CRÍTICA | Blade Runner 2049

by Thiago de Mello

 

Blade Runner 2049 é uma das estreias mais antecipadas do ano, quiçá do impúbere novo século, graça ao culto que orbita ao redor de Blade Runner: O Caçador de Androides (1982). Desde a estreia do clássico, acumulam-se fãs a cada nova versão lançada em VHS, DVD e Blu-Ray. Trata-se de um filme que foi recontado ao longo dos anos, expandindo sua atmosfera enquanto alterava finais e narrativas até culminar na versão definitiva de 2007, The Final Cut, a mesma utilizada como base por Denis Villeneuve para retomar e expandir o universo criado por Philip K. Dick (com o romance de ficção científica Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de 1968) e adaptado para o cinema por Ridley Scott.

Com a chegada de Blade Runner 2049, duas obrigatórias especulações ecoam pelas mentes e bocas do fervoroso público: afinal, está à altura do primeiro? E Rick Deckard (Harrison Ford) é ou não um replicante?

Respondendo à primeira pergunta: sim! Blade Runner 2049 faz jus ao material-fonte de maneira impecável. A ficção científica utiliza o universo, a atmosfera e o cânone estabelecidos anteriormente (por ambas mídias) para criar uma obra robusta, complexa e de identidade própria.

Blade Runner 2049 ocorre trinta anos após os eventos do primeiro filme, quando K (Ryan Gosling) recebe instruções para investigar um possível replicante. Porém, as consequências dessa investigação podem mudar o mundo. A partir desse momento, Villeneuve inicia um meticuloso trabalho de conexão com o primeiro filme e criação de sua identidade única.

O universo de Villeneuve altera a forma narrativa e o gênero, mas sem jamais se desconectar da essência do clássico. Ainda estão lá todas as identidades visuais do primeiro filme: a atmosfera densa, a cidade sufocante, escura, amontoada de pessoas, prédios descomunais e propagandas grandiloquentes. Porém, o filme transcorre em novos ambientes, diferentes espaços que ajudam a ampliar os limites da obra.

Blade Runner 2049 é uma obra prima e um Clássico instantâneo!

A fotografia do grande Roger Deakins valoriza a narrativa cromática que soma ao tom. Os ambientes onde o branco, ou o dourado, ou o alaranjado predominam são carregados de valor sugestivo e de função. Deakins não apenas captura a coloração esteticamente ideal, mas recorta os quadros evidenciando cada detalhe que soma ao mise-en-scène, valorizando a impecável direção de arte.

Um dos destaques narrativos da cinematografia acontece principalmente quando K está em cena. Enquanto ele ainda desconhece fatos que o mudarão profundamente, o cenário atrás dele constantemente o limita, enclausura-o de alguma forma. Janelas ou portas cercam a cabeça e parte do tronco de K, sugerindo o quão preso ele está a uma ideia ou fato. Assim que ele descobre algo importante sobre si, os enquadramentos mudam e apenas parte dele parece presa. Uma espécie de libertação gradativa.

Outro exemplo é quanto a coloração incandescente e antiga do local onde mora Deckard. O tom alaranjado indica o passar do tempo como as páginas amareladas de um velho livro. Sugere também uma força vibrante e até grosseira. Some isso à sensação de obsolescência que a mobília antiga sugere, quase anacrônica, e você terá um cenário que conta uma própria história. É como houvesse um diálogo entre o primeiro filme e o novo, um conflito de tempos, forças e valores onde, ao contrário do que se possa imaginar, não há vencedor ou perdedor. O antigo permanece fundamental enquanto o novo utiliza esse alicerce para evoluir. Há, também, um (de vários) raccord que utiliza as fagulhas de uma fogueira (num enquadramento quase rupestre) como elemento de transição para as luzes da cidade. É o velho e o novo juntos, evoluindo, cada um com sua importância. Uma poesia visual delicada e valorosa.

Essa união de gerações, aliás, é uma constante. Há lembretes sobre a importância do papel (é o que sobra e salva a informação quando os dados dos computadores se perdem, ou o livro que K lê); a preocupação com utilização de elementos de época da trilha sonora e da música (com Elvis Presley, Frank Sinatra, Liberace e Marilyn Monroe, numa sequência visualmente estonteante onde os músicos clássicos são retratados por hologramas defeituosos); e até a caracterização de Luv (Sylvia Hoeks), uma replicante que utiliza um estilo parecido com a de Rachael (Sean Young), do filme de 1982. O corte da roupa, cabelo e batons replicam uma evolução daquele estilo, o novo e o antigo em uníssono. Não é apenas uma caracterização inspirada. É uma forma de respeito, uma preocupação em não diminuir ou datar de qualquer maneira o clássico de Ridley Scott.

O mesmo vale para a trilha sonora que emula o clássico através de um trabalho visceral e minimalista. Mesmo preocupada em ter a própria identidade, é possível notar referências em no ressonar de cada nota estrondosa e eletrônica. Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer demonstram um cuidado pontual ao utilizar as modulações próprias dos anos 1980 para criar um vínculo sentimental automático. Presente em momentos bastante específicos, ela também possui narrativa própria, que cresce com o filme, amplificando a atmosfera.

Cada detalhe técnico trabalha em uníssono para compor um ambiente propício – sugestivo e sensorial – para o desenvolvimento da narrativa e suas variadas e profundas camadas morais e filosóficas.

Ao contrário do clássico, Blade Runner 2049 não adota a atmosfera neo noir. O gênero predominante é o dramático, focado mais no desenvolvimento de K do que na investigação em si. A narrativa utiliza como guia a estrutura da minitrama, principalmente quanto os conflitos internos de K.

Há conflitos externos em Blade Runner 2049, porém são espaçados e pontuais. O espaço e tempo entre eles é preenchido por uma jornada minimalista e deliberadamente lenta. K é um personagem que absorve o seu redor, as consequências de seus atos, a moralidade de aposentar replicantes, o preconceito sofrido por uma sociedade que não o aceita (e demonstra isso com alcunhas como “pele-falsa” ou “sem-alma”), mas que depende dele tanto da força física, como da experiência. Se não há ação no filme, é porque o conflito interno possui peso e tamanho grandioso.

Sob essa perspectiva, a escalação de Ryan Gosling foi perfeita. O estilo cênico do ator, contido, quase blasé, colabora com a expressão de K. Gosling trabalha naturalmente e convence, inclusive, nos momentos catárticos (com destaque para o primeiro, numa explosão angustiante). O mesmo vale para todos os demais atores e atrizes, cada um se destacando positivamente de alguma forma. Cada composição, cada nuance performática está dentro do contexto do filme e personagem, dando à obra ainda mais vigor.

O roteiro de Michael Green e Hampton Fancher (que escreveu também a história) é composto por vários níveis. O primeiro é a trama, a investigação e ações do protagonista. K precisa investigar uma nova forma de replicante que pode colapsar a sociedade. E a partir dessa variável que nascem os demais significados do filme, a boa e velha discussão moral e filosófica tão conhecida na ficção científica. Afinal, como se classifica a humanidade de um ser? Qual o papel da alma? Sentimentos podem ser aprendidos? Maquinas podem amar? Etc. Cada questionamento desses, oriundo de diálogos simples e pungentes, adiciona à elaboração psicológica do protagonista e também dos coadjuvantes.

Há uma distinção bastante interessante nas atuações, que soma ao debate proposto. Os humanos são sempre pouco expressivos. As emoções parecem não ganhar espaço ou relevância neles. Enquanto isso, os replicantes sofrem, choram, se apaixonam e amam. Há compaixão. Há dor sentimental. K, por exemplo, ama Joy (Ana de Armas) uma espécie de holograma tátil, programada para ser e dizer tudo que o dono gostaria de ouvir. Ele a leva com ela, se preocupa com sua segurança. Ela diz que o ama. Será isso genuíno ou uma programação?

Com essa separação bastante clara, retorno à pergunta feita lá em cima, no segundo parágrafo: E Rick Deckard (Harrison Ford) é ou não um replicante, afinal? Bem, isso é responsabilidade do filme, então cabe a ele dizê-lo. Porém, vale ponderar que Villeneuve, Green e Fancher dão outra proposta para essa questão. Inclusive, pela forma adotada para elaborar a questão, a participação de Harrison Ford é contida. A fim de criar um filme próprio, Blade Runner 2049 não se torna refém do personagem, assim como não tenta criar novos Roy Batty (Rutger Hauer) ou Pris (Daryl Hannah). Tampouco tenta estabelecer novas frases clássicas. Ao invés disso, ele abre espaço para novos personagens, que até são uma forma de variação daqueles do primeiro filme, mas apenas como um elo semântico e emocional.

O mesmo vale para algumas rimas visuais ou contexto sugestivos vindos do primeiro filme, principalmente quanto os olhos, as janelas da alma. Um importante elemento no clássico de 1982 e nesse novo filme. Desde a cena de abertura à caracterização de Jared Leto como Niander Wallace, dentre outros. Mais um de vários elementos para prestar atenção pois cada um soma ou conta uma própria história.

Embora seja o condutor narrativo predominante, não há apenas a elaboração psicológica e o drama subjetivo de K como condutor narrativo. A investigação, em determinado momento, ganha protagonismo e conduz o espectador por pista e sugestões que, numa inesperada virada, surpreende o público. Villeneuve deixa claro que jamais perdeu o controle da narrativa e guiou o público com precisão por cada elemento, criando uma falsa noção de percepção da trama e de sua culminância.

“Vocês nunca viram um milagre”, elucida melancolicamente Sapper Morton (Dave Bautista, o Drax de Guardiões da Galáxia, numa atuação breve, porém surpreendente) ao K. Incrédulo, o policial ignora por ora a afirmação. Milagres não existem. A mensagem parece ser dita também ao espectador. Isso, porém, mudará ao fim do filme. O público terá visto um grandioso e belo milagre realizado por Denis Villeneuve, que não apenas respeitou e expandiu o universo de um dos filmes mais cultuados do cinema, mas criou um novo clássico da ficção científica. Parece até que Villeneuve fez A Chegada apenas para provar que poderia e deveria ser o responsável por Blade Runner 2049.

Blade Runner 2049 estreia em 5 de outubro.

Obs: Assistir ao primeiro Blade Runner não é determinante, mas ajudará na experiência. Além disso, Villeneuve lançou três curtas que estabelecem elementos do filme. Novamente, não são obrigatórios, mas vale a pena conferir. Clique nos títulos abaixo para assistir.


 

 

Título original: Blade Runner 2049
Gênero: Ficção Científica, Suspense
Duração: 2h43
Classificação: 14 anos
País: EUA, Reino Unido, Canadá
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green
Edição: Joe Walker
Cinematografia: Roger Deakins
Música: Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Dave Bautista, Ana de Armas, Jared Leto, Sylvia Hoeks, Mackenzie Davis, Edward James Olmos

 

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