CRÍTICA | ALIADOS

by Thiago de Mello

Aliados, novo trabalho de Robert Zemeckis (trilogia De Volta para O Futuro, Náufrago, A Travessia), tem tudo para ser um grande filme: belos e bem trabalhados aspectos técnicos, uma proposta promissora, um elenco de peso e um diretor renomado. Porém, todas essas qualidades são ofuscadas pela falta de foco narrativo que resulta numa obra inconstante e, por isso, abaixo da média.

Segunda Guerra Mundial. 1942. Max Vatan (Brad Pitt), oficial canadense da Inteligência Britânica, se reúne com Marianne Beausejour (Marion Cotillard), uma combatente da Resistência francesa, para juntos executarem uma perigosa missão de assassinato atrás das linhas inimigas. Para não levantarem suspeitas, eles fingem ser um casal até que, de fato, se tornam um. Tempos depois, após casarem, as pressões exercidas pela guerra acabam ameaçando o relacionamento deles.

Aliados

Aliados

De paraquedas, um homem descende dos céus, sozinho e com naturalidade, nas areias de um deserto do Norte da África. Não se sabe quem é esse homem, de onde veio ou o que faz ali. A primeira cena de Aliados levanta questões que instigam o espectador. Porém, pela ótica do filme, o passado não importa. Tudo que o espectador precisa saber é que essa metáfora visual define o homem como solitário e “à deriva”, sendo deixado onde é solicitado.

O primeiro arco de Aliados propõe e entrega um ótimo thriller de guerra. O suspense de um casal que precisa se infiltrar em território inimigo, o temor inerente e a violência oriundos da guerra são capturados e retratados com elegância e objetividade, ancorados em diálogos certeiros, edição e câmeras precisas. A estética da obra é admirável, desde o figurino (indicado ao Oscar) até os cenários e locações. A boa fotografia de Don Burgess ajuda a capturar não apenas o alto valor de produção, mas também cria a atmosfera necessária para a trama. Todo o apreço estético favorece a instigante narrativa que desenvolve e alterna tensão e ação eficientes.

Durante alguns momentos, a primeira parte de Aliados dá indicativos que o gênero não se restringiria ao thriller de guerra. A própria metáfora visual da cena de abertura – um homem só no vazio –, corroborada posteriormente por outra cena no deserto, já sugere um possível romance. Até que esses indicativos começam a ganhar corpo e o filme inicia outras tramas dentro do que parecia ser o mote principal. Começam assim os deslizes determinantes de Aliados.

O segundo arco é o mais problemático. A partir do momento que a direção de Zemeckis começa a trabalhar drama e romance, o filme perde o foco. Não por culpa dos gêneros, mas pela forma como são conduzidos: concomitantes e sem qualquer fluidez. Assim, a trama apresenta uma incômoda instabilidade tônica graças a alternância entre suspense, romance e drama – além da Guerra, que ainda acontece como pano de fundo – sem naturalidade narrativa. Isoladamente, cada um dos gêneros é bem conduzido. Porém, juntos, criam um desenvolvimento problemático que atrapalha o espectador.

Dentro do suspense, o filme incute uma boa dúvida no público, que começa a prestar atenção para encontrar a resposta. Porém há um exagero redundante de sugestões que prejudica o que estava funcionando. A fim de fortalecer o “será?” que compõe a atmosfera de thriller, o longa se sabota não apenas pela repetição desnecessária da possibilidade, mas por diálogos que praticamente entregam a resposta para tal dúvida.

O arco final volta a colocar o filme em rumos melhores ao abandonar a grande quantidade de gêneros e focar no suspense, embora ainda instável. Porém, mesmo com a pequena melhora, a conclusão não permite que ele seja realmente positivo. O sentimentalismo barato da última cena entra em conflito com a tonalidade austera e realista que marca a obra, deixando o desfecho completamente incompatível com o restante da obra.

Os problemas de Aliados correspondem principalmente à bagunça narrativa conduzida por Zemeckis. Fora isso, o filme funciona muito bem em quase todos aspectos. Os trabalhos de Brad Pitt e Marion Cotillard são bons, mas não brilhantes. O casal possui química boa o suficiente para conduzir as 2h04 de filme. Isoladamente, ambos mantêm a qualidade. Já os demais coadjuvantes são apenas funcionais, uma vez que a história acompanha, basicamente, apenas Pitt Cotillard. Outro ponto positivo é a trilha sonora: simples, marcante e indutiva nos momentos certos. Porém, ela também apresenta instabilidades quando o excesso de gêneros toma conta.

Conclusão

Tecnicamente, Aliados possui muito mais qualidades do que defeitos. Porém, tais irregularidades são muito marcantes e atrapalham todo o filme, que começa muito bem, passa a alternar bons e maus momentos, volta a apresentar qualidade e termina em queda. A instabilidade é, possivelmente, a qualidade que melhor define Aliados.

E você, verá o filme? O que achou da crítica? Deixe seu comentário! E não esqueça de curtir e compartilhar! O Sete agradece.

 


 

Título original: Allied
Gênero:, Thriller, Romance, Guerra, Drama
Duração: 2h04
Classificação: 14 anos
País: Estados Unidos
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Steven Knight
Trilha Sonora: Alan Silvestri
Cinematografia: Don Burgess
Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Lizzy Caplan, Charlotte Hope, Jared Harris, Raffey Cassidy e Matthew Goode

 

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