CRÍTICA | Todo dinheiro do mundo

by Thiago de Mello

Boa parte dos problemas de Todo dinheiro do mundo ocultam-se por trás das virtudes técnicas. Mas há também equívocos bem evidentes. Seja como for, cada percalço da narrativa diminui gradativamente o vigor da obra, prejudicando o ritmo e afastando o espectador.

O início parece promissor tanto pela história quanto pela direção de Ridley Scott. Todo dinheiro do mundo adapta a história da família Getty, uma das famílias mais ricas de todos os tempos. Em 1973, John Paul Getty III (Charlie Plummer), neto de 16 anos do magnata John Paul Getty (Christopher Plummer), é sequestrado nas ruas de Roma. Após o milionário pedido de resgate, inicia-se uma longa negociação.

Todo dinheiro do mundo

‘Todo dinheiro do mundo’ jamais vai além da superfície

A sequência do sequestro é bem realizada. A câmera de Scott e Dariusz Wolski (Alien: Covenant), o diretor de fotografia, acompanha o adolescente pelas ruas pouco iluminadas da cidade. Em preto e branco, a câmera emula tom clássico ao filme e uma realidade elegante. Ao poucos, a cor começa a surgir. O resultado final, porém, é um tom sépia pouco aprazível. Essa transição de cores faz uma reflexão acerca da fortuna dos Getty. Quando em preto e branco, a fotografia sugere que tanto dinheiro possui uma beleza meramente estética, falsa. A realidade por trás da aparente poesia do preto-e-branco é sombria, suja, desagradável e perigosa.

Ainda no primeiro ato, após o sequestro, há outra interessante sugestão de debate oriunda de Gail Harris (Michelle Williams). Através da personagem, mãe do sequestrado, o filme discursa acerca da difícil realidade feminina. Gail Harris sofre não apenas pelo sequestro do filho, mas pelo julgo social que exige dela, por ser mulher, uma postura diferente da que tem. Querem-na chorando copiosamente pelo filho. Crêem que ela é incapaz de lidar com a situação. Além disso, o sogro, John Paul Getty, atribui a ela má índole moral guiada pela cobiça a sua fortuna e, naturalmente, aos olhos do personagem, pelo gênero. Aliás, o arco do sogro também é promissor graças às motivações da sua incredulidade para com as pessoas e os motivos da sua imensa coleção artística. Diferentes situações indicam que o filme poderá ir além da recriação histórica, promovendo reflexões acerca da ganância, relacionamentos, preconceitos e a índole humana. Porém, nada disso aprofunda-se mais do que a primeira camada, dotando o filme de superficialidade.

Todo dinheiro do mundo resume-se à reconstituição histórica de um fato, com liberdades narrativas. Isso não seria problema caso a narrativa não fosse inconstante. Um exemplo claro é a narração presente no início do primeiro ato que ajuda a compor o contexto da época. A voz, aparentemente de um narrador onisciente, conta a história da fortuna dos Getty. Durante um pequeno período não linear, o filme transita pelo tempo e pelo espaço para explicar a origem do dinheiro da família. A sequência é funcional, mas o recurso narrativo desaparece repentinamente, deixando impressão que tal ferramenta foi utilizada apenas como um preguiçoso artifício.

Essa mesma inconstância acontece com Fletcher Chase (Mark Wahlberg), uma espécie de braço direito de John Paul Getty, designado pelo magnata para lidar com a negociação do neto. O personagem aparece, ganha destaque e desaparece da trama sem qualquer motivo. A narrativa abandona-o de súbito para recuperá-lo, convenientemente, no arco final.

De certa forma, isso também acontece com os demais personagens de Todo dinheiro do mundo. Cada um deles, de maior ou menor importância, é apresentado de forma promissora, mas acaba perdendo importância com o passar do tempo. Se a mãe servia como exemplificação das dificuldades da mulher num mundo dominado pelo patriarcalismo, essa premissa é abandonada e acaba por unidimensionalisar a personagem. Mas é com o avó bilionário que o filme perde grande parte da força. John Paul Getty é o núcleo narrativo da obra e suas ações até ganham lampejos de profundidade, chegando até ao ponto de humanizá-lo adequadamente. Porém, o aprofundamento acomoda-se na superfície e as motivações, sem elaboração, soam demasiadamente convencionais. Com personagens pouco dedicados, as atuações, embora positivas, não são suficientes para segurar o filme. Aliás, a indicação de Plummer para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante é um exagero.

O único personagem que possui valor próprio é Cinquanta (Romain Duris) cuja motivação e o conflito emocional criam um embate moral curioso, dando significância à suas atitudes. Dessa forma, devidamente elaborado, o espectador consegue criar empatia pelo personagem.

O roteiro de David Scarpa (que adapta obra homônima de John Pearson) carece de substância. A obra parece não saber o que quer fazer, criando ideias, personagens e possibilidades discursivas apenas para abandoná-las posteriormente. A fotografia tenta emular aspectos subjetivos dos personagens, como a mansão pouco iluminada e de paleta azulada (sugerindo a frieza e obscuridade do dinheiro e do personagem). A montagem de Claire Simpson também atrapalha o ritmo da obra. Em determinado momento, um personagem afirmar que se passaram meses desde o sequestro. A declaração soa estranha ao espectador pois, até o momento, a impressão que o filme dava era de que haviam apenas poucas semanas.

Mas é no ato final que a condução problemática de Ridley Scott se sobressai. Não há valor climático na resolução do sequestro. A longa sequência, espichada para tentar criar aflição, é maçante principalmente graças à falta de personalidade dos personagens. Sem vínculos emocionais com eles, o espectador pouco se importa com seus destinos.

O mesmo acontece com o desfecho de John Paul Getty. Scott tenta elaborar uma conexão com Cidadão Kane (de Orson Welles, 1941) graças à similaridade natural entre os personagens (ambos os mais ricos de seu tempo). Mas a superficialidade de Getty impede o estabelecimento de qualquer vínculo narrativo ou emocional, mesmo que o filme inspire-se nas cenas do clássico e recrie, com vistosa (mas vazia) fidedignidade as cenas da obra de Welles.

Todo dinheiro do mundo começa bem. O primeiro arco é marcado por promissores sugestões de reflexões acerca da ganância e preconceitos. Mas a pouca elaboração dos personagens, alinhado a problemas narrativos e de ritmo eliminam gradativamente o interesse do público. Como recriação histórica, o filme até consegue ir bem. Mas isso é pouco demais para sustentar 2h12 de uma grandiloquência vazia.

Todo dinheiro do mundo estreia em 1º de fevereiro.

 


Título original: All the Money in the World
Gênero: Drama, Biografia, Thriller
Duração: 2h12
Classificação: 16 anos
País: EUA
Direção: Ridley Scott
Roteiro: David Scarpa, baseado em obra de John Pearson
Edição: Claire Simpson
Cinematografia: Dariusz Wolski   
Trilha Sonora: Daniel Pemberton
Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Timothy Hutton, Charlie Plummer, Andrew Buchan

 

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