CRÍTICA | Liga da Justiça

by Thiago de Mello

A oscilação do Universo Cinematográfico da DC (UCDC) é, por vezes, maior do que os próprios filmes. Batman V Superman: A Origem da Justiça, Esquadrão Suicida e Homem de Aço são as provas dessa instabilidade. Porém, 2017 trouxe consigo o Mulher-Maravilha. Embora não seja um filme espetacular, renovou parte das esperanças do público para com o Estúdio. Sob essa perspectiva, Liga da Justiça chega carregado de ingrata responsabilidade: a de, no mínimo, não deixar essa esperança perecer.

Para isso, Liga da Justiça opta por seguir caminho similar ao de Mulher-Maravilha: simplicidade. Parece que o outrora estilo sombrio da DC (baseado no período grim and gritty dos quadrinhos) chegou ao fim. Embora não seja tão leve como os filmes da Marvel, Liga da Justiça também não emula o tom soturno característicos das recentes adaptações do Super-Homem.

A mudança pode ter sido tanto uma decisão consciente, quanto resultado da saída de Zack Snyder e a subsequente chegada de Joss Whedon. De qualquer maneira, o filme traz consigo uma nova atmosfera. Por um lado, dentro de seu próprio universo, consegue criar certo ar de novidade. Por outro, ainda demonstra falhas na concepção e no desenvolvimento.

Seguindo os eventos de BvS, Liga da Justiça apresenta Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) trabalhando para reunir os meta-humanos a fim de impedir que Steppenwolf (Ciarán Hinds) conclua seu plano e destrua a humanidade.

A básica premissa antecipa o viés do longa: o personagem principal é a própria Liga. Dessa forma, a montagem desempenha um papel fundamental (quando não?) na narrativa. Os editores David Brenner, Richard Pearson e Martin Walsh conseguem intercalar com eficiência os pequenos arcos, universos e apresentações de cada personagem. De maneira linear, todos os membros recebem razoável tempo em tela para desenvolver-se, tal como estipular aspectos da personalidade e motivações que justifiquem seus atos, tanto individual, como coletivo. A exceção, porém, é Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa).

Enquanto a Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot), o Batman e o Clark Kent/Super-Homem (Henry Cavill) já tiveram filmes ou participações anteriores que determinassem as características de seus personagens; e o Bary Allen/Flash (Ezra Miller) e Victor Stone/Ciborgue (Ray Fisher) recebendo mais cuidados para apresentar seus dilemas morais e existenciais, o Aquaman ganha pouca atenção. A presença do herói, composta pelo carisma de Momoa e um humor periférico oriundo de recente cultura pop e redes sociais, pouco se justifica. Há alguns elementos componentes de sua personalidade, porém, em comparação com o restante da equipe, a sensação é que o personagem foi relegado à figuração de luxo.

Ainda assim, ele, tal como os demais, possui bons momentos tanto na ação, quanto no humor. Há razoável equilíbrio entre as duas partes. Embora ainda apresente momentos de instabilidade, no somatório geral, o filme entrega uma boa combinação desses elementos.

A ação é fruto de boa direção e a conhecida e elogiável estética de Snyder. A fotografia cria momentos de bela plasticidade (a primeira aparição do Batman, por exemplo, pode muito bem ser congelada e impressa num quadro), utilizando diferentes paletas cromáticas e enquadramentos abertos para capturar movimentos grandiosos. Unido com design e edição de som, as batalhas imprimem os impactos e destruição dos golpes de cada herói e vilão. O heroísmo do grupo, e também do indivíduo, é registrado com eficiência.

Ainda assim, falta um grande momento em Liga da Justiça. Aquela situação apoteótica que emula a grandiosidade da equipe. Ao longo do filme, há pequenas sequências de ação que quase conseguem atingir esse clímax, mas ficam no quase. Assim, por mais bem elaborada que seja, a ação apresenta-se pulverizada e não consegue criar um grande e derradeiro momento. Parte desse demérito vem pela falta de uma trilha sonora adequada. Com exceção de uma cena – uma versão de Everybody Knows de Leonard Cohen, adaptada pela cantora Sigrid, em cena com a clara assinatura de Zack Snyder – onde a música recebe destaque, nenhuma composição original se sobressai. Nem mesmo o grandioso tema da Mulher-Maravilha é entoado adequadamente. Mas há, como mencionado, alguns momentos de boa qualidade, principalmente quanto às características de cada herói.

Os poderes de cada um deles, em menor ou maior escala, somam à dinâmica dos combates. E de todos, o destaque é o Flash. A concepção da supervelocidade do herói cria uma identidade própria subjetiva. Ao utilizar eletricidade estática quase como um motif, o filme apresenta a perspectiva de Allen, como ele enxerga o mundo, a forma como seu poder se manifesta.

O personagem também se destaca pelo humor, um terreno ainda pouco explorado pelo Estúdio. Embora não seja o único a fazer piadas, é ele quem mais acerta. Miller possui carisma inato, além de grande qualidade como ator, e sua composição do personagem – um jovem solitário deslumbrado por fazer parte da heróica equipe – ganha naturalidade relacionável. Por ser o principal alívio cômico do filme, Barry Allen é quem mais acerta, mas é também quem mais erra nas piadas. Mesmo assim, não é ele o ponto negativo da comédia em Liga da Justiça.

Tal como dito acima, o humor ainda é uma novidade para o UCDC. O filme se distancia muito dos anteriores quanto à atmosfera, o que cria uma situação pouco favorável para a comédia. Personagens como Flash, Aquaman e Ciborgue possuem liberdade para as realizarem as brincadeiras verbais e físicas já que é a primeira vez que aparecem como personagens principais. Ainda assim, por excesso ou pela falta de timing, cometem deslizes. Porém, quando as piadas vêm do Super-Homem e do Batman, principalmente, há certo estranhamento. Não que sejam ruins (pois nem todas são), mas por não soar condizente com as personalidades estabelecidas anteriormente.

Embora parte do humor soe deslocado, Joss Whedon teve cuidado quase inédito no UCDC ao elaborar amarras para dar coesão à história. O melhor exemplo disso é o breve e simples prólogo que estabelece o alicerce para um ponto-chave da trama. A partir da simples cena, Whedon estabelece verossímil respaldo narrativo para justificar os atos da equipe.

É possível apontar a cena como trabalho de Whedon pois trata-se de uma das várias regravações que o filme recebeu. Isso fica claro graças ao incômodo CGI que “esconde” o bigode de Henry Cavill que, à época, gravava sua participação em Missão Impossível 6. Em alguns momentos, o rosto do Super-Homem causa incômodo, por melhor que seja o CGI do resto do filme.

Mesmo com um exemplo negativo, a qualidade da computação gráfica mantém padrão digno. Ela não apenas dá vigor a diferentes cenas e sequências, como ajuda a criar um universo robusto. Por outro lado, o 3D peca pela simplicidade e mau planejamento, tornando-o descartável.

Liga da Justiça não apenas entende como também sente a responsabilidade que lhe foi atribuída. Isso reflete na forma como conduz seu próprio material. Simples, objetivo e direto, o filme opta por não arriscar em nada. No fim, tantos os erros quanto os acertos equilibram-se num resultado cujo entretenimento funciona, mas não encanta. Sem qualquer pretensão de equiparar-se com a grandiosidade de seus personagens ou universo, Liga da Justiça é um filme que diverte, mas deixa a sensação de que poderia ter ido muito além.

OS: Há duas cenas pós-créditos. Uma é fan service. A outra, uma perspectiva sobre o futuro filme. E ambas funcionam.

Liga da Justiça estreia em 16 de novembro.

 


Título original: Justice League
Gênero: Ação, aventura
Duração: 2h
Classificação: 12 anos
País: EUA
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio e Joss Whedon adaptando história de Zack Snyder e Chris Terrio
Edição: David Brenner, Richard Pearson e Martin Walsh
Cinematografia: Fabian Wagner
Trilha Sonora: Danny Elfman
Elenco: Ben Affleck, Ezra Miller, Gal Gadot,Jason Momoa, Robin Wright,Connie Nielsen, Amy Adams, Amber Heard, Henry Cavill, Diane Lane, Billy Crudup, J.K. Simmons, Ciarán Hinds, Jeremy Irons, Jesse Eisenberg, Ray Fisher, Joe Morton

 

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