CRÍTICA | Gostosas, Lindas & Sexies

by Thiago de Mello

Gostosas, Lindas & Sexies, dirigido por Ernani Nunes, falha em absolutamente tudo aquilo que propõe. No aspecto técnico, o que o espectador assiste é um trabalho que varia do péssimo para o burocrático (e dentro desse escopo, burocrático pode até ser encarado como um elogio). Porém, é quando o filme – e filme talvez nem seja a palavra correta, já que não há qualquer linha narrativa dentro da obra – tenta valorizar e empoderar as mulheres plus size, ele salta da margem do péssimo e mergulha de cabeça no execrável. O que era pra ser uma obra de valorização a todas as formas do corpo feminino, torna-se uma profusão de preconceitos, ofensas e estereótipos tóxicos. A comédia é simplesmente ofensiva do começo ao fim.

O que vemos, desde o primeiro minutos são apenas quatro mulheres acima do peso (umas, mais. Outras, menos) vivendo suas rotinas no Rio de Janeiro. Apenas isso. Elas vão para festas, trabalham, confraternizam, bebem, transam, etc. Em suma, elas vivem. Essa é a história de Gostosas, o dia-a-dia de Beatriz (Carolinie Figueiredo), Tânia (Lyv Ziese), Ivone (Cacau Protásio) e Marilu (Mariana Xavier).

As personagens são definidas unicamente por uma incômoda bidimensionalidade. A primeira camada é o peso. Em constante evidência, os quilos a mais que cada protagonista carrega são apontados minuto a minuto, sem qualquer motivo relevante. Criam-se diálogos com o mero objetivo de relembrar que cada uma delas é gorda. Não há discurso, objetivo ou moral. Apenas falam do peso alheio, ora em alguma forma de orgulho, ora com certo tom recriminatório. Não há qualquer consistência no discurso. Fora o peso, cada personagem possui apenas mais uma camada identificadora.

Embora o filme possua quatro protagonistas, a principal é Beatriz, uma blogueira que trabalha numa revista de boa-forma (todas as piadas e comentários “ácidos” óbvios que você pode imaginar estão lá). A personagem almeja, um dia, tornar-se uma escritora. Enquanto busca esse sonho, ela atualiza seu blog, mantém um relacionamento sério com o maravilhoso Daniel (André Bankoff) – um homem bem sucedido, dotado de um corpo magnífico e perdidamente apaixonado por Beatriz – e mantém diálogos ridiculamente absurdos com sua geladeira homossexual estereotipada, que recrimina seu peso (mais uma dos constantes lembretes sobre a silhueta das personagens). Com exceção de seu emprego, onde é constantemente criticada por seu peso – numa sequência de suposta comédia que apenas afirma que basicamente todas mulheres brancas e magras são megeras – , a vida de Beatriz é ótima. Porém, ela quer transar com o fotógrafo argentino de seu emprego. E essa é sua outra camada. A personagem tem atitudes inconsistentes ao longo do filme, buscando trair o homem que “ama”, para depois ver-se arrependida (mesmo sabendo que isso aconteceria, que o fotógrafo só queria saber de sexo, assim como ela, mas ainda assim ela se choca ao ouvir isso). Porém, a conclusão de seus atos são ainda mais inconsistentes, culminando em momentos que simplesmente corroboram atitudes sem sentido, egoístas e mesquinhas.

Gostosas, Lindas & Sexies

As demais personagens possuem basicamente a mesma superficialidade. Ivone é uma empresária bem-sucedida, mas sem tempo para aventuras sexuais. Portanto, ao sair de uma igreja – onde rezava pedindo para transar -, é sequestrada e feita refém. Porém, o abdômen rasgado do criminoso que colocou uma arma em sua cabeça é gostoso demais para se importar com uma bobagem como um sequestro a mão armada. Assim, começa a seduzir o criminoso (seria isso uma forma de empoderamento?).

Tânia deseja ver seu marido mais vezes, porém ele sempre trabalha demais e está cansado. Sua frustração dá motivos para ela agir conforme quiser. Após ser ridicularizada por seu peso (mulheres brancas e magras, sempre megeras), ela e suas amigas, ansiosas para chegar à uma festa, pegam um táxi de um senhor (que também precisa falar o quanto são gordas). Assim, ela se vê no direito de trocar – a força – seu lugar com o motorista e dirigir da pior maneira possível, apenas para chegar mais cedo e poder continuar bebendo (ela já estava bebendo antes e durante a corrida de táxi). Além disso, dias depois, ao descobrir que o seu marido estava traindo-a, Tânia novamente se vê no direito de espancar não apenas o esposo, como a amante que, minutos antes, tentou, com educação, se retirar para não piorar a situação. Tânia a obriga a ficar sentada para que o lado mulher branca magra e megera da amante aflore e “justifique” a agressão de Tânia, numa sequência de comédia/”ação” cuja edição beira o amadorismo, incluindo uma voadora no pior estilo do saudoso Chris Farley. E esse momento de agressão ganha ares de corroboração e incentivo já que pouco tempo depois, após o vídeo da briga viralizar nas redes, Tânia é premiada com diversas propostas de novelas e reality shows, tornando-se uma amada celebridade e justiceira.

Por fim, temos Marilu, uma personagem que se fosse um homem, seria a personificação do machismo. Ela é simplesmente sedenta por sexo, a ponto de cobiçar abertamente o namorado de Beatriz (o que, para elas, não há o menor problema). Ela objetifica todos os homens que vê, reduzindo-os a meros pênis ambulantes. Aqui é preciso ser feito uma ponderação: não estou falando que homens sofrem o mesmo preconceito que assolam as mulheres deste mundo. Porém, levando em consideração que a objetificação é nociva, seria ela uma forma de piada, independentemente do gênero? Não me parece que sim.

Não há qualquer tentativa de sutileza na comédia dirigida por Nunes e roteirizada por Vinícius Marques, a partir de argumento também de Nunes. Cada piada é contada e repetida ao espectador e todas são, basicamente, “elas são gordas”. O filme pinta retratos desprezíveis das pessoas no que seria uma tentativa de evidenciar uma sociedade preconceituosa. Porém, ele o faz através de preconceitos. E isso fica bem claro numa tentativa de humor ultrajante e deprimente que tenta fazer rir da situação alimentar indígena, questionando a existência de índios gordos. Cria-se uma piada em detrimento da péssima realidade de inúmeras aldeias e comunidades descartadas pela sociedade que batalham com sérios problemas alimentares, seja por falta de atenção do Estado, por genética, por escassez de dinheiro ou alimentos. E tanto Nunes como Marques vêem nisso uma forma de piada. Esse momento é bastante elucidativo quanto à forma de “humor” que o filme tanto se apoia.

Conclusão

Gostosas, Lindas & Sexies é um filme nocivo quanto sua mensagem. Ele busca um empoderamento, mas o faz através de mais preconceito, num universo onde se você é criticada por fugir à regra do corpo “ideal”, você pode fazer o que quiser e todas as outras pessoas que são as vilãs. Atitudes ruins merecem aplausos e podem melhorar sua vida em todos aspectos, desde o amoroso até o profissional.

Fora a “mensagem”, há momentos narrativos completamente desprovidos de propósito. Um dele, já citado, é o diálogo esquizofrênico de Beatriz e a geladeira gay. Além deste, temos cenas como uma briga no salão de beleza cuja descartabilidade atinge altura estratosférica. Além de vários outros.

Em suma, Gostosas… é um “filme” composto por um roteiro inexistente, diálogos risíveis, atuações sofríveis e uma direção nula. Mas o pior é o quanto ele consegue ser ofensivo, e com orgulho.

Gostosas, Lindas & Sexies estreia em 20 de abril.

 


 

Gênero:Comédia
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Direção: Ernani Nunes
Roteiro: Vinícius Marques
Cinematografia: Marcelo Brasil
Elenco: Carolinie Figueiredo, Mariana Xavier, Cacau Protásio, Lyv Ziese, André Bankoff, Juliana Alves, Carlos Bonow, Marcos Pasquim

 

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