CRÍTICA | Anna – O Perigo Tem Nome

by João Rafael

A carreira do cineasta Luc Besson é daquelas que despertam imediata curiosidade levando em conta o peso que sempre parece acompanhá-la. A cada projeto, seu nome costuma vir carregado de uma auto importância ao apostar em adjetivos que o colocam como visionário, grandioso e quaisquer outros que enfoquem que este é mais um “filme de Luc Besson”. Apesar da estratégia, o homem responsável por obras merecidamente lembradas até hoje, como O Profissional (1994) e o divertido O Quinto Elemento (1997), não tem acertado há algum tempo. Lucy (2014) e Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017) têm o bom senso estético característico de sua filmografia, mas pecam muito em contar uma história coerente ou sequer minimamente interessante (como no caso do segundo). Por isso dessa vez, levando em conta a nossa inconsciente expectativa relacionada ao seu nome, a divulgação discreta de seu novo longa, Anna – O Perigo Tem Nome (não vamos entrar no mérito desse subtítulo), chamou a atenção ao remeter a um de seus outros acertos, Nikita – Criada Para Matar (1990).

Assim como esse trabalho que o levou a ser reconhecido no início da década de 90, esse tem como protagonista uma jovem resgatada de um ambiente pessoal destrutivo por um agente que promete um futuro seguro em troca de torná-la uma espiã com treinamento profissional. Nesse caso, Anna (Sasha Luss) vive uma rotina degradada pelo vício em drogas e por um relacionamento abusivo com um criminoso local russo. Após um evento que quase dá fim à sua vida, o agente Alex (Luke Evans) lhe oferece a chance de se tornar uma assassina da KGB sob a tutela de Olga (Helen Mirren). Mas o trabalho violento exigido pelas constantes missões desafiadoras a faz questionar se esse é realmente o caminho que trilhará o resto da vida, ainda mais quando o agente da CIA, Lenny (Cillian Murphy), passa a investigá-la após um assassinato suspeito.

Com a tentativa de brincar um pouco com elementos dos thrillers de espionagens ambientados durante o cinematograficamente fértil período da Guerra Fria, o longa não tarda a mostrar a que veio antes de terminar seu 1º ato. Usando como disfarce o trabalho como promessa no mundo dos desfiles de moda, a jovem protagonista usa a beleza como uma arma para executar os “serviços” escondida por uma vida normal. Usando flashbacks como uma das ferramentas principais da narrativa, a história vai e volta para mostrar ao público a escalada de um treinamento violento e propositalmente abusivo por parte de Olga até o evento que desperta a atenção do agente americano. Ainda no início, o público já entende os métodos frios e o processo implacável para se tornar uma agente da KGB.

O mistério e a incerteza sobre a trama é também algo comum nesses tipos de thrillers e o diretor/roteirista Luc Besson demostra ter consciência de que os eventos que determinou como premissa beiram a um maniqueísmo mais preocupado em reverenciar o gênero do que se levar exatamente a sério. Bom, isso ao menos é que o parece ao notarmos a forma como o diretor apresenta a personagem até encerrar o 1º ato com a primeira de muitas reviravoltas. A própria natureza de sua jornada da jovem destinada à autodestruição salva por uma profissão exclusiva a poucos é tratada de forma novelesca pelas escolhas de Besson e sua equipe. A fotografia mais dessaturada dos becos de Moscou em seu passado dá lugar a tons mais quentes no presente, que se contrapõe de maneira orgânica entre os flashbacks. A diferença não só funciona visualmente como também ajuda a absorver o estado de espírito da protagonista.

Em contrapartida, pouco se pode falar em sutileza em relação à forma como a narrativa trabalha seus outros elementos. A sensação inicial de uma abordagem que parecia ser conscientemente satírica vai se mostrando uma escolha que aparentemente Besson acredita ser séria. A trilha sonora piegas e intrusiva produz momentos que parecem ter saído das piores novelas, os diálogos vão de ocasionais referências ao gênero a reflexões que parecem ter saído de biscoitos da sorte – “não confie nos homens, confie em si mesma… “, e a sensação de exercício de gênero dá lugar a uma obra míope quanto ao alcance dramático que acredita possuir.   

‘Anna – O Perigo Tem Nome’ possui uma discussão até interessante sobre gênero (tanto humano, quanto cinematográfico), mas não escapa de uma abordagem piegas e um roteiro frouxo.

O efeito negativo tende a piorar a longo prazo com a estrutura problemática concebida pelo roteiro de Besson. Se as linhas temporais intercaladas até são efetivas ao contraporem o estado de espírito de Anna e relacionar os diferentes graus de seus conflitos ao longo do tempo, o mesmo não pode ser dito da complexidade da trama. É bom se atentar que chamá-la de complexa acaba não sendo um elogio, já que a lógica de pista e recompensa no roteiro investe demais na mesma dinâmica. Logo que o público tem a primeira surpresa, ele já aprende qual será o modus operandi e, a partir daí, as inúmeras reviravoltas acabam sendo telegrafadas e tendo seus impactos consideravelmente prejudicados.

Quanto à ação prometida pela própria natureza da história, o cineasta entrega sua competência costumeira. Um pouco influenciado pelo impacto de lançamentos recentes, como os da franquia John Wick e Atômica (2017), a ação e os confrontos físicos prezam por uma violência que não tem medo de ser gráfica ao mesmo tempo em que apresenta o exagero necessário para soar divertida. Nesse ponto, o longa até tem energia e há um ótimo exemplo em uma sequência que se passa em um restaurante, aliando a boa fisicalidade na atuação de Sasha Luss e câmera inventiva que explora ângulos curiosos sem perder a orientação espacial. É uma pena que a obra resolva gastar o que tem de melhor muito cedo e, por mais que tente, não consegue igualar as expectativas, principalmente pelo fato de evidenciar um desleixo perceptível em alguns casos pontuais, mas graves o suficiente para interferir mesmo na “permissão” que o gênero dá – como acontece quando a protagonista luta com vários guardas dentro da sede da KGB e conveniente nenhum deles tem uma arma, mesmo que tenham tempo de sobra enquanto aguardam os companheiros serrem surrados em fila.    

Mas nem tudo é negativo e há alguns bons momentos a se reconhecer. A montagem é um dos pontos fortes e, além de tentar manter um bom ritmo (mesmo com o problema das repetições e reviravoltas), tem o papel de traçar alguns paralelos entre os personagens de Sasha Luss, Luke Evans, Cillian Murphy e Helen Mirren, principalmente apostando em pontos de vista diferentes de um mesmo evento, cada um resgatando um pouco da personalidade de cada um (mesmo que não fujam muito do superficial). Mesmo que pareça deslocado, há até espaço para o humor, especialmente na forma como o filme faz piada com o universo caricatural de uma agência de modelos e até transformando uma passagem de tempo que mostra Anna em várias de suas missões ganhar um tom descontraído, mesmo com a violência evidente.

Isoladamente, as tentativas de investir nos dramas pessoais dos personagens não funcionam muito bem (há alguns pavorosos flashbacks da infância de Anna que poderia ser facilmente cortados aqui..), mas há um aspecto temático que fica nas entrelinhas da obra e que acaba se mostrado como sua principal qualidade: a forma objetificada como os homens invariavelmente enxergam a protagonista. Mesmo obtendo habilidades que facilmente a colocariam como elite em qualquer grupo assassino do mundo, se não fosse a beleza natural de Anna, a ela jamais teria sido oferecida a oportunidade de se tornar espiã da KGB. Dela se espera “naturalmente” que use o sexo como um dos principais artifícios para se infiltrar em ambientes inimigos, inclusive, da própria Olga, experiente no ramo, mas ainda assim, inevitavelmente obrigada a reconhecer que está num universo masculino.

Mesmo que a questão da lógica da guerra, dos espiões e os sacrifícios do trabalho sejam mais evidentes, é ainda mais revelador que os homens que supostamente surgem como figuras amigáveis e dispostas a ajudá-la verdadeiramente, no fim das contas, esperam dela a mesma submissão, ainda que completamente convencidos de agirem de maneira justa. A mensagem de sororidade (bem à maneira da proposta desse longa) sobrevive aos trancos e barrancos nas personagens femininas, se fortalecendo em uma trama repleta de traições, violência e desconfiança.

Assim como o clima fatalista e dúbio do fim da Guerra Fria, Anna – O Perigo Tem Nome nem sempre é o que parece ser. Em meio a diálogos ruins, escolhas duvidosas e uma trama repetitiva, há uma boa promessa de um filme que certamente poderia ser melhor do que este.


Data de estreia: 29 de agosto
Título Original: Anna
Gênero: Thriller, Ação
Duração: 1h40
Classificação: 16 anos
País: EUA, França
Direção: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson
Cinematografia: Thierry Arbogast
Edição: Julien Rey
Elenco: Sasha Luss, Helen Mirren, Luke Evans, Cillian Murphy, Eric Gordon, Ivan Franek, Alison Wheeler, Andrew Howard

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