CRÍTICA | Paixão Obsessiva

by Thiago de Mello

Julia Banks (Rosario Dawson) está sentada numa sala de interrogação de alguma delegacia, com um semblante tenso e o rosto bastante machucado. “Aparentemente, uma vítima”, imagina o espectador, naturalmente. De repente, um detetive adentra a sala e questiona a inocência da mulher. “Opa, será que ela tem culpa de algo?”, imagina novamente o espectador. Essa promissora sugestão dura poucos segundos, já que rapidamente o filme entrega elementos – e bem fracos, diga-se – que não apenas anulam a dúvida quanto à personagem, como também eliminam qualquer expectativa que o suspense Paixão Obsessiva tentará criar subsequentemente. Assim, resta ao espectador apenas acompanhar a narrativa convencional, morosa e desleixada, até a conclusão que, a partir do momento que o detetive entrou na sala, já não tem mais qualquer fator positivamente surpreendente.

Paixão Obsessiva tenta bastante criar algo que capture a atenção do espectador, porém cada elemento utilizado para tal efeito é mal conduzido. A narrativa, por exemplo, segue uma condução não-linear cujo objetivo é plantar uma dúvida quanto à personagem principal. Mas o filme constantemente se sabota, eliminando a expectativa antes mesmo de criá-la. Exemplo disso é a cena descrita acima – os primeiros minutos do filme –, em que as evidências nas quais o detetive se apoia para interrogar a história de Banks são meras mensagens no chat do Facebook. Como eles conseguiram? Rastrearam o computador? Como descobriram a senha? Julia Banks jamais pensou em dizer que não tinha conta na rede? E, talvez o mais importante, como isso pode ser uma prova, visto que qualquer pessoa pode criar uma conta e se passar por outra? A partir desse momento, o filme deixa claro o quanto (não) se empenhou para dar substância e profundidade à trama.

O exemplo acima é apenas um de vários artifícios preguiçosos utilizados pela diretora estreante Denise Di Novi e pelo roteirista David Johnson. O filme é conduzido por elementos rasos, cuja relevância é descartável, o que, por consequência, impede qualquer forma de interesse do público. São celulares que contêm todas as informações possíveis sobre alguém, senhas descobertas após duas ou três tentativas, segredos desnecessários, eventos importantes convenientemente ignorados, gritos ouvidos ou não conforme a necessidade, etc. Cada saída, cada diálogo, cada decisão é tomada da forma mais conveniente e pouco imaginativa possível, apenas para conduzir a história para um evento que o espectador já conseguiu antever.

Paixão Obsessiva

A irrelevância dos artifícios narrativos utilizados também se estende às personagens principais, Julia Banks e Tessa Connover (Katherine Heigl). O passado (leia-se família) de ambas é determinante em suas atitudes. Porém, sem qualquer sutileza, a forma como o passado delas nos é apresentado e utilizado não poderia ser mais caricato. São traumas e obsessões rasas, justificadas por poucas frases e diálogos superficiais, que buscam dar corpo às personagens, mas, no final, apenas soam preguiçosos e triviais.

Com papéis mal escritos, as atrizes têm pouco material para trabalhar. Dessa forma, ambas se esforçam, mas atingem resultados diferentes. Rosario Dawson tenta dar vida à personagem através de uma atuação simples, meramente reativa. Ela consegue entregar com eficiência as emoções necessárias, e realiza um trabalho seguro. Porém, Heigl não obtém o mesmo êxito. A atriz se apoia apenas numa expressão frígida para dar vida à Tessa. O olhar dela busca criar uma identidade dotada de um vazio existencial, mas a forma como utiliza não dá a significância devida à atuação, que soa mais robótica do que qualquer outra coisa.

A cada momento o filme busca instigar o expectador, criando uma cena que sugere que algo de importante acontecerá, seja pelo ângulo da câmera, seja pela trilha sonora; o trabalho técnico busca criar a expectativa. Porém, não adianta colocar uma musica tensa e sugestiva e a câmera se esgueirar por cantos enquanto observa o personagem pelas costas se não houver algo até onde ir. A cena do banho é uma mostra da má condução narrativa, já que tenta ludibriar o espectador a acreditar que há um perigo ali quando, na verdade, o objetivo do momento era apenas um furto, o que fica bem claro logo no começo. Assim, esse mesmo esforço técnico torna-se desnecessário.

Já o clímax, um elemento fundamental em todo suspense, segue essa mesma linha de antecipação mal conduzida. Os eventos que encerram a trama são burocráticos e óbvios. Não há qualquer forma de surpresa em sua conclusão. Com exceção de uma. Porém, não é nada positiva.

Conclusão

Paixão Obsessiva é um suspense que jamais causa expectativa no público. A trama e os personagens parecem criados por obrigação, sem qualquer atenção a detalhes ou elementos que pudessem dotá-los de algum valor. Assim, o fraco roteiro evidencia a inexperiência da diretora que conduz o filme antecipando aquilo que deveria ser uma expectativa. O resultado é exatamente o que você poderia antecipar lendo essa crítica: fraco.

Paixão Obsessiva estreia em 20 de abril.

 


 

Título original: Unforgettable
Gênero: Suspense
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
País: USA
Direção: Denise Di Novi
Roteiro: Escrito por Christina Hodson. Roteiro de David Leslie Johnson
Cinematografia: Caleb Deschanel
Trilha Sonora: Toby Chu
Elenco: Rosario Dawson, Katherine Heigl,l Geoff Stults, Cheryl Ladd, Whitney Cummings, Robert Wisdom, Simon Kassianides, Jayson Blair, Isabella Kai Rice, Alex Quijano

 

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