CRÍTICA | Alien: Covenant

by Thiago de Mello

Em 2012, Ridley Scott retornou à franquia que ele iniciou (lá nos remotos anos de 1979) com Prometheus, que narra eventos bem anteriores ao do filme Alien: O Oitavo Passageiro. Enquanto o original dos anos 70 é o início e uma pequena obra-prima do subgênero “terror no espaço”, Prometheus segue por um caminho diferente, porém familiar, ao focar mais num suspense aventuresco e sombrio ao invés do horror claustrofóbico que permeia o original, adotando um clima de fascínio na jornada de descobrimento sobre os Engenheiros (seres celestiais que iniciaram a vida na Terra). Há, sim, elementos de horror em Prometheus, porém, seu principal objetivo é introduzir e contextualizar o universo que precede a saga da tenente Ellen Ripley (Sigourney Weaver).

Alien: Covenant, que se passa 10 anos após os eventos de Prometheus, mantém a mesma atmosfera e ritmo de seu antecessor, mas ao mesmo tempo começa a apresentar mais elementos de horror do clássico de 1979. Embora isso seja positivo, há um desequilíbrio entre o passado (Prometheus) e futuro (Alien: O Oitavo Passageiro), entre a proposta e a expectativa, que atrapalha o ritmo da narrativa e o resultado final.

A construção de Covenant é deliberadamente lenta, visando dar arcabouço e substância ao universo dos xenomorfos através do personagem central da nova saga: David (Michael Fassbender). Enquanto Prometheus introduziu-o no cânone como, talvez, o personagem mais complexo da franquia, em Covenant ele se torna tão determinante quanto a própria Ripley, porém por aspectos completamente opostos em qualquer sentido. As motivações de David, cada ato, diálogo ou olhar, são dotados de misterioso valor, envolto num carisma dúbio que alterna empatia e aversão, mas sem jamais perder seu fascínio. Fassbender demonstra total entendimento e domínio do personagem, realizando um trabalho ancorado em detalhes expressivos minuciosos e precisos.

Alien: Covenant

Alien: Covenant

Além de David, Fassbender também interpreta Walter, o sintético da nave Covenant, cuja equipe composta por Daniels (Katherine Waterston), Oram (Billy Crudup) e Tennessee (Danny McBride), dentre outros, está em missão de colonização. Porém, acidentalmente captam uma mensagem oriunda de um planeta com condições ainda mais propícias à vida terráquea. E é neste novo planeta que o filme toma como ambiente. Assim, o claustrofóbico horror contido nos limites de uma nave espacial dá lugar a uma misteriosa exploração. Isso dá uma nova atmosfera, literal e figuradamente, ao longa.

É somente quando a equipe chega ao novo planeta que Covenant torna-se realmente interessante, mas talvez não da forma que os fãs gostariam. Antes disso, o que espectador assiste é uma introdução formulaica – com alguns poucos pontos novos, vale dizer – dos personagens e suas personalidades. Somos apresentados ao líder, ao bom moço, ao rebelde, etc. Nenhum deles possui o exagero dos personagens dos filmes anteriores, mas não deixam de ser uma versão dos mesmos.

O desbravamento do planeta apresenta alguns elementos aos fãs que causam certo incômodo por“fugir” das convenções já firmadas pelas orbas anteriores. Tudo isso é explicado nos minutos a seguir, porém, ainda assim, gera estranhamento, dando a impressão de que tais novidades não se encaixam corretamente no universo da franquia. Enquanto isso, esses novos elementos ajudam a compor e dar ritmo à história, sugerindo algo grandioso ao público. Infelizmente, essa sugestão jamais é atingida em sua plenitude.

A narrativa se direciona até momentos climáticos numa morosidade deliberada que busca dar a devida significância a cada evento, mas quando eles acontecem, são demasiadamente apressados. Exemplo disso é quando os xenomorfos estão em ação. O espectador é premiado com sequências de violência gráfica estilizada e assustadora, numa atmosfera densa e bem construída, mas que duram apenas poucos minutos. No fim, o ritmo torna-se um problema já que os momentos climáticos não compensam, proporcionalmente, a lentidão narrativa.

Mas se o filme comete falhas quanto à presença dos aliens, ele acerta – na maioria das vezes – com uma ótima temática existencial. O filosófico e eterno debate sobre criador e criatura ganha momentos fascinantes, como o diálogo entre David e seu criador, Peter Weyland (Guy Pearce), na abertura do filme; ou o nascimento apoteótico de um xenomorfo. Do começo ao fim, o filme que optou por abrir mão de grande parte de seu horror inerente, justifica tal escolha ao se lançar numa das temáticas mais abordadas da ficção-científica, conseguindo criar paralelos e remeter suas figuras e discussões a personagens clássicos desse gênero cinematográfico como HAL 9000 (2001: Uma Odisséia no Espaço) ou Roy Batty (Rutger Hauer em Blade Runner).

Já nos aspectos técnicos, o filme mantém a conhecida maestria. Covenant utiliza bem a sua fotografia fria e estéril característica, sempre dotada de uma melancolia inerente que dá mais valor ao citado debate filosófico. A trilha sonora funciona bem e dá o tom em variados momentos, compondo a atmosfera necessária para cada sequência. Infelizmente, há certo clichê em alguns momentos diegéticos da música, mesmo que justificado pelo roteiro. Mas não deixa de ser um ótimo trabalho de Jed Kurzel (Babadook, Assassin’s Creed).

E os aliens, até mesmo os novos – neomorfos –, mantêm a áurea aterrorizante. Seja no CGI ou no efeito prático, cada criatura, cada novo elemento, cenário e itens de preenchimento da mise-en-scène compõem um ambiente rico e curioso. O trabalho de H. R. Giger jamais perde sua imponência curiosa e assustadora, e ainda consegue ser replicado com eficiência.

Conclusão

Alien: Covenant é um filme que possui amarras dos dois lados: ao mesmo tempo em que ele está diretamente ligado à Prometheus, também está preso ao Alien: O Oitavo Passageiro. Assim, ele opta por trabalhar a criação e consolidação com calma e paciência, o que é positivo, mas, ao mesmo tempo, não oferece elementos suficientes para empolgar o espectador pelo tempo necessário. Há momentos e personagens louváveis e períodos de um roteiro dedicado quanto suas implicações filosóficas, mas ainda é pouco diante da promessa e expectativa de um filme sobre os aterrorizantes Aliens. Como filme do sintético DavidCovenant é ótimo. Mas como uma longa de Alien, é apenas mediano.

Alien: Covenant estreia em 11 de maio.

 

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Título original: Alien: Covenant
Gênero: Suspense, Ficção Científica
Duração: 2h02
Classificação: 12 anos
País: USA, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido
Direção: Ridley Scott
Roteiro: História de Jack Paglen e Michael Green. Roteiro de John Logan e Dante Harper
Cinematografia: Dariusz Wolski
Trilha Sonora: Jed Kurzel
Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demian Bichir, Carmen Ejogo, Jussie Smollett,  Callie Hernandez, James Franco, Guy Pearce

 


 

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