CRÍTICA | Um Lindo Dia na Vizinhança

by João Rafael

Quando o ótimo documentário Won´t You Be My Neighbor foi lançado em 2018, houve a expectativa de que seria um forte candidato ao Oscar da categoria, principalmente diante da recepção positiva e da figura do protagonista, Fred Rogers. O Mr. Rogers – assim conhecido popularmente – foi um apresentador famoso de um programa de TV infantil que durou pouco mais de três décadas e entrou de vez na cultura americana como uma representação quase santificada da bondade, numa imagem tão fácil de se simpatizar que não era incomum confundi-la com seu próprio intérprete. Acabou que a obra foi esnobada na reta final e não entrou nos indicados. Sobrou então que a atenção necessária fosse direcionada a uma – em parte – cinebiografia (como sempre, ainda insistem em não tratar um documentário no mesmo “status” de uma ficção), de preferência com alguém que passe a mesma sensação de ser tão estimado e cada vez mais associado com personagens fáceis de se gostar. Tom Hanks, claro, foi uma escolha quase natural e Um Lindo Dia na Vizinhança transborda o mesmo espírito afável de qualquer episódio do show de onde foi inspirado.

Mas o protagonista não é Mr Rogers (Hanks), e sim o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys). Conhecido pela escrita mais agressiva de suas matérias, é contratado para traçar um perfil do apresentador como parte de uma série de reportagens sobre figuras heroicas dos EUA. Decidido a investigar a verdadeira personalidade daquele homem, Vogel deseja descobrir quem é de verdade que se esconde sob a imagem meiga de Fred Rogers. À medida em que o conhece mais, sua postura cínica vai se entregando aos poucos à visão de mundo insistentemente positiva e terapêutica do entrevistado, o levando a rever os próprios fantasmas do passado em relação ao seu turbulento histórico familiar.

É basicamente esse contraste entre a dupla que serve como base para a abordagem da diretora Marielle Heller (O Diário de uma Adolescente, Poderia Me Perdoar?). Assim que recebe a incumbência de o entrevistar por uma hora no intervalo de uma gravação, o faro apurador de Lloyd, conhecido pela “falta de gentileza” ao escrever sobre personalidades no jornal onde trabalha, vê uma oportunidade de encontrar algum sinal de que torne falha aquela figura aparentemente perfeita. Nesse tempo, o impacto acaba sendo inesperado: “ele é mais complexo do que eu achava”, diz ele quando se depara com um Fred aparentemente igual ao personagem no programa, cuja filosofia é a mais simples possível de aceitar todo mundo como cada um é.

Aliás, uma qualidade notável de Mister Roger´s Neighborhood é transformar o que poderia ser facilmente considerado um amontoado de clichês de autoajuda em lições de vida profundas para crianças na forma única como seu apresentador as colocava. Famoso também por tratar de temas mais pesados para esse público, o programa tocava em assuntos como morte, doença, guerra e tragédias familiares de uma maneira que jamais se tornava inapropriada. Do contrário, o próprio Rogers afirmava que as crianças deveriam ser capazes de entender que a vida nem sempre se apresentaria por caminhos fáceis e que aceitar seu lado negativo era parte de seu amadurecimento. E o que Lloyd acaba encontrando é um homem de meia idade que parece estar tão tocado pelas próprias mensagens quanto sua audiência – o que pode ser visto em uma ótima cena onde ele o observa visivelmente emocionado por trás das câmeras ao controlar um fantoche durante um de seus esquetes.

Mostrando porque é um ator sempre acima da média, Tom Hanks encara essa faceta com facilidade. Desde o tom cadenciado da voz até e sensação de algum tipo de tristeza que se esconde por detrás do olhar, a figura de Mr Rogers nos convida o tempo todo a tentar decifra-lo, como se fosse impossível alguém ser assim tão amável sem que houvesse alguma máscara cobrindo suas verdadeiras intenções. Junto com o protagonista, por outro lado, somos desafiados a aceitar que essa personalidade parece tão falsamente altruísta pelo simples fato de que o pessimismo moldado pelas circunstâncias já é algo que faz parte da vida adulta. Por esse motivo, por exemplo, é curioso quando questionado sobre as razões de não comer carne, ao invés de usar justificativas políticas ou recorrer a um discurso mais elaborado, simplesmente responde: “não consigo me imaginar comendo alguma coisa que teve uma mãe”.   

‘Um Lindo Dia na Vizinhança’ é um feel good movie com a cara do homem que serviu de inspiração.

Essa aura criada em cima do personagem não só faz parte do roteiro (escrito por Noah Harpster e Micah Fitzmerman-Blue, inspirado no artigo do de Tom Junod), mas também nas escolhas narrativas e visuais de Marielle Heller. Infelizmente, esse é um dos pontos fracos do longa, já que a possibilidade de conhecer o “verdadeiro” Fred Rogers não vai muito longe justamente porque as informações sobre sua personalidade só são fornecidas por recursos que apenas sugerem uma breve explicação – no caso, há praticamente uma única cena onde sua mulher insinua que ele “não é perfeito” através de uma série de exposições que só arriscam um vislumbre de sua personalidade. Desse modo, mesmo que essa tendência unidimensional do personagem seja carismática, fica difícil comprar todo o fascínio que Lloyd adquire por ele e, principalmente, a influência que este passa a exercer em sua vida.

Caracterizado com bastante competência por Matthew Rhys (excelente também em The Americans, uma das melhores séries que pouca gente viu), seu personagem já é apresentado com um semblante fechado e constantemente com o rosto coberto sombras. O passado complicado com o pai, Jerry (Chris Cooper), faz com que vários traumas retornem e interfiram no relacionamento com a mulher, Andrea (Susan Kelechi-Watson), e o filho recém-nascido. Nesse ponto, a mensagem já é clara: Fred Rogers se sente atraído por pessoas como Lloyd Vogel e passa a tentar ajuda-las assim como faz em seu trabalho, porque acredita no poder da simplicidade de suas lições de vida. Assim mesmo, Heller insiste na ideia de colocar o protagonista como um caso da semana, recorrendo, por exemplo, ao recurso metalinguístico de mesclar a narrativa ao formato do programa através da substituição dos establishing shots tradicionais (planos abertos de cidades, ruas, aeroportos, etc) por versões em miniatura assim como a abertura de Won´t You Be My Neighbor. A escolha dá certo no início, mas com o tempo ela se torna óbvia.

O mesmo pode se dizer da forma como a presença de Fred afeta o protagonista. Se já estava clara a natureza da relação entre os dois, a cineasta parece martelar a ideia repetidamente, tornando o melodrama saudável em algo que vai ficando carregado demais. As transições que fundem Lloyd aos fantoches, por exemplo, chegam ao cúmulo de gritar a moral do filme ao espectador. De forma semelhante, a sequência que envolve um sonho/delírio em que ele se vê como um participante do programa é exagerada e perde muito na falta de sutileza (algo que me lembrou os piores momentos de Steven Spielberg). Note que “melodrama saudável” é um termo que se aplicava bem, já que a própria persona do apresentador, aliada à ótima atuação de Hanks, já era suficiente para aceitarmos a visão docemente inocente do longa, tornando ainda mais descartável a mão pesada sobre a qual ela insiste em apoiar.

Em contrapartida, é preciso reconhecer que, formalmente, poderia se argumentar que esse didatismo se aproxima da forma como Rogers tratava seus ensinamentos. Nesse caso, é a intenção de Heller que o público se deitasse no divã e retornasse aos tempos de criança, onde as ideias de perdão vs rancor eram privilegiadas pela pureza na infância, agora ressignificadas à vida adulta. Talvez por isso é que saí da sessão carregando um leve sorriso. Pode ser que seja resultado do ótimo plano derradeiro, que finalmente usa de forma inteligente uma pista do roteiro para dar algum gostinho acerca do homem por trás do herói, ou então Um Lindo Dia na Vizinhança é o tipo de obra que resgata um certo ar clássico (no melhor estilo Frank Capra), que apela para o emotivo sem jamais soar desonesto.

Há também, claro, a possibilidade de estarmos todos contaminados demais com o cinismo para aceitarmos alguém como Mr Rogers.         


Data de estreia: 23 de janeiro de 2020
Título Original: A Beautiful Day in the Neighborhood
Gênero: Drama
Duração: 1h49
Classificação: 12 anos
País: Estados Unidos
Direção: Marielle Heller
Roteiro: Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue, inspirado no artigo ‘Can You Say… Hero‘, de Tom Junod
Cinematografia: Jody Lee Lipes
Edição: Anne McCabe
Trilha Sonora: Nate Heller
Elenco: Matthew Rhys, Tom Hanks, Chris Cooper, Susan Kelechi-Watson, Maddie Corman, Enrico Colantoni, Wendy Makkena, Tammy Blanchard

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