CRÍTICA | Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw

by João Rafael

A saga Velozes & Furiosos está completando impressionantes 18 anos de idade em 2019. De lá para cá, foram 9 exemplares, uma bilheteria total de pouco mais de 5 bilhões de dólares (a 9ª no hanking de todos os tempos) e uma marca de sucesso que levou o ator Vin Diesel ao estrelato. Além dos números, a série ainda ajudou a popularizar o gosto por carros em um público jovem na época do lançamento de seu primeiro filme (pessoalmente, me lembro da febre que isso gerou entre meu círculo de conhecidos…) e, mesmo não mantendo níveis de qualidade compatíveis com suas pretensões lucrativas, muito provavelmente se manterá firme e forte dentro do nicho dos aficionados pelas quatro rodas.

Mas o fato é que se ela tivesse continuado apenas presa a essa temática, teria se perdido entre fracassos e o esquecimento. Os produtores perceberam e, a partir de Velozes & Furiosos 5: Operação Rio (2011), a abordagem deu uma guinada para os heist movies (filmes de ação sobre grandes assaltos e invasões), aceitando que para se equiparar aos grandes lançamentos do gênero deveria promover seus protagonistas de pilotos renegados a quase super-heróis indestrutíveis, sempre preparados para salvar o mundo de ameaças megalomaníacas que sequer seriam aceitáveis em suas primeiras incursões.

E deu certo, pois as continuações ganharam fôlego ao se reconhecerem como um grande absurdo que diverte. Agora, com Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw (2019), além de manter o nome da franquia, faz um spin-off de dois personagens que acabaram sendo o destaque no longa antecessor, o agente americano Luke Hobbs (Dwayne Johnson) e o inglês Deckard Shaw (Jason Statham). Chamados para recuperar um vírus mortal que se desenvolve e se espalha rapidamente, os dois são obrigados a colocar de lado as diferenças para impedir que o ex-agente secreto Brixton (Idris Elba) use a arma biológica em favor de um plano apocalíptico envolvendo novas tecnologias de robótica.

Pois é, se a breve sinopse parece genérica, a confirmação vem ao longo da trama. Aliás, a existência do vírus como grande ameaça é tão McGuffin (um objeto que não exige explicação narrativa e só serve para motivar a trama e os personagens) que só nos lembramos que está lá quando é eventualmente resgatada por algum personagem, o que se estende basicamente a todos os detalhes de uma trama que não dá para levar muito a sério. Em favor do filme, é preciso reconhecer que o roteiro de Chris Morgan e Drew Pearce claramente se reconhece como uma colagem de clichês do gênero (ainda que isso não dure por muito tempo) e chega a se divertir com diálogos e nomes obviamente escolhidos para dar uma “piscada” para o espectador. Tanto é assim que se escutássemos o nome Floco de Neve para designar uma arma biológica em outro contexto, o efeito seria involuntariamente hilário. O mesmo acontece em momentos a obra se arrisca a brincar com as próprias ideias e convenções: “Eu sou o vilão”, diz Brixton quando questionado logo em sua primeira aparição, ou quando um dos personagens chega à conclusão de que “isso parece muito absurdo” ao refletir sobre a própria lógica da trama onde se insere.

Similar é a apresentação dos dois protagonistas, que é basicamente uma versão mais exagerada de suas parições em Velozes & Furiosos 8 (2017). Servindo como uma extrapolação dos heróis bombados e com níveis de testosterona estratosféricos, a dinâmica da iteração entre os dois é uma homenagem ao gênero de ação em suas fases mais “machonas” e com suas constantes frases de efeito. Mais voltada para o humor, essa abordagem foi o que fez com que a dupla servisse de um bom alívio cômico no longa anterior e a aposta agora se repete na velha lógica dos personagens que se odeiam, mas descobrem que tem mais em comum do que imaginavam. Dwayne Johnson e Jason Statham reprisam o papel num conforto que já é compatível com o carisma que possuem (mesmo limitados dramaticamente). Aliada à premissa igualmente absurda, a graça está em ver os dois participando das situações ainda mais exageradas, onde terá um papel sempre importante a marca de cada um: a força bruta de Hobbs e a precisão e elegância de Shaw.

Dirigido por David Leitch (Atômica, Deadpool 2), o longa traz aquela mesma carga de energia em suas sequências de ação vista a partir do 5º título da franquia. Sem medo de se exceder em sua lógica, o diretor aproveita a experiência como coordenador de dublês e assistente de direção em outros exemplares do gênero para entregar ao público uma experiência que faça jus à premissa. O resultado é razoável e há ao menos duas ótimas sequências onde Leitch consegue juntar o humor na dinâmica da dupla com as explosões, os carros e helicópteros em cenas onde o absurdo permite que o espectador se divirta e sinta até uma certa tensão mesmo sem temer de fato por qualquer um dos personagens. Em alguns momentos mais pontuais, a narrativa acaba se entregando a uma câmera mais caótica e lutas corporais confusas (o que é decepcionante vindo da experiência do diretor), mas, no geral, a obra empolga na ação e se mostra satisfatório no quesito.

O problema principal não está nas características do gênero, mas no fato de que o cineasta e seus roteiristas perdem o elemento da novidade muito cedo e tudo aquilo que dava valor à obra envelhece rápido dentro da própria narrativa. Olhando de fora para dentro, não há muito como justificar os inchadíssimos 135 minutos de duração (sintoma que compartilha com o filme anterior). Assim que as peças são colocadas e a trama avança, a estrutura é obrigada a se repetir para que as sequências de ação ganhem razão de existir. De forma mais pontual, a direção e a montagem até conseguem dar um equilíbrio interessante entre a ação e o humor. Nesse sentido, os flashbacks dos protagonistas são divertidos e o vai e vem entre as motivações de Hobbs e Shaw entretêm visualmente, mesmo que o recurso do split screen acabe caindo na obviedade. Mas, no longo prazo, a narrativa se mostra extremamente cansativa antes mesmo de chegar ao seu 3º ato – aliás, tanto é assim que a história poderia ter terminado facilmente em uma boa sequência que acontece aproximadamente com 1h30, com direito aos arcos sendo fechados e com um “falso” final que não consegue justificar a retomada para mais 45 minutos dispensáveis.

‘Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw’ até diverte, mas é refém da repetição e do inchaço

O mesmo pode ser dito, infelizmente, da interação entre a dupla principal. Aquilo que nos divertiu no longa anterior se mostra acertado à medida que vamos acompanhando os conflitos se construírem. O problema é que a piada, toda baseada na dinâmica de insultos entre os dois, não tem fôlego para se segurar durante toda a história, tanto pelo fato de fazer com que seus arcos fiquem estagnados ou porque várias dessas piadas simplesmente não são engraçadas. Além de tirar constância do humor, isso ainda traz uma consequência pior: a história passa a se levar a sério quando não deveria, o que se mostra quase sempre desastroso, ainda mais quando uma trilha sonora extremamente piegas e invasiva surge do nada para lembrar ao espectador que está na hora de ficar sério e esquecer as piadas.  

No outro lado, a tentativa de dar profundidade a alguns personagens é louvável, mas não funciona. Idris Elba até faz o possível com seu grande carisma, mas o vilão Brixton sofre de uma terrível unidimensionalidade, além estar inserido em um contexto que não ganha nenhuma explicação e será, provavelmente, desenvolvido em uma continuação. A coisa funciona melhor quando o texto entende que não basta muito para colocar seus personagens no meio da ação, assim Hattie (Vanessa Kirby), por exemplo, tem o pouco que precisa para ser uma boa adição feminina na trama, e a atriz continua a mostrar sua versatilidade em projetos bem diferentes (Missão: Impossível – Efeito Fallout e a série The Crown). O contrário acontece com as participações completamente descartáveis de outros grandes nomes, como Helen Mirren e Kevin Hart. Ryan Reynolds até tenta, mas sua função na trama é basicamente servir como um tipo Deadpool fazendo brincadeiras com a cultura pop.

Relembrando o impacto positivo que da obra que originou esse spin off é impossível não fazer o paralelo entre quantidade & qualidade. A franquia definitivamente se beneficiou quando resolveu que mais era melhor, rendendo continuações divertidas mesmo quando não parecia mais ter onde ir. Já no caso de Luke Hobbs e Deckard Shaw, talvez teria sido necessário retornar ao “menos é mais”.


Data de estreia: 1º de agosto
Título Original: Fast & Furious Presents: Hobbs & Shaw
Gênero: Ação, Comédia, Aventura
Duração: 2h15
Classificação: 12 anos
País: EUA
Direção: David Leitch
Roteiro: Chris Morgan, Drew Pearce
Cinematografia: Jonathan Sela
Edição: Christopher Rouse
Elenco: Dwayne Johnson, Jason Statham, Vanessa Kirby, Idris Elba, Helen Mirren, Eddie Marsan, Eiza Gonzalez, Cliff Curtis, Kevin Hart, Ryan Reynolds

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