CRÍTICA | O Homem Invisível

by João Rafael

Na versão de O Homem Invisível de 1933 (adaptada do romance homônimo de H. G. Wells, um dos pioneiros da ficção científica literária), o cientista Jack Griffin (Claude Rains) é bem sucedido ao desenvolver e testar em si mesmo a fórmula da invisibilidade perfeita. Porém, ao perceber que o processo é irreversível ele se isola em uma pequena cidade com objetivo de descobrir como voltar ao normal enquanto é obrigado a se “esconder” – com todo o peso da ironia – dos moradores cada vez mais desconfiados de sua agressividade e seu modo de vestir.

Parte de uma era de ouro dos monstros da Universal, o longa veio na leva de Frankenstein (1931), Drácula (1931), entre outros que se tornaram clássicos do estúdio. Uma tentativa recente de reviver o mesmo universo se deu com A Múmia (2017), que iniciaria novamente as franquias, entre elas outra adaptação de Wells que seria protagonizada por Johnny Depp. O fracasso de crítica e público fez o estúdio mudar de ideia e, aproveitando o atual momento da indústria, a chance retorna com uma releitura que mantém apenas alguns nomes e o mote principal. A diferença é que o protagonismo passa para uma vítima de um abusador, mudando completamente a motivação central por trás da história. Mas, apesar de dar uma camada de originalidade ao material original, será que O Homem Invisível (2020) consegue escapar das armadilhas de um thriller formulaico comum?

O conflito que tendia ao maniqueísmo do filme de 1933 (e aqui falo exclusivamente dele, não do livro) – mesmo que arriscando associações temáticas inseridas em discursos de um “exército invisível e poderoso” no mesmo ano em que Hitler se tornava chanceler da Alemanha e em comentários sociais do típico pária que deseja ser visto – era resultado de um mero recurso que tornava Griffin mau porque a fórmula que ele ingeria continha um composto desconhecido por ele (e que se tornava, portanto, uma facilitação na hora de justificar sua descida para a violência). Ao invés disso, um grande acerto nessa versão escrita e dirigida por Leigh Whannell (Sobrenatural: A Origem, Upgrade: Atualização) é dar uma motivação bastante relacionável (infelizmente) com uma pauta atual: a discussão em torno dos relacionamentos abusivos perpetrados por um machismo extremamente tóxico e violento.

Cecilia Kass (Elisabeth Moss) vive um relacionamento com um gênio empresário do ramo da tecnologia (especificamente da óptica). Extremamente controlador, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen) a mantém basicamente como uma prisioneira em sua mansão à beira-mar. Após uma série de agressões físicas e psicológicas, ela decide fugir com a ajuda da irmã, Emily (Harriet Dyer) e é acolhida pelo bondoso policial James Lanier (Aldis Hodge) e sua filha Sydney (Storm Reid). Assim que chega a notícia de que ex companheiro cometera suicídio, Cecilia passa acreditar que seu abusador pode estar vivo e a perseguindo pela casa, levando-a a desconfiar que ele está presente, mesmo que não possa ser visto.

A associação imediata entre as duas ideias é o que serve de abordagem central na narrativa: a possibilidade do homem que foi responsável por destruir psicologicamente a protagonista durante tanto tempo estar assombrando sua vítima mesmo depois de morto é o suficiente para que a paranoia se torne a grande vilã da trama. Assim como boa parte das vítimas de um relacionamento tóxico, Cecilia é uma representação de mulheres que caíram nas graças de um homem aparentemente charmoso, sensível e inteligente somente para depois se verem cercadas por um ciclo de culpabilização e auto punição. Não é incomum que várias delas passem muito tempo imaginando serem, de alguma forma, o motivo para que o parceiro se torne cada vez mais hostil, o que é, claro, apenas a forma como ele direciona a própria crueldade e imaturidade emocional de volta.

Basta que se pegue alguns depoimentos sobre vítimas dessas situações para notar como a prisão psicológica as impedia de se enxergar como tal. Nesse ponto, se destaca como de costume a ótima atuação de Elisabeth Moss (Mad Men, The Handmaid´s Tale, Nós, Rainhas do Crime). Note a confusão e a dificuldade em seu rosto, por exemplo, quando ela tenta transmitir um senso de equilíbrio ao relembrar os últimos anos em um monólogo tocante que mistura vergonha, força e uma batalha constate contra o resquício do poder que Adrien tinha sobre ela. Portanto, não é exagero que algo simples como sair de casa sozinha de manhã em uma vizinhança tranquila pareça um ato de bravura para alguém que se acostumou a ser vigiada e punida constantemente. O mesmo sentimento passa a aumentar quando acontecimentos estranhos começam aterrorizar moça, fazendo com que ela pareça descontrolada na visão daqueles que estão de fora. Não é surpresa também que ela logo descubra que para todo abusador poderoso, há um aparato sistemático que fortalece a culpabilização da vítima, mesmo que (no caso do filme) há uma herança milionária que a beneficie.

‘O Homem Invisível’ acerta na primeira metade ao realizar um ótimo suspense com base no trauma de um relacionamento abusivo, mas cai na armadilha genérica em sua 2ª parte.

É por isso que o diretor Leigh Whannell acerta em reproduzir esse trauma nos moldes de um suspense que toma elementos de filmes de assombração para servir como uma metáfora do medo que insiste em fazer parte da vida de Cecilia, mesmo que lhe deem certeza de que ele está morto. Através de um ótimo trabalho de câmera e da mise-en-scène, a sensação de terror perpassa nos cantos dos enquadramentos e nos espações vazios que atraem o olhar do público, criando uma expectativa crescente de que algo sempre está para acontecer. A dúvida, até certo ponto, se o que vemos é “apenas” o trauma da protagonista se manifestando ou se trata realmente de um Adrian invisível é o que dá gosto na primeira metade da narrativa. Apesar do cineasta exagerar em alguns jumpscares e suas subsequentes explosões de barulho, é preciso admitir que eles ao menos funcionam pois há uma tensão por trás que os justificam.

Já que falei em metade, é assim que a obra acaba se dividindo também em termos de suas qualidades. Se em uma parte ela funciona muito bem como um suspense psicológico e inventivo, na outra era inevitável que Whannell acabasse caindo em convecções que o obrigam e encaixar sua história em nome da construção de um clímax e uma conclusão. Significa basicamente que a narrativa entra numa descendente ao apelar para clichês e diversas facilitações (daquelas que exigem bastante de nossa boa vontade) como se numa tentativa de tornar a experiência mais explosiva. Aí entram decisões estúpidas de personagens que são colocados como o suprassumo da inteligência, situações exageradas que desafiam uma lógica que o filme não havia sustentado e uma insistente exposição da temática do abuso que tende a enfraquecer o poder simbólico justamente ao martelar seus significados ao público (conte quantas vezes algum alguém fala frases de efeito que resumem o que é um relacionamento abusivo).

Esse desequilíbrio torna o lado bom de O Homem Invisível uma promessa não cumprida. Um ótimo exemplar de gênero com um tema que trabalha em duas camadas, além de amarrar bem a essência do clássico de Wells com uma repaginada atual. Em compensação, a mesmo urgência do formato suga o potencial restante da obra, o tornando cada vez mais absurdo e tudo aquilo que ele não parecia ser antes: genérico.      


Data de estreia: 27 de fevereiro de 2020
Título Original: The Invisible Man
Gênero: Suspense
Duração: 2h04
Classificação: 16
País: EUA
Direção: Leigh Whannell
Roteiro: Leigh Whannell
Cinematografia: Stefan Duscio
Edição: Andy Canny
Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch
Elenco: Elizabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Harriet Dyer, Aldis Hodge, Storm Reid, Michael Dorman

 

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