CRÍTICA | Power Rangers

by Thiago de Mello

A nostalgia está em alta. Após A Bela e a Fera emular uma saudosa diversão infantil e T2 Trainspotting resgatar memórias mais maduras sobre a ruptura de paradigmas, Power Rangers evoca aqueles dias mais simples, onde TV era uma janela para uma diversão leve, animadora e descompromissada.

A adaptação da série de TV para a magnitude cinematográfica toma bons cuidados para manter a aura cativante que conquistou os fãs, a partir de 1993. A diversão simples de 22 minutos agora se estende por 2h04, e a direção de Dean Israelite consegue dar boa dinâmica à nova duração. Porém, mesmo animado, dinâmico e divertido, o longa comete um erro grave: não há Power Rangers por tempo suficiente.

O filme se apoia numa preocupação grande que é contar a origem do grupo, desde como e quando se conheceram, até finalmente utilizarem a armadura. Curiosamente, a série original não compartilhava desse receio, resumindo toda origem em poucos minutos, já que o objetivo do seriado era apenas mostrar lutas entre jovens super-heróis, monstros maiores e menores, robôs e pirotecnias. Já o longa centra suas atenções quase que unicamente no processo de transformação do grupo, relegando a maior atração – o combate pirotécnico – a poucos minutos do último arco.

Power Rangers

Quando finalmente vemos Jason – o Ranger Vermelho (Dacre Montgomery), Kimberly Ranger Rosa (Naomi Scott), BillyRanger Azul (RJ Cyler), ZackRanger Preto (Ludi Lin) e TriniRanger Amarelo (Becky G.) colocarem as armadura para salvar o mundo da Rita Repulsa (Elizabeth Banks), eles rapidamente enfrentam alguns monstros e vão para seus respectivos Zords. Dá a impressão de que, após quase duas horas de preparação para vê-los a caráter, temos apenas 10 minutos de cena. Além disso, a máscara quase nunca está posta. Para um filme dos Power Rangers, não há Rangers o suficiente.

O roteiro de John Gatins (adaptado da história escrita por Matt Sazama, Burk Sharpless, Michele Mulroney e Kieran Mulroney) entrega uma proposta formulaica, que é abraçada pela direção, trabalhando-a com qualidade e criando momentos genuinamente divertidos. Em Power Rangers, não existe qualquer pretensão de reinventar o subgênero. Assim, mesmo ancorado em clichês e convenções, o filme possui um ritmo agradável e a diversão pipoca não se omite.

Desde o início, o filme consegue capturar a atenção do espectador graças à direção de Israelite que cria tomadas bem construídas (como a perseguição inicial, utilizando uma câmera dentro do carro que acompanha a coreografia automobilística num plano de 360º e num take longo), e ao carisma e química dos atores e atrizes. São atuações apenas medianas, cujo valor encontra-se na sinergia. Nada esplendoroso, mas funcional. Afinal, trata-se de um filme honesto que utiliza sua previsibilidade a seu favor.

Outro ponto positivo que brota dessa sinceridade é a Rita Repulsa, vilã genérica (como na série), uma Ranger que, há 65 milhões de anos, se desgarrou do grupo em busca de poder para dominar o universo. Mas com essa liberdade, Elizabeth Banks utiliza um bem vindo overacting para dar vida à vilã que possui um cinismo tão canastrão quanto cômico e ameaçador. Tudo no ponto certo.

Porém, mais uma vez, uma qualidade não anula um defeito. Enquanto os arcos iniciais entregavam bem suas propostas, o terceiro e último momento do filme reune quase todos os problemas determinantes. Além da mínima participação dos Rangers, os Zords também são mal utilizados. O filme simplesmente ignora a funcionalidade deles – o que se torna um problema quando ele dá tanta atenção ao domínio da armadura. Sem jamais terem treinados com os veículos, os Rangers, de repente, os utilizam sem qualquer dificuldade. Além disso, o filme ignora detalhes importantes como: como eles entram e saem dos veículos? Como descobriram como montar o Megazord? Quem o montou? E suas armas, utilizadas aleatoriamente? Eles sabiam que tinham armas? E ainda há outras questões equivocadamente ignoradas.

Por fim, o filme entrega uma quantidade divertida de fan services. Há aparições de Rangers da série original, sugestões de outros Rangers e até a música clássica da série. E há uma cena no meio dos créditos, portanto, não saia de primeira.

Conclusão

A nostalgia e a diversão pipoca de Power Rangers acerta no tom e consegue entreter boa parte do público, porém erra a mão nos personagens principais que, mesmo batizando o longa, quase não entram em cena. O foco na origem segue os padrões, mas não deixa de ser bem executado. Como filme de ação pipoca, a diversão é garantida. Mas como filme dos Power Rangers, estranhamente, não funciona tão bem.

Power Rangers estreia nesta quinta-feira, dia 23 de março.

 


 

Título original: Power Rangers
Gênero: Ação, Aventura, Comédia, Ficção Científica
Duração: 2h04
Classificação: 10 anos
País: USA, Canadá
Direção: Dean Israelite
Roteiro: John Gatins, adaptado história de Matt Sazama, Burk Sharpless, Michele Mulroney e Kieran Mulroney
Cinematografia: Matthew J. Lloyd
Trilha Sonora: Brian Tyler
Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G, Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader

 

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