CRÍTICA | Parasita

by Thiago de Mello

Seguindo o histórico da sua grande carreira, o diretor sul-coreano Joon-ho Bong elabora um intenso comentário social em Parasita: o conflito entre classes resultante do capitalismo. Ao longo do filme, essa questão é explorada através do ótimo roteiro (de Joon-ho e Han Jin Wo) de forma, no mínimo, inusitada. Digo isso porque um dos elementos mais fascinantes de Parasita é justamente a imprevisibilidade da história. A partir de uma trama relativamente simples, o filme surpreende ao seguir por direções estranhas e inquietantes. Principalmente na segunda metade. Mas mesmo diante uma escrita tão coesa e pungente, outros elementos da linguagem cinematográfica se destacam magistralmente, como o design de produção (de Ha-jun Lee) e a fotografia (de Kyung-pyo Hong). Cada palavra do vasto vocabulário do filme é uma adição ciente e precisa na elaboração do universo (e, consequentemente, do comentário social) de Parasita. Através de rimas, alegorias e perspectivas repletas de simbolismos, o filme de Joon-ho Bong disseca a desumanidade da divisão entre classes que metamorfoseia indivíduos em parasitas.

A primeira imagem do filme já diz muito: uma família que ocupa patamar baixo na sociedade. As grades ainda adicionam um aspecto de confinamento. O apartamento é apertado, entulhado de coisas, com cômodos e corredor estreitos e teto baixo. E o banheiro é ainda mais desconfortável – é estranho notar como qualquer um precisa se curvar para usar aquele vaso, um tanto humilhante. Além do problema com insetos, que rapidamente inicia as alegorias com insetos (a imagem da fumaça no rosto do patriarca pontua perfeitamente o início da transição do personagem). E para intensificar ainda mais o desconforto, dentro do apartamento a câmera prioriza planos fechados e sufocantes. Ao adotar uma perspectiva menos opressora, através da profundidade de campo, mostra como não cabem nem mesmo duas pessoas lado a lado no corredor, o que reforça ainda mais o aperto de onde vivem.

Parasita é profundo, doloroso, necessário, intenso e divertido. Em outras palavras: brilhante!

Por isso, quando Kim Ki-woo (Woo-sik Choi) chega à casa do seu novo emprego, o deslumbramento dele é mais do que justificado, é revelador. Enquanto sua família está enterrada num casebre com vista para a rua suja e com o céu coberto por uma bagunça de fios – que parecem até aquelas teias de aranhas de lugares abandonados –, seus novos patrões ocupam o topo da cidade, numa mansão adornada com um jardim verdíssimo, amplo, fresco e banhado pelo brilho idílico do sol.

(Eu lembro que nessa hora eu até pensei se o ditado “a grama do vizinho é sempre mais verde” também existe no Japão. É um verde é muito verde.)

Em Parasita, não há qualquer sutileza. O design de produção, por exemplo, retrata a assimetria social do capitalismo de forma explícita. Mas isso não diminui o valor retrato já que na realidade é exatamente isso que acontece: a divisão é descarada. A sequência onde Kim(ou Kevin, como se apresenta, para chamar a atenção de seus patrões que idolatram tudo que vem dos Estados Unidos)sai da sua casa, que é basicamente um buraco no chão, e “sobe” até o topo da montanha da elite demonstra a distância entre as realidades, através de elaboração da dimensão espacial vertical. Os mundos não são apenas distantes, o caminho também é exaustivo. E ao longo dessa “geografia”, o mise en scène expõe as realidades oriundas da divisão: na base da pirâmide social, uma comunidade populosa e desordenada; no topo, isolamento e ordem.

Ainda assim, a distância entre as classes é “apenas” o contexto que permite a elaboração dos reflexos individuais da desigualdade, oriundo de um sistema que media a relação entre classes através da exploração da necessidade.

É curioso notar, por exemplo, como o roteiro não tenta exclusivamente vilanizar ou glorificar qualquer personagem. Pelo contrário, ele busca retratar as diferentes personalidades do filme de forma humana, ou seja, falha. Ambas as famílias detém méritos próprios e valores que os humanizam de alguma forma. São famílias funcionais à suas maneiras, que se adequaram às suas próprias e distantes realidades. Realidades completamente opostas, mas guiadas pelo mesmo objetivo: a sobrevivência – cada uma à sua maneira. Diante dessa disparidade, Parasita comenta sobre a relação co-dependente, ou melhor, parasitária entre as classes.

Na primeira metade do filme, o conflito que surge através do interesse da família pobre possui tom mais cômico, ainda que o subtexto já seja incômodo. A necessidade social de sobrevivência faz com que eles adotem posturas no mínimo heterodoxas para conseguir ir além da mera sobrevivência. Eles desejam um pouco de vida. Um pouco de descompromisso e de segurança. Por isso que a cena deles no gramado – que funciona quase como um “as coisas poderiam ter sido assim” – é tão bonita. Além disso, ela evoca uma questão natural: levando em consideração tudo que fora apresentado sobre cada um deles, jamais faltaram esforço e talento nessa família. A prova, inclusive, está na cena que os reúne em celebração. Então por a situação deles é tão ruim?

A segunda metade entra nesse mérito de forma dolorosa e diametralmente oposta à comédia que pontuava o filme até então. Ao longo de toda a primeira metade, diversas partículas de informações espalhadas por todo mise em scene já exploravam as facetas e as consequências do distanciamento entre as realidades: as luzes que acendem com a chegada de Park Dong-ik (Sun-kyun Lee), o trauma do pequeno Park Da-song (Hyun-jun Jung), os hábitos alimentares da última empregada, etc. São detalhes pontuais que ajudam a desenvolver um pensamento complexo: do lado do oprimido, há desejo e fascinação pelo opressor, que conseguiu vencer e merece respeito não apenas pelo sucesso, mas também pela oportunidade que provém aos necessitados. Enquanto isso, os necessitados batalham entre si para servir patrões incapazes de realizar as tarefas mais básicas, tamanha a dependência e distanciamento de um mundo que não consideram digno o suficiente para se envolverem.

Mas de todos os detalhes, para mim um se destacou: o cheiro. É através desse elemento que Parasita conecta as realidades e todos os problemas que envolvem esse conflito. Primeiro, ele é citado como um elemento revelador sobre aquela elite que se incomoda muito com o “cheiro de pessoas que andam de metrô”, atribuindo um odor específico como uma característica inerente do povo marginalizado. E de fato há cheiro, mas não é de nascença. É o cheiro da realidade indigna do sistema que os obriga a aproveitar o veneno da rua para dedetizar a própria casa, ou a mergulhar em água de esgoto para salvar os poucos objetos que possuem. O cheiro que caracteriza e que distancia as realidades é a consequência da disparidade entre elas. Não a toa uma das primeiras coisas que faz Kim Ki-jung, ou Jessica, (So-dam Park) é tomar um banho perfumado. A habilidade da direção e de toda a equipe da obra é capaz de sugerir cheiro. E a presença dele se faz sentir realmente no clímax.

A sequência onde Park Dong-ik (Sun-kyun Lee) torce o nariz ao sentir o cheiro de Geun-se (Myeong-hoon Park) é fascinante pela implosão emocional que o gesto causa em Kim Ki-taek (Kang-ho Song, presença frequente na filmografia de Bong Joon Ho e absolutamente brilhante dentro de um filme carregador de ótimas atuações). Geun-se está coberto de sangue velho e coagulado, suor e bolo. A sugestão do cheiro é incômoda e a reação de Dong-ik é tão natural quanto ofensiva. É através desse momento que Parasita explode numa catarse violenta e inevitável.

É através da diferença entre classes que Parasita discorre sobre a complexidade dessa relação, que se mantém pulsante graças ao sistema que se alimenta da desigualdade. Do cômico ao trágico, o filme disseca a relação parasitária entre classes, com seus reflexos, consequências e motivações que vão muito além do mero maniqueísmo. Não se tratam de pessoas unicamente boas ou ruins, mas moldadas a partir da necessidade de dependência do sistema, que refletem seus aspectos mais deprimentes. Dessa forma, o filme sugere que dentro de uma realidade tão desigual, o convívio comum entre seus indivíduos é moldado por interesses tão básicos que impedem uma relação natural. Dentro do mesmo ambiente, cada um buscará sobreviver através da exploração.

Parasita é marcante, além de incômodo, engraçado, estranho e envolvente. Um filme complexo e, ao mesmo tempo, acessível que elabora uma visão gigantesca e desanimadora da realidade que redefine pessoas em parasitas.


Data de estreia: 07 de novembro de 2019
Título Original: Gisaengchung
Gênero: Comédia, Drama, Suspense
Duração: 2h12
Classificação: 16 anos
País: Coreia do Sul
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Han Jin Won
Cinematografia: Kyung-pyo Hong
Edição: Jinmo Yang
Trilha Sonora: Jaeil Jung
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Ji-so Jung

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