CRÍTICA | Vida

by Thiago de Mello

O título Vida (tradução literal do nome original, Life) sugere algo demasiadamente abrangente. Afinal, a vida, como nós conhecemos, possui variadas formas e dimensões. E dentro desses moldes, cada vida é dotada de particularidades próprias, o que estabelece limites naturais na relação interativa entre tantos seres e formas. Porém, mesmo diante de todas essas variações e singularidades, há um ponto comum que une todas as formas de vida sob o mesmo teto: sobrevivência. E isso também é um determinante evolutivo já que é o ser mais apto que se mantém vivo. Dessa forma, a vida está sempre se reinventando, se adaptando e, por consequência, eliminando os elos fracos.

Vida começa com essa abrangência. Porém, gradativamente ele vai se lapidando, tornando-se, com erros e acertos rítmicos e narrativos, num bom terror no espaço.

Primeiro observamos os astronautas Rory Adams (Ryan Reynolds), Miranda North (Rebecca Ferguson), David Jordan (Jake Gyllenhaal), Sho Murakami (Hiroyuki Sanada), Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya) e Hugh Derry (Ariyon Bakare) obtendo uma partícula de vida oriunda da superfície marciana. Esse início já é bastante animador graças à boa direção de Daniel Espinosa, que cria um fluido plano-sequencia num ambiente de gravidade zero. Assim, toda interação da equipe entre si e pela estação espacial recebe um registro cuidadoso que soma à sensação da ausência de gravidade. A câmera “flutua” e acompanha cada indivíduo, por diferentes ângulos e movimentações, apresentando suas funções com objetividade, num trabalho técnico e narrativo admirável.

Vida

Após reanimar um simples organismo unicelular, a equipe anuncia à Terra a primeira prova irrefutável de vida extraterrestre. Após a comoção mundial dessa comprovação – quantas perguntas fundamentais poderão finalmente ser respondidas após tamanha descoberta? – o êxtase da equipe se direciona ao estudo e acompanhamento do desenvolvimento do ser carinhosamente batizado como Calvin.

Enquanto o espectador acompanha todo procedimento de estudo da vida alienígena, as possibilidades da ficção científica vão tomando um rumo óbvio, porém bem conduzido. O objetivo de Vida não é filosofar sobre nosso lugar no universo, nem sobre de onde viemos, mas para onde vamos, ao abordar a evolução da existência, desde uma forma unicelular primitiva, até um estado superior. Dentro dessa perspectiva, o suspense/terror é bastante eficiente, construindo sequências genuinamente tensas. A cena da luva, por exemplo, é aflitiva e um ótimo momento de horror. Embora seja a melhor e mais bem construída situação aterrorizante, o filme ainda consegue criar outros bons momentos onde o espectador fica na ponta da cadeira, observando a luta pela sobrevivência na estação espacial.

Novamente, a direção de Espinosa consegue unir com objetividade todos os elementos necessários para a construção das boas cenas. A câmera, sempre bem posicionada e com movimentos precisos, captura com exatidão toda movimentação dos pontos focais. Não há excesso de movimentos ou de cortes, tudo que o espectador precisa para absorver e sentir a tensão é retratado com esmero. A trilha sonora adiciona a carga emocional necessária para dar mais corpo aos momentos. E a fotografia, escurecida, jamais deixa de mostrar o necessário.

Porém, mesmo com uma condução acertada em vários momentos determinantes, Espinosa erra a mão em alguns outros. Há, por exemplo, um desnecessário uso de jump scares. É difícil entender o motivo do diretor utilizar um recurso que, quando mal explorado, apenas soa preguiçoso. Praticamente em todo momento que tenta assustar, a direção consegue criar um tom propício para tal, transformando esses jump scares em elementos descartáveis.

O filme também apresenta problemas quanto aos personagens, todos rasos. Há algumas tentativas de dar profundidades a eles, tentando fazer com que o público crie algum laço emocional. Só que os argumentos não funcionam e eles acabam recendo uma incômoda descartabilidade. Porém, é justo dizer que não há problemas nas atuações. Mesmo com personagens irrelevantes, cada ator realiza um bom trabalho. A exceção é Ryan Reynolds que está lá fazendo seu tradicional alívio cômico. Mesmo assim, o filme encontra boa solução para isso.

Enquanto os dois primeiros arcos mantêm uma tônica de horror eficiente, o terceiro tem uma queda no ritmo e atmosfera. Há momentos maçantes onde a presença da criatura deixa de ser sentida, dando um contexto mais dramático à trama. Isso não seria problema caso os personagens possuíssem força para conduzir na narrativa. Não é o caso.

Entretanto, essa queda é, em partes, compensada pela boa conclusão. Apenas parte do público será surpreendida pelo final, mas é preciso elogiar a forma como o diretor o conduz. A angústia retratada ganha força e cria incômodo. E a cena final, o último momento do filme, é magistralmente registrada com o ângulo zenital ou, como prefiro chamar nesse caso, olho de deus. Esse ângulo, muito bem escolhido por Espinosa, dá à conclusão uma simbologia irônica – talvez uma crítica religiosa? – sobre Vida. Mesmo tratando-se de um filme de gênero (ou subgênero), há um entrelinha irônica muito bem contrustuída e que fica apenas como subtexto.

Conclusão

Conduzido com paciência, através de bons trabalhos técnicos e escolhas pontuais e eficientes, Vida é uma história de horror no espaço clássica. Mesmo com personagens fracos e inconsistências rítmicas, o longa consegue acompanhar um desenvolvimento existencial de maneira eficiente. E a cena final fecha um arco dotado de um sarcasmo hilário quanto ao desenvolvimento e evolução de Calvin e a participação da humanidade nisso tudo.

Vida estreia em 20 de abril.

 


 

Título original: Life
Gênero: Terror, Ficção Científica
Duração: 1h44
Classificação: 14 anos
País: USA
Direção: Daniel Espinosa
Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick
Cinematografia: Seamus McGarvey
Trilha Sonora: Jon Ekstrand
Elenco: Hiroyuki Sanada, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson, Jake Gyllenhaal, Olga Dihovichnaya, Ariyon Bakare

 

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