CRÍTICA | Alfa

by Thiago de Mello

Há um esplendor visual em Alfa que enche os olhos. Planos abertos grandiosos que retratam com vistosa beleza a magnitude natural que envolve os personagens. A fotografia cria um aspecto quase Elemental da natureza selvagem. Todo esse valor estético, porém, apresenta-se estéril ao final graças a superficialidade do roteiro burocrático e vazio.

Há 20 mil anos a.C. uma pequena tribo precisa estocar comida para o inverso impiedoso. Após uma longa jornada – retratada por montagem vistosa que mascara a noção de tempo e espaço, o jovem Keda (Kodi Smit-McPhee), filho de Tau (Jóhannes Haukur Jóhannesson), o líder da tribo, é dado como morto após um acidente durante a caça. Abandonado, Keda resiste aos ferimentos e acaba aliando-se a um lobo, Alfa, para tentar voltar à sua tribo.

Alfa

Alfa é belo, mas vazio

Alfa é uma jornada de sobrevivência, amadurecimento, respeito à natureza e amizade que peca pela ínfima elaboração da narrativa. O roteiro de Daniele Sebastian Wiedenhaupt é carente de substância, o que afeta o envolvimento emocional do espectador para com a mensagem e os personagens. Indiretamente, a beleza da fotografia Martin Gschlacht, que por vezes parece inspirar-se no trabalho de Roger A. Deakins (premiado com o Oscar por Blade Runner 2049), acaba atrapalhando ainda mais o envolvimento já que a irrelevância dos protagonistas é constantemente ofuscada pela natureza grandiosa que os cercam.

O início de Alpha resume como a estética se sobressai à história. A narração onisciente que contextualiza o filme se demonstra desnecessária poucos minutos depois. Não há qualquer complexidade narrativa que justifique o resumo antecipado daquilo que será. O mais emblemático, porém, é a construção não-linear da jornada inicial. A utilização desse artifício busca dar dinâmica (e consegue, em partes, visualmente, graças às câmeras lentas e cortes rítmicos que emulam o estilo de Zack Snyder), mas não soma em nada à narrativa e apresenta-se apenas como um floreio descartável. Bonito, sim, mas descartável.

Enquanto mensagem, Alpha mantém-se em terreno raso. O filme utiliza poucos diálogos e praticamente todos eles conseguem ser expositivos. “Ele lidera com o coração, não com a lança”, diz a mãe de Keda. Isso já havia ficado claro pela diferença entre ele e seu pai, um líder justo, mas duro, que permite que os jovens sejam espancados como rito de passagem. Em contraposição à figura rigorosa do pai, Keda é incapaz de matar qualquer animal para alimentar a tribo, e é único que se incomoda com o cheiro pungente de animais podres (apenas ele faz careta e tampa o nariz). Como se não bastasse, a interpretação de Kodi Smit-McPhee reforça ainda mais a fraqueza e insegurança do personagem com uma postura retraída e olhar lamurioso permanente. Quando a mãe diz que o filho não lideraria com a lança, essa imagem já estava muito bem representada.

Além disso, Alfa busca elucidar sobre como é necessário uni-se à natureza para sobreviver a ela, para fazer parte dela. Essa mensagem é resultado da amizade entre o jovem e o animal, mas o relacionamento é pouco envolvente. A falta de empatia inicial com Keda dificulta, mesmo que o filme tome algum tempo para tentar construir essa emoção orgânica (entre os personagens e também com o espectador), mas é difícil importar-se com qualquer um deles. Principalmente pela de personalidade de Keda. Há um sentimento ali, mas insuficiente para manter o público .

Infelizmente a versão que chega aos cinemas brasileiros também atrapalha a experiência. Ao oferecer apenas cópias dubladas, os espectadores ficam impossibilitados de assistir à língua que fora desenvolvida apenas para o filme. Seria um bom detalhe imersivo e que somaria ao bom valor de produção. Daria uma amplitude orgânica ao universo. Uma pena que o espectador não possa escolher a opção que mais lhe agrada…

Alfa é bonito, mas esquecível. Embora breve, o filme parece arrastar-se por muitos minutos mais graças à história rasa e aos personagens pouco interessantes. Os elementos técnicos como a fotografia, figurino e cenários são valores positivos que simplesmente adornam 1h36 de um nada ambiental.

 


 

 

Data de estreia: 6 de setembro
Título Original: Alpha
Gênero: Aventura
Duração: 1h36
Classificação: 10 anos
País: Estados Unidos
Direção: Albert Hughes
Roteiro: Daniele Sebastian Wiedenhaupt, Albert Hughes
Edição: Sandra Granovsky
Cinematografia: Martin Gschlacht
Trilha Sonora: Joseph S. DeBeasi, Michael Stearns
Elenco: Jóhannes Haukur Jóhannesson, Kodi Smit-McPhee, Morgan Freeman, Natassia Malthe

 

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