tensão de uma época de fanatismo religioso e medo do sobrenatural.

Outro ponto positivo é o valor de produção, que é impecável. A ambientação e o figurino passam uma forte sensação de realidade, que fica ainda mais palpável com os diálogos dos personagens. Grande parte das frases foram transcritas de relatos reais registrados na Nova Inglaterra do século 17, segundo o diretor. Cada um desses detalhes estabelece um senso de realidade histórica e cria uma ficção de horror que parece documental. Algo como “eu sei que isso não existe hoje. Mas naquela época…”.

Infelizmente, não há como fazer apenas elogios. Um ponto do filme me incomodou: a transição do primeiro para o segundo arco é lento demais. O filme começa bem, estabelece rapidamente a trama, mas depois disso ele fica muito devagar. Me peguei pensando que já estava na hora de algo acontecer.

Há, também, o final. Vi algumas críticas, mas eu achei ótimo! Ele segue o tom do filme, é coerente. Afinal, como eu disse no começo, esse é um conto de horror. E o final deixa claro que o conto acabou. Toda a história foi contada.

A Bruxa é um belo cartão de visitas de Robert Eggers. Certamente não é um filme para todos os públicos. Se você aprecia filmes mais lentos, imersivos e de horror sugestivo, A Bruxa é uma boa escolha. Mas cuidado… dormir pensando nesse filme não é muito legal. Digo por experiência própria! 😉

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