CRÍTICA | Bacurau

by Thiago de Mello

Em um Brasil ideal, Bacurau jamais existiria. A violência realista, gráfica e explícita que pontua e permeia os atos do filme jamais tomaria forma. Não haveria a necessidade de delírios psicotrópicos. Lunga (Silvero Pereira) não teria importância, nome ou rosto. Mas não vivemos num Brasil ideal – (muito, muito) longe disso. Daí, Bacurau. Escrito e dirigido por Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho, Bacurau é resultado dos graves sintomas de um governo desumano e antipatriota.

É intenso se aventurar por Bacurau. A confluência de gêneros que guia a narrativa por atos estranhos cria um microcosmo que pulsa personalidade. Um faroeste sertanejo violento e realista, com ficção científica, doses de surrealismo e pontuais modos de comédia, seja inocente – mas não menos pungente – como a incontestável reposta de uma criança, seja ácida e de humor subjetivo e catártico, como num headshot explosivo. O resultado dessa combinação tão própria é o reflexo do Brasil. Todo nosso caos é representado ao longo de uma narrativa fluida, envolvente e ritmada. Ainda assim, Bacurau não se limita a meramente refletir nossa complexidade, ele oferece resposta e solução. Por isso, mais do que personalidade, Bacurau pulsa cultura.

A versatilidade intensa de Sônia Braga se destaca com facilidade ao longo da obra

O Brasil em Bacurau apresenta mazelas tão familiares: o interesse político que entrega, que explora e que só “ajuda” em períodos pré-eleitorais; Inocentes de todas as idades assassinados por estratégia ou por curiosidade, sempre com indiferença; Manipulações de informação e tecnologia influente; Preconceito, vira-latismo e ignorância; Etc. Cada ação em Bacurau é inspirada por padrões do nosso cotidiano. Isso culmina num realismo tão verdadeiro quanto incômodo. Realismo que também encontra forma na violência gráfica, fortalecendo ainda mais essa tônica.

Mas o que dá pulso ao realismo e à vida de Bacurau é a sua identidade. Trata-se de uma cidadezinha típica e tradicional do interior nordestino brasileiro, desconhecida por muitos, ignorada por tantos. Habitantes que se conhecem e vivem em simplicidade sincera, dotada de valores místicos e/ou religiosos, que luta e resiste pela própria sobrevivência. Uma comunidade que conhece a sua história e, mais do que isso, se orgulha dela, oferecendo-a de bom grado – o que não deixa de ser também um alerta – para qualquer viajante que por acaso passe pela cidade. Elase define pela própria história e vive através dela. Permanece viva graças a ela.

O museu da cidade acaba se tornando talvez o lugar mais emblemático de Bacurau por isso. A história de Bacurau importa. Isso representa uma verdade incontestável: o valor da história. Não há identidade sem memória. Não há sociedade sem passado. Portanto, não importa que o mapa digital e online de computadores e celulares não indique a existência de Bacurau. O museu da cidade e o mapa antigo provam o contrário. E seus habitantes demonstram isso na resistência do cangaço que ainda ecoa por aquelas terras, estampadas nas paredes do museu orgulhoso.

Cientes do valor e dimensão do que significa “história”, Dornelles e Mendonça Filho exploram a linguagem diversa e robusta do cinema para contar uma história sobre a necessidade de compreensão, reconhecimento e orgulho da memória e do passado. Em outras palavras, da história. Enquanto exercício narrativo, Bacurau sabe como trabalhar as características dos gêneros de forma objetiva, com eficiência que vai do (ótimo) valor estético. A ficção científica introduz perfeitamente a tônica fantástica que molda o filme. Um mistério estranho e curioso que surpreende pela sua “estranheza” e que permanece fluente até o faroeste toma o segundo ato. A partir daí, o mistério dá vez um duelo antagônico entre uma “corporação” e a cidade. Desprezo, soberba e ganância contra resistência, orgulho e valores morais. São conflitos reais que se encaixam perfeitamente no gênero, elaborando um faroeste fantástico e moderno que explora conflitos humanos históricos e infelizmente atuais.

A combinação de gêneros, porém, é um artifício elegante e envolvente que reflete os meses do governo de Bolsonaro. Violento, desumano e inconsequente, o Brasil de 2019 alimenta Bacurau. O microcosmos de Bacurau reflete nossa realidade, mas vai além ao demonstrar qual é a solução para isso. A primeira é a união. A forma como a cidade reage é fundamental para a sobrevivência. Essa demonstração de união acontece, inclusive, através da forma como o roteiro alterna seus protagonistas. Inicialmente, a câmera nos apresenta Teresa (Bárbara Colen). Em closes e câmeras subjetivas dentro da cabine de um caminhão, o filme nos coloca ao lado de Teresa enquanto sugere suas importância e protagonismo. Pouco tempo depois, porém, o destaque de Teresa diminue e migra para outros personagens, como Pacote (Thomás Aquino) ou a médica Domingas (Sônia Braga, intensa e genial). Demonstrações narrativas que mostram que Bacurau é a verdadeira protagonista.

A segunda é o valor da história. O passado de Bacurau define seus habitantes que, juntos, definem Bacurau. Uma cidade que se orgulha de seu museu e conhece o contexto por trás da violente resistência que garantiu sua sobrevivência. E esse é um elemento interessante na narrativa: o valor do contexto. É a partir do contextoqueo filme conseguejustificar a teor catártico, por exemplo, de um tiro que faz a cabeça explodir. Ou como Lunga é um (anti) herói ao invés de um vilão. Ou as marcas de sangue fresco nas paredes do museu que não devem ser lavadas. História e contexto em sua confluência natural.

Bacurau é o reflexo dos dias atuais do Brasil, mas não é um mero registro histórico. É um depoimento, um desejo, uma consequência. Mas também é uma homenagem e um clamor pela nossa própria história. É a história quem define o Brasil e só ela, através das nossas ações, pode nos salvar.

Em um Brasil ideal, Bacurau jamais existiria. Mas Bacurau existe. E todo esse contexto é que o torna numa obra magnífica.


Data de estreia: 29 de agosto
Gênero: Faroeste, Ficção Científica, Ação
Duração: 2h11
Classificação: 16 anos
País: Brasil, França
Direção: Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Roteiro Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Cinematografia: Pedro Sotero
Edição: Eduardo Serrano
Trilha Sonora: Mateus Alves e Tomaz Alves Souza
Elenco: Barbara Colen, Sonia Braga, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Udo Kier, Antonio Saboia, Karine Teles, Luciana Souza, Carlos Francisco, Wilson Rabelo, Rubens Santos, Thardelly Lima

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