CRÍTICA | Capitã Marvel

by Thiago de Mello

Falta pouco para a conclusão da Fase 3 do Universo Cinematográfico da Marvel, que se encerrará em abril com a estreia de Vingadores: Ultimato. Após 10 anos de construção, expectativa, acertos e algumas decepções, o UCM atingiu proporções colossais e foi fundamental para estabelecer toda uma nova tendência em Hollywood que, até cerca de duas décadas atrás, pouco valorizava o gênero de super-heróis. Mas por que, afinal, estou falando tanto sobre o gênero ao invés de focar no filme da Capitã Marvel?Pelo contexto pois é ele que pré-determina e guia Capitã Marvel em suas forma, condução e objetivos.

Diante tamanho contexto Capitã Marvel apresenta sua série de responsabilidades. A primeira é introduzir aquela que será a grande heroína (e não se restrinja ao gênero) e uma liderança na Fase 4 do UCM. Além disso, prepara parte do terreno para as resoluções vindouras de Vingadores: Ultimato, ao lado de Homem-Formiga e a Vespa (com o reino quântico, para ser mais exato). Há também frentes “menores” como a introdução dos skrulls. Esses elementos já mensuram o peso da responsabilidade do longa.

Para mim, nessas frentes, Capitã Marvel obteve diferentes graus de êxitos. Enquanto peça do UCM, o filme dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck apoia-se na eficiência funcional que caracteriza as obras do Estúdio. É uma história de origem padronizada e familiar, que introduz e estabelece a personagem de forma objetiva. Mas no meio dessa familiaridade, Anna Boden e Ryan Fleck (que também roteirizaram o filme ao lado de Geneva Robertson-Dworet) utilizam uma dinâmica nova dentro do UCM para dar algum frescor na fórmula: o subgênero buddy cop film (ou, numa tradução livre, filme de policiais amigos).

Capitã Marvel
‘Capitã Marvel’ segue o padrão Marvel de desenvolvimento narrativo, mas ganha adornos novos, além de ser uma obra relevante no contexto global atual

Vers (Brie Larson) faz parte dos Kree, exercito de elite que está em guerra contra os skrulls, metamorfos alienígenas que buscam se infiltrar em outros mundos. Treinada por Yon-Rogg (Jude Law), Vers acaba caindo na Terra, em 1995, após fugir de uma missão que deu errado. Assim, ela decide investigar a infiltração skrull enquanto busca desvendar seu passado misterioso, ao lado de um jovem Nick Fury (Samuel L. Jackson).

É na relação entre Denvers e Fury que Capitã Marvel consegue construir uma identidade e um elemento novo dentro da mesmice (não é uma crítica, mas uma constatação) prevalente do UCM. A dinâmica da dupla emula a camaradagem do subgênero buddy cop film, ainda mais enquanto investigam sobre os skrulls e o passado de Denvers. Não há um conflito de personalidades já que ambos são símbolos de justiça e resiliência humana, mas um desenvolvimento fraternal, guiado por um humor parceiro e respeitoso (é um filme da Marvel, afinal). Soma, também, a esse frescor a boa abordagem que o roteiro dá a Nick Fury. Capitã Marvel não é a história de origem apenas da personagem-título, mas também de Fury (e dos Vingadores). Logo, pude assistir a um personagem “novo”, menos sisudo e mais brincalhão. Jackson, como não é difícil imaginar, elabora esse estilo com qualidade envolvente, guiado por uma jovialidade inocente (até então algo difícil de imaginar em Fury) que estabelece humor simples cujo resultado varia desde um singelo sorriso no canto da boca até uma gargalhada mais efusiva. Tudo isso sem deixar de lado as características primordiais de Fury, como a competência, dedicação, senso de justiça e liderança.

Mas quem brilha (literalmente também) é Brie Larson. A atriz, cuja enorme qualidade não é novidade, recebe um papel complicado. Não pela complexidade da personagem, mas pelas barreiras inerentes. A personagem mais poderosa do UCM terá protagonismo no atual império do cinema de blockbuster e não é difícil imaginar como isso pode mexer com a insegurança daqueles fãs tóxicos tão acostumados com lideranças masculinas. A Carol Denvers de Brie Larson possui alguns elementos que caracterizam outros personagens masculinos do UCM, como o humor sarcástico, tal como Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) ou Stephen Strange/Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), mas sem aquela partícula de arrogância que os denotam. A atriz constrói uma figura humana apesar do poder descomunal, que consegue intimidar e inspirar sem jamais perder o carisma natural. E é através dessa naturalidade que o roteiro é hábil em alocar momentos que apesar de breves e espaçados, são fundamentais para representar e enaltecer a representatividade feminista da obra. Não é nada panfletário, tampouco parece ser o grande objetivo do filme, que busca o entretenimento antes de qualquer coisa (novamente, é um filme da Marvel), mas que também não é omisso ou finge não reconhecer a importância de uma figura feminina tão poderosa no cenário sociocultural global. Assim, em mais ou menos quatro momentos (que eu consegui observar), o filme bate no peito e assume seus valor e responsabilidade. É assim que também inclui, de forma mais contextual, a importância e valor da sororidade. Tudo isso constrói uma jornada pessoal que culmina no catártico “eu não preciso provar nada para você”. A importância dessa constatação de Carol Denvers extrapola o filme epode muito bem, creio, ser direcionada àqueles que rejeitam ou implicam com todo esse orgulho feminista. Aplausos!

O filme também utiliza bem o cenário temporal – 1995 – para fazer humor eficiente, principalmente quanto à tecnologia da época, que rendeu boas risadas no cinema em que assisti. E embora Carol Denvers não se prive se comentários cômicos, a comédia surge principalmente de Fury. Apesar de algumas repetições (como o “gato”), no geral o humor vai razoavelmente bem.

Mas por trás do valor e certo frescor, ainda há elementos comuns no DNA do UCM que atrapalham ou pouco agradam parte do público. A trilha sonora, por exemplo, permanece esquecível e burocrática, aparecendo apenas como apoio ao visual. Ela aparece e desaparece em momentos marcados, sem criatividade ou originalidade. Uma presença que parece prezar unicamente pelo funcional. Ainda assim, cumpre com o papel. Aliada à fotografia, ela é eficiente em construir e enaltecer a figura da Capitã. Isso, porém, não implica que o 3D é bem utilizado, pois não é.

A montagem, principalmente nas lutas, também deixa a desejar. Cortes rápidos e constantes eliminam o impacto dos combates além de dificultar a apreciação. Mas há breves momentos onde a montagem apresenta boa qualidade ao utilizar match cuts visuais e sonoros para estabelecer a relação entre as memórias da Capitã, criando uma fluidez narrativa que instiga o espectador. A construção da confusão mental da personagem ganha essa boa elaboração visual.

Algo que me chamou a atenção – e agora falo de um aspecto muito mais pessoal do que crítico – foi a participação do falecido e eterno Stan Lee. Se em Homem-Aranha no Aranhaverso eu fiquei emocionado, em Capitã Marvel senti um incômodo. A imagem parece mais uma utilização vã do que uma homenagem. Me soou mais como uma exploração da imagem. Fiquei com essa impressão. Acho que vale a reflexão.

Em sua maioria, Capitã Marvel é o típico filme da Marvel, com basicamente os mesmo méritos (espetáculo, diversão, coesão no universo, etc) e deméritos (trilha fraca, certo exagero no humor, repetição, etc) dos demais. Mas há uma parte nova ali, tal como em Pantera Negra, que adorna a obra como elementos de empoderamento. Há um orgulho inerente em elaborar uma personagem feminina tão poderosa. Mas consegue der um pequeno passo além ao incluir uma nova dinâmica como buddy cop film, colocando-o acima da média do Estúdio. E além disso tudo, há Brie Larson com roupa grunge andando de moto ao som de Garbage. Ou seja, foda!


Data de estreia: 07 de março
Título Original: Captain Marvel
Gênero: Ação, Aventura, Comédia, Super-Herói
Duração: 2h04
Classificação: 12 anos
País: Estados Unidos
Direção: Anna Boden, Ryan Fleck
Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet
Edição: Debbie Berman, Elliot Graham
Cinematografia: Ben Davis
Música: Pinar Toprak
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law, Annette Bening, Lashana Lynch, Clark Gregg, Rune Temte, Gemma Chan, Algenis Perez Soto

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