CRÍTICA | Fragmentado

by Thiago de Mello

Traumas são eternos, e suas consequências, um mistério. São momentos definidores do ser, cujo impacto pode reverberar por décadas, moldando a pessoa de diversas maneiras. O corpo e a mente se adaptam à realidade, criando necessários mecanismos de proteção graças a um dos instintos mais básicos da vida: a autopreservação. Não há como mensurar a força do impacto, tampouco suas consequências em cada indivíduo. Fragmentado, novo filme escrito e dirigido pelo instável M. Night Shyamalan, aborda as sequelas de um trauma na mente humana, cuja capacidade, ainda desconhecida diante da dor do passado, pode criar uma realidade que beira o sobrenatural.

Shyamalan é um diretor fascinado pelo obscuro. É nesse terreno estranho e misterioso que ele encontra os elementos necessários para suas narrativas. Em Fragmentado, Shyamalan se aventura pelas possibilidades do cérebro humano. Diante de todas certezas e dúvidas da capacidade de nossa mente (principalmente quando submetida à elementos traumáticos), o diretor cria uma história sobre dor e medo.

Dennis (James McAvoy), uma das 23 personalidades que habitam o corpo de Kevin, sequestra três garotas: Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), Claire Benoit (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), para servirem de comida à 24ª identidade monstruosa que está chegando. Numa corrida contra o tempo, as garotas precisam escapar, enquanto as demais personalidades clamam por ajuda à psiquiatra de Kevin, Dr. Karen Fletcher (Betty Buckley).

Fragmentado

Três narrativas compõem Fragmentado. Além das duas citadas acima – o sequestro e a ajuda psiquiátrica -, o filme também narra a história de Casey, cujo passado ainda exerce papel determinante em seu dia-a-dia. A dor que a acompanha define a personagem, assemelhando-a (em partes), com o homem fragmentado de McAvoy. A dor, dentro da narrativa do filme, pode torna-lo uma pessoa melhor. Mas e o excesso da dor? E quando o mundo dá as costas à pessoas traumatizadas?

Shyamalan, um diretor de altos e baixos vertiginosos, responde tais perguntas com um suspense bem construído. Fragmentado é um filme imersivo, onde os momentos de tensão, na mão do hábil de Shyamalan, são construídos com precisão. Logo no início do filme, quando as garotas são raptadas, percebe-se o talento do diretor em montar uma cena simples e instigante. A trilha sonora dissonante de West Dylan Thordson também adiciona peso à construção da atmosfera densa que compõe o filme. Porém, é James McAvoy quem dá vida ao sugestivo horror do filme com uma atuação dedicada.

Ao todo, nove personalidades alternam o controle de Kevin, todas com personalidades, características físicas e trejeitos distintos. E McAvoy faz um impressionante trabalho com elas, alternando-as com naturalidade, diante os olhos do espectador, um leque de personalidades que vai da inocência infantil de um garoto de nove anos, até a ameaça física de uma criatura bestial. Mesmo que parte suas idiossincrasias sejam caricatas, o trabalho do ator é responsável pele efetividade do suspense crescente da obra.

Assim como o personagem de McAvoy, Casey é outra garota atormentada pelo passado. A jovem Anya Taylor-Joy (que debutou em grande trabalho no ótimo A Bruxa) consegue dividir bons momentos com o ator, servindo como um contraponto aos excessos de Kevin. A atuação deliberadamente contida de Taylor-Joy, centrada num semblante carregado, dá consistência ao personagem.

A construção narrativa, porém, alterna durante alguns momentos, principalmente no segundo arco, onde a história deixa de apresentar o senso de ameaça e urgência desejado. Mesmo quando o perigo é constantemente mencionado, o espectador não consegue senti-lo. Porém, o terceiro arco compensa essa desaceleração, brincando com a expectativa do público e subvertendo algumas convenções do gênero.

Entretanto, mesmo com tais desconstruções, o filme ainda se apoia em algumas saídas fáceis. O terceiro arco possui algumas coincidências que minam a experiência que, até o momento, vinha sendo construída com qualidade. O senso de ameaça, ausente no segundo arco, ganha uma construção exponencial no terceiro, mas perde parte do fôlego com alguns artifícios narrativos preguiçosos.

Por se tratar de Shyamalan, a possibilidade de um grande plot-twist é uma preocupação (ou anseio) comum entre espectadores. Fragmentado possui um certo plot-twist, mas longe de ser aquela grandiosa mudança característica do diretor. Funcionando como um epílogo, esse momento dá uma nova dimensão e possibilidade à história, que abre a possibilidade de um promissor novo filme.

Conclusão

Fragmentado é um animador trabalho de Shyamalan. Há um suspense e sugestão de horror que consegue prender o espectador, até mesmo quando a narrativa perde o ritmo no segundo arco. A conclusão, entretanto, resgata a construção climática e, mesmo patinando em alguns momentos, termina de forma positiva e promissora. Isso sem falar na atuação de James McAvoy que, por si só, já vale o ingresso.

Fragmentado estreia na quinta-feira, 23 de março.

 


 

Título original: Split
Gênero: Suspense
Duração: 1h57
Classificação: 14 anos
País: Estados Unidos
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Trilha Sonora: West Dylan Thordson
Cinematografia: Michael Gioulakis
Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Haley Lu Richardson, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus

 

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