CRÍTICA | Assunto de Família

by Thiago de Mello

A temática familiar é, creio, universal. Todos nós, em determinado momento, precisamos lidar com as situações adversas que se originam em nossas famílias. E são os problemas familiares que deixam suas grandes marcas. Ou seja, a família é um elemento fundamental na determinação do indivíduo, de forma direta ou indireta. Diante tamanha importância, pergunto: o que é família? Assuntos de Família, drama japonês escrito e dirigido por Hirokazu Koreeda, foca nessa questão.

Pré-selecionado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, o filme narra a história de uma família de ladrões, liderada por Osamu Shibata (Lily Franky). Ao voltar para casa após uma série de pequenos furtos, Osamu e o jovem Shota Shibata (Jyo Kairi) encontram uma criança, a pequena Yuri Hojo (Miyu Sasaki), de um lar conturbado e decidem levá-la para casa, para ajudá-la.

Não há necessidade de elaborar mais sobre a sinopse. A premissa da obra de Hirokazu Koreeda é básica a esse ponto. De tão básica, instiga até alguns questionamentos sobre a facilidade com que Osamu e Jyo pegam Yuri. Isso, porém, não interessa à trama. O foco de Koreeda é elaborar sobre a relação familiar, mas sem qualquer forma de julgamento, glorificação ou romantização da família. A obra foca na sua complexidade inerente. Assim, Koreeda estabelece que não é o elo sanguíneo que determina a família, mas a troca de valores.

Assunto de Família é uma experiência marcante e honesta. E só percebi isso após o filme

Ao partir dessa particularidade (família não tradicional, de ladrões), Koreeda entende a necessidade de quebrar qualquer preconceito possível. Para isso, utiliza, principalmente, dois elementos. O primeiro é o roteiro simples na dinâmica, mas preciso na humanização dos personagens. Desejos e anseios tão comuns (uma boa comida, conforto do lar, prazeres carnais, desejo de contato, proximidade) determinam os objetivos diários de cada um. O segundo é a câmera que aos poucos nos conecta com cada um deles, e também une os personagens diante nossos olhos. Movimentos de aproximação e enquadramento indicam as relações entre eles, sugerindo detalhes pessoais, quase segredos. O sussurro de um “obrigado” sincero ou uma revelação pessoal demonstram a força da relação entre eles, da troca de valores que determinam cada um.

A fotografia, cujas cores lavadas denotam a obra de tom melancólico, cria ambiente favorece as grandes atuações, que criam fortes laços empático. As crianças, Jyo e Yuri, são tão carismáticas quanto competentes. Mas são Shibata e Nobuyo Shibata (Sakura Andô), a “mãe” da família, quem, para mim, os melhores personagens. Numa das grandes sequência do filme (a minha favorita), no ato final, Koreeda coloca o espectador frente a frente com o espectador, que pode olhar diretamente nos olhos de cada um deles, enquanto explicam suas motivações. Uma sequência íntima, um pouco opressora até. O que era nebuloso, fica claro. E nas confissões envergonhadas e receosas, lapsos de sinceridade tocantes surgem no olhar até então tímido. Uma espécie de orgulho inocente, fruto de um amor genuíno, porém inconsequente.

É nessa troca de valores que o filme realiza a bela conclusão ao apresentar as perspectivas de cada um, sem julgamentos. O respeito e reconhecimento que tinham entre si não obrigam a permanência, mas instiga o aprendizado. Todos sugerem ter consciência da importância da experiência e a força honrosa em permitir que o outro fique, vá e aceite as consequências. Cada conclusão, cada arco de personagem, é carregada de valor.

Assuntos de Família me causou uma experiência incomum. Embora estivesse engajado com a trama e personagens, durante a exibição eu não estava impressionado. Estava achando um filme bom e nada mais. Ao sair, aos poucos, percebi que ele me marcou. Não saía da minha cabeça. Os detalhes faziam mais e mais sentido. Não pude identificar nada fora de lugar ou sem propósito. Os personagens ficavam mais complexos. As mensagens ganharam mais substância. Koreeda realizou um trabalho minucioso, percebi, posteriormente, satisfeito. O diretor fez comigo o que fez com os personagens. Me marcou de tal forma que precisei me distanciar para ter a perspectiva da importância da experiência. Um trabalho minúcia e deliberadamente envolvente.


Data de estreia: 10 de janeiro de 2019
Título Original: Manbiki kazoku
Gênero: Drama
Duração: 2h01
Classificação: 14 anos
País: Japão
Direção: Hirokazu Koreeda
Roteiro: Hirokazu Koreeda
Edição: Hirokazu Koreeda
Cinematografia: Ryûto Kondô
Música: Haruomi Hosono
Elenco: Lily Franky, Sakura Andô, Mayu Matsuoka, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sôsuke Ikematsu

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