CRÍTICA | A Estrela de Belém

by Thiago de Mello

A animação infantil A Estrela de Belém narra o primeiro natal, o nascimento de Jesus, sob a perspectiva dos animais, principalmente do burro Bo (Steven Yeun). Bo sonha com a liberdade e, ao consegui-la, acaba refugiando-se com Maria (Gina Rodriguez, num casting irônico e engraçado já que a atriz é a protagonista da série Jane, a virgem) e José (Zachary Levi). É ao lado do casal que Bo e outros amigos como o pássaro Davi (Keegan-Michael Key) e a ovelha Ruth (Aidy Bryant) iniciarão uma jornada edificante até Belém.

É com Bo que a animação apresenta boa parte de seus acertos. O personagem é cativante em alguns aspectos. O design, simples e afável, cria uma imagem agradável. O visual de A Estrela de Belém não busca complexidade ou elaboração. Pelo contrário, a animação é simplista e objetiva visando conversar com, prioritariamente, o público infantil.

A Estrela de Belém

A Estrela de Belém é bonitinho, mas apresenta mais no subtexto do que boa mensagens

Já na personalidade, Bo apresenta uma bonomia natural. Os valores do personagem são igualmente simples e de boa índole. Bo demonstra fraternidade, humildade e perseverança, por exemplo, de maneira orgânica e consegue conduzir a narrativa linear com naturalidade.

O elemento cômico do filme também cria diferentes formas de piadas. Há o humor mais infantil, como o físico e trocadilhos, e até observações engraças que podem divertir diferentes idades. Além disso, é carregado de easter eggs e fan services religiosos. Conhecedores da bíblia encontrarão diversas referências.

Porém, ainda assim, trata-se de um filme religioso. Embora não faça pregação ou soe panfletário, A Estrela de Belém adapta uma história bíblica numa fábula infantil. Isso, naturalmente, carrega mensagens em seu subtexto. É o caso, por exemplo, de Maria.

Maria é apresentada como uma mulher bondosa e caridosa, do tipo que ao ver um rato, dá-lhe de comer (cena do filme). Ao receber o anúncio divino de que fora escolhida como progenitora do filho de Deus, Maria reage com uma resignação incômoda. A animação tem total direito de ser religiosa e isso não é problema. Porém, com essa atitude, nas entrelinhas, sugere-se a alienação como reação natural e correta. Maria não questiona, não se sente incomodada, não esboça nada que não seja conformidade cega. E é aí, nessas pequenas e simplistas atitudes, que o filme peca (trocadilho intencional).

Entendo que estou mexendo num vespeiro ao apontar tal atitude como falha. Porém, creio que filmes infantis precisam ser escrutinados. É na simplicidade, no inocente, no comum que residem os detalhes determinantes. A Estrela de Belém não é nocivo e consegue oferecer boas lições às crianças. Mas esses ensinamentos vêm atrelados há subtextos, como em qualquer obra religiosa.

Ao mesmo tempo em que os valores de Bo são legítimos, eles implicam que tais virtudes são exclusivas daqueles que seguem a doutrina cristã. Caso contrário, aqueles que não creem nos ensinamentos religiosas, carecem de princípios morais. Isso é corroborado por personagens maniqueístas (sim, novamente, sei que é um filme infantil e que “não há” espaço para a complexidade de personagens, mas não deixam de ser binários por isso) como o Rei Herodes (Christopher Plummer), um carrasco vilanesco cuja função narrativa é dar algum tom de urgência e, principalmente, os cachorros Thaddeus (Ving Rhames) e Rufus (Gabriel Iglesias).

Ambas as personagens são a síntese da ideia da exclusividade da virtude atrelada à fé. Enquanto estão “trabalhando” para o carrasco, os animais sentem prazer em serem maus. Riem com desprezo de suas possíveis vítimas. No arco final, sofrem uma conversão e tornam-se seguidores dos ideais cristãos e, portanto, bons. Numa cena, seus olhos vermelhos, na sombra, indicam uma ideia de maldade. Alguns passos adiante, ao estarem no mesmo ambiente do bebê Jesus, na luz, seus olhos refletem bondade. Uma cena rápida, porém muito sugestiva.

A Estrela de Belém é um filme simples, direto e inocente. Mas isso não significa que seja só isso. Há subtextos equivocados por trás do simpático design, divertida narrativa e mensagem edificante. No fim, o filme pode ser muito bem resumido com a união de dois ditos populares: Deus e o Diabo estão nos detalhes.

A Estrela de Belém estreia em 30 de novembro.

 


Título original: The Star
Gênero: Animação, Comédia, Aventura
Duração: 1h26
Classificação: Livre
País: EUA
Direção: Timothy Reckart
Roteiro: Carlos Kotkin adaptando história de Simon Moore e Carlos Kotkin
Edição: Pam Ziegenhagen
Trilha Sonora: John Paesano

Elenco:
 Steven Yeun, Keegan-Michael Key, Aidy Bryant, Gina Rodriguez, Zachary Levi, Christopher Plummer, Ving Rhames, Gabriel Iglesias, Kelly Clarkson, Anthony Anderson, Patricia Heaton, Kris Kristofferson, Kristin Chenoweth, Mariah Carey, Oprah Winfrey, Tyler Perry, Tracy Morgan

 

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