CRÍTICA | Sonic – O Filme

by João Rafael

Como fazer para extrair um longa metragem de um jogo cujo objetivo era simplesmente atravessar fases pulando obstáculos, desviando de inimigos e derrotando o mesmo chefão repetidas vezes? Puxando pela nostalgia, isso bastava para os anos 90, onde as aventuras de Sonic, o ouriço azul carro-chefe da Sega na época, eram o auge dos games em 2d. Não era necessário nada muito elaborado, desde que a jornada fosse divertida. Algo semelhante pode ser defendido para a nossa outra mídia em questão: o cinema. Afinal, a jornada em um filme conversa exatamente com sua narrativa, ou seja, COMO tudo acontece ao invés de somente O QUE. Porém, as coisas começam a ficar diferentes quando é preciso mudar a natureza da participação ativa num console para o engajamento que o storytelling precisa. É necessário ter personagens com motivações, conflitos e um objetivo que justifique um longa de 100 minutos. Portanto, é com certa surpresa que Sonic – O Filme conseguiu ao mesmo tempo referenciar a franquia japonesa de games e adaptar o material para um resultado razoável em termos de entretenimento audiovisual.

A tarefa já não estava sendo das mais gratas para a equipe comandada pelo diretor Jeff Fowler, cujo o único trabalho listado no posto é o curta Gopher Broke (2004). A grande polêmica foi a aparência do protagonista mostrada no primeiro trailer. Como é de costume, a internet se revoltou com a estranheza causada pelas primeiras imagens e praticamente exigiu que fosse refeita meses antes da estreia. Acabou que a escolha foi acertada e o visual se tornou bem mais simpático e expressivo. Boa parte da identificação e transformação dos 16 bits do Mega Drive para um personagem que exibe expressões humanas dependia do CGI e sua inserção no mundo live-action. Nesse caso, há de se reconhecer a prudência de não colocá-lo o tempo todo interagindo diretamente com os humanos (no sentido de não haver muitos toques, abraços, apertos de mão, etc), e quando isso acontece é onde a fragilidade fica mais evidente.

Em compensação, a caracterização, tanto física quanto de construção do personagem, suplanta esses percalços e o resultado é bem positivo. Graças ao trabalho de antropomorfizar o animalzinho da forma correta, dando-lhe características que o tornariam um protagonista carismático se ele fosse de qualquer outra espécie, é fácil se simpatizar com ele, especialmente o espectador infantil. Aliado a isso, o ótimo trabalho de voz de Ben Schwartz (aqui vai o agradecimento à Paramount Pictures por disponibilizar a versão original na cabine de imprensa) contribui para uma imediata conexão, jamais se tornando irritante ou exagerado demais.    

‘Sonic – O Filme’ é tão descompromissado quanto deveria ser uma adaptação do game dos anos 90.

Por outro lado, a escala da indignação pela aparência estava escondendo o que deveria ser a real preocupação: de que argumento o roteiro de Patrick Casey e Josh Miller (ambos vindos de listagens na TV, curtas e clipes) partiu para criar uma história minimamente substancial? A premissa assume logo que Sonic é um animal de outro planeta, que vivia numa ilha paradisíaca (e cheia de loopings) até ser obrigado a fugir usando argolas mágicas que permitem uma passagem instantânea para outros lugares (bem ao estilo Doutor Estranho). Ele vai parar na Terra, onde passa 10 anos vivendo em Green Hills (nome da fase mais famosa do game), até que é perseguido pelo Dr. Robotnik (Jim Carrey). Um acidente faz com que suas argolas vão parar em São Francisco, o obrigando a viajar da pequena cidade onde vivia a fim de resgatá-las para que possa escapar novamente, contando com a ajuda do policial Tom Wachowski (James Marsden).

O objeto a ser perseguido da franquia (as esmeraldas) foi, portanto, apenas substituído pelas argolas, com a adição de um elemento necessário: um conflito de dimensão pessoal. O protagonista se sente sozinho pois tem de viver escondido e passa a nutrir uma espécie de amizade platônica por Tom e sua esposa Maddie (Tika Sumpter), os espionando enquanto imagina fazer parte de suas vidas. Assim que finalmente se conhecem, o filme aposta na abordagem “fofinha” e no humor baseado no carisma de Tom e Sonic. Grande parte disso deriva da escolha de retratar o ouriço como uma criança de personalidade espirituosa, inocente e levemente sarcástica – e aqui fica clara a influência a la Deadpool que o coloca falando com o público e fazendo algumas piadas sobre cultura pop (bem mais leves, obviamente). A boa notícia é que, na maior parte do tempo, isso acaba funcionando, mesmo que recorra a um exagero de criar situações meio desconexas para preencher a jornada da dupla – como é o caso das interrupções na trama obrigadas a criar uma conexão profunda entre eles para justificar um nível dramático que a obra nunca realmente alcança.

Do outro lado, está a parte antagonista de Robotnik, que, na pele de outro ator, soaria apenas como um vilão aborrecido e copiado dos jogos. De fato, ele é uma caricatura e não há muito o que justifique suas ações. O fato de ser um gênio da tecnologia já é o bastante para o seu background, mas ele basicamente faz o que faz por ser mau. A diferença é que Jim Carrey tem talento de sobra e se diverte no papel como não fazia há tempos, chegando até a lembrar suas atuações cômicas dos anos 90. A prova de sua habilidade e experiência não está apenas no humor físico, mas em saber a hora de botar o pé no freio quando as caras e bocas ameaçam passar do ponto (não é surpresa constatar nas entrevistas que ele teve bastante liberdade para improvisar suas cenas). O único lado negativo é que ele está no filme ainda menos do que merecia, mas aproveita bem cada momento.

É praticamente dele que originam as premissas para as cenas de ação, já que só suas máquinas ultra tecnológicas são páreas para a super velocidade de Sonic. Nesse aspecto, o longa se sai bem ao equilibrar o bom CGI entre a concepção nas bugigangas de Robotnik e um certo tom lúdico que puxa a narrativa para uma leveza proposital. Mais surpreendente ainda é que essas sequências são bastante operantes do ponto de vista da direção de Jeff Fowler – embora tenha se de apontar que não há lá muita inventividade em diversifica-las, basicamente recorrendo a uma repetição, incluindo a tendência de emular o estilo Mercúrio em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido ao resumir a habilidade de Sonic em derrotar com facilidade os inimigos enquanto se move muito mais rápido que o mundo ao seu redor.

Essa facilidade, aliás, é outra faca de dois gumes. Virado para o público infanto-juvenil (mesmo que recorra à nostalgia de quem está na casa dos 30 anos), o tom geral é de descontração, em boa parte pelo humor, mas também por jamais dar qualquer urgência à trama. Não se teme por ninguém e as tentativas de empurrar um drama mais marcado soam bobas e superficiais. Por outro lado, o filme esconde pouco sua galhofa e o desligamento de querer exigir graus de coerência até medianos pode ser benéfico, tendo como consequência uma diversão descompromissada, com um visual vibrante e um humor eficiente.  

E para quem guarda boas lembranças da franquia (como eu), há outro acerto de Fowler ao inserir as marcas registradas dos jogos de forma orgânica na narrativa. Aí vão desde os elementos mais básicos, como a música tema, até outros que surgem causando um sorrisinho dos mais velhos. Era difícil imaginar como iriam retratar, por exemplo, a tática de ataque mais famosa do Sonic girando para cima dos inimigos, mas ela funciona pela lógica encontrada e pelo não exagero. Já outro (e meu favorito) envolve os icônicos sapatinhos vermelhos do personagem, talvez a única cena que realmente tenha arrancado um “ah que bonitinho” sincero.

Longe de ter resultado na tragédia que se esperava, Sonic – O Filme faz um feijão com arroz tradicional para um público que não deve esperar nada além de um produto com a diversão mais inofensiva e familiar possível. E talvez ele sirva pra isso mesmo: apresentar um pouco da nostalgia para uma nova geração e lembrar os pais de quando eles passavam horas jogando videogame, assim como os filhos. 


Data de estreia: 13 de fevereiro de 2020

Título Original: Sonic The Hedgehog
Gênero: Comédia
Duração: 1h40
Classificação: Livre
País: EUA
Direção: Jeff Fowler
Roteiro: Patrick Casey, Josh Miller
Cinematografia: Stephen F. Windon
Edição: Debra Neil-Fisher, Stacey Schroeder
Trilha Sonora: Junkie XL
Elenco: Ben Schwartz, James Marsden, Jim Carrey, Adam Pally, Tika Sumpter

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