CRÍTICA | A Vida Invisível

by Thiago de Mello

É fascinante a eloquência da linguagem cinematográfica. Como ela consegue expressar tantas verdades subjetivas de forma tão real. Através de cores, formas luzes, sons e movimentos, sentimentos ganham forma e peso, tornando-se palpáveis à medida que são lapidados em forma de filme. A Vida Invisível – o novo filme de Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã e O Céu de Suely, que pode representar o Brasil no Oscar – trabalha as infinitas possibilidades da linguagem do cinema com elegância dolorosa para representar as mazelas da realidade feminina sufocada pela nossa sociedade patriarcal e machista.

O roteiro de Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Aïnouz, inspirado no livro A vida invisível de Eurídice Gusmão (Martha Batalha, 2016), é objetivo quanto à sua proposta e logo no início do filme exemplifica a realidade das irmãs Guida (Julia Stockler)e Eurídice (Carol Duarte). Através de uma conversa íntima, não apenas pelo conteúdo sexual, mas também pela proximidade expressa nos movimentos, palavras e gestos de ambas, o roteiro expõe suas personalidades intensas e distinas – Guida é romântica, enfática e apaixonada pela ideia de fugir com o homem com seu “príncipe encantado”. Não à toa se fascina por um grego. Enquanto Eurídice, tímida e contida, sonha em explorar ainda mais seu talento no piano numa das mais conceituadas escolas de música do mundo – à medida que o restante do mise en scène envolve as irmãs numa realidade sombria, por assim dizer. Ao mesmo tempo em que a iluminação elabora uma atmosfera calorosa e de época (o filme é ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950), ela também as envolve em sombras. Ainda que quando juntas ambas pareçam as regentes de seus próprios destinos, aquelas sombras não dão espaço às esperanças de ambas. A partir dali, não tarda para que o tom amarelado caloroso que as une seja trocado por um azul deprimente e febril. Azul esse quase onipresente ao longo da narrativa e que representa de forma pungente a presença masculina que as envolve e as cobre de dor, tristeza e melancolia.

A Vida Invisível narra a jornada de duas irmãs divididas pelas crueldades “comuns” de uma sociedade machista e patriarcal

A partir disso, A vida invisível trabalha os destinos das irmãs como mais um dos incontáveis exemplos, reais e ficcionais, da destruição da vida das mulheres pelo machismo. Guida e Eurídice têm seus próprios destinos fora de suas mãos. O sustento familiar e emocional que uma provia à outra é destroçado pelo pai Manoel (António Fonseca), que opta por separá-las, “apoiado” pela subserviência da mãe – aliás, essa cena é dolorosa de tantas formas, mas a humilhação da mãe ao abaixar a cabeça diante a decisão cruel do marido é de cortar o coração. Assim, sozinhas, ambas sobrevivem como podem, seja num relacionamento abusivo como o do de Eurídice com seu marido Antenor (Gregório Duvivier), ou sozinha e grávida como Guida, cujo arco narrativo consegue a proeza de ser ao mesmo tempo horrível, tamanho o sofrimento causado por homens, e belo graças à construção da sororidade.

Diante todo esse contexto, A vida invisível condensa a realidade feminina através das personagens principais. Como homem, meu sentimento era de total vergonha e descrença. As figuras masculinas do filme eram diferentes umas das outras, em aspectos de personalidades, mas todas guiadas pela mesma característica: o machismo. Ele surgiu de diversas formas, podendo ser mais incisivo e arcaico, como na figura de Manoel, ou “moderno” e menos agressivo, mas igualmente destruidor, como em Antenor – cujo início do relacionamento com Eurídice, o estupro na noite de núpcias, não deixa dúvidas quanto à sua agressividade, por mais manso e compreensível que pareça ser. Ao longo do filme, os papéis masculinos vão acumulando tragédias nas vidas das irmãs.

Através de uma estética de melodrama, principalmente nos dois primeiros arcos, Karim Aïnouz organiza um universo intenso e frio. Apesar do teor realista da mensagem, o filme abraça seu teor cinematográfico para construir a mensagem. A estética de cores é um dos principais elementos pra isso. Através das cores primárias, A vida invisível elabora uma narrativa cuja conclusão é tão simples quanto intensa e elegante. Como disse, o azul é a cor predominante do filme, ao apresentar os homens e a tristeza consequente de seus atos. As irmãs vestem as outras duas cores primárias: vermelho (Guida) e amarelo (Eurídice), ambas refletindo o calor e intensidade que as cores sugerem. Por isso, quando a cor verde entra em cena o filme atinge seu emocionante clímax. Não apenas por ela, mas pela participação magistral de Fernanda Montenegro.

Após uma vida de sofrimento, Guida encontra o que pode de paz, principalmente no seu quintal com muitas plantas verdes cercado por paredes amareladas. Enquanto isso, Eurídice, já idosa (agora interpretada por Montenegro)usa uma camisa vermelha e uma saia verde. Ambas as irmãs adotam a cor da outra e, apesar de distante, o verde cria uma conexão entre elas. Visualmente, o amor fraterno encontra uma forma de se manter presente. Mas é quando Eurídice lê as cartas de Guida que nunca chegaram, que essa conexão se torna palpável e emocionante. Nesse momento, o talento de Fernanda Montenegro se sobressai com tamanha naturalidade que impulsiona A vida invisível. Se até então, o filme era ótimo, quando a atriz toma a cena, ele fica maravilhoso.

Se como homem, eu passei as 2h19 minutos de A vida invisível com raiva e vergonha do que meu gênero representa, como amante da sétima arte, fiquei impressionado de ver como o nosso cinema consegue manter-se muito bem apesar dos ataques à cultura. E como brasileiro, maravilhosamente orgulhoso por ser do mesmo país de uma atriz tão gigantesca como a Fernanda Montenegro que, em poucos minutos, explode em talento e em emoção.

Após o fim do filme é fácil perceber como o filme justifica perfeitamente sua indicação à lista final do Oscar, ao invés do ótimo Bacurau. Caso seja eleito, vai ser difícil desbancar a obra-prima que é Parasita. Mas isso não diminui o valor de A vida invisível, cuja execução já o justifica como um novo clássico do cinema brasileiro.


Data de estreia: 21 de novembro de 2019
Gênero: Drama
Duração: 2h19
Classificação: 16 anos
País: Brasil, Alemanha
Direção: Karim Aïnouz
RoteiroMurilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz, adaptando livro o ‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’, de Martha Batalha
Cinematografia: Hélène Louvart
Trilha Sonora: Benedikt Schiefer
Elenco: Julia Stockler, Carol Duarte, Fernanda Montenegro, Flávia Gusmão, António Fonseca, Nikolas Antunes, Maria Manoella, Gregório Duvivier

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