CRÍTICA | Bohemian Rhapsody

by Thiago de Mello

Definitivamente, Bohemian Rhapsody não é tudo que poderia ser. Ou que deveria, na cabeça do fã. Há uma responsabilidade imensurável que pressiona o filme. Imagine criar uma obra digna sobre uma das maiores bandas da história, mas que é também uma semi-biografia de um dos grandes ícones do rock. E, além disso, ainda carrega o nome de uma das canções mais adoradas do gênero, cuja ampla na apreciação fora tardia. A impressão é que tais fatores recaíram sobre os ombros de Anthony McCarten (roteirista) e Brian Synger (diretor).

Bohemian Rhapsody não é um filme ruim. Nos aspectos técnicos, ele merece diferentes elogios, como o figurino e a reconstrução de época, por exemplo, que dão autenticidade ao período retratado – 1970 até 1985. A reconstrução de shows do Queen é caprichada e, por vezes, estilosa. Há um charme enérgico atemporal em vários momentos. E a fotografia de Newton Thomas Sigel capta bem essa beleza ao reforçar as tonalidades chamativas da banda e da época, com a paleta de cores vintage e granulações na imagem. Mas o principal elemento do filme é – como era de se esperar – o Freddie Mercury de Rami Malek.

Malek entrega um Freddie Mercury hipnotizante. O trabalho do interprete é minucioso. Desde a escala maior, como seus movimentos no palco, nas festas ou no estúdio, até a menor, como os trejeitos de fala, os tiques labiais, a vocalização e o olhar. Diferentes aspectos da personalidade intensa de Mercury são retratados por Rami Malek de maneira natural e fluida. O tipo de trabalho onde não há tentativa de cópia, de mera replicação, mas entendimento puro do personagem.

Bohemian Rhapsody

O Freddie Mercury de Rami Malek salva Bohemian Rhapsody. Ainda assim, não é a obra definitiva da banda ou do cantor

É uma pena, porém, que o ator esteja mais preocupado com o psicológico do personagem do que o roteiro. Embora Malek sugira a complexidade psicológica de Mercury, a construção do personagem é rasa, tímida e, por vezes, até covarde. Afinal, Freddie queria ser cantor pela paixão ao estilo? Pela música? Por alguma carência emocional? E seus inúmeros relacionamentos (que o filme parece ter medo de mostrar)? Era apenas parte do sexo, drogas & rock’n’roll ou algum desejo por completude, por afeto? Não fica exatamente claro. Assim, personagens como Paul Prenter (Allen Leech) ou Mary Austin (Lucy Boynton) ganham importância maniqueísta utilizada apenas conforme a necessidade do roteiro Anthony McCarten.

A construção narrativa segue a fórmula de cinebiografia: o descobrimento, o sucesso, o deslumbramento, a queda e a redenção. Como eu sempre digo, o problema não é a fórmula em si, mas como é utilizada. No caso do filme, essa característica básica soa um pouco incompatível com o retrato em questão. A quebra de paradigmas que o Queen representa (uma das suas grandes virtudes) não é retratada pela progressão da história, mas apenas falada, dita diretamente para o espectador. Há medo (ou covardia) em mostrar a intensidade de Mercury e da época. O “problema” da obra é ser formulaica demais, demasiadamente burocrática, insegura e tímida. Basicamente, Bohemian Rhapsody é quase tudo que Freddie Mercury não era.

Essa simplicidade fica ainda mais incômoda quando o espectador (como foi o meu caso) percebe que o roteiro de McCarten busca omitir, apaziguar e suavizar situações da trajetória intensa de Mercury e dos anos 1970 e 1980. Imagine um filme sobre um dos ícones do sexo, drogas & rock’n’roll sem os dois primeiros itens? Pois isso é Bohemian Rhapsody.

As inúmeras relações de Mercury (grande parte homossexuais) e o conhecido vício em cocaína – já chegou a escrever, perto de sua morte: “Seu nome? COCAÍNA! Devo a ela meu amor, minha vida, minha destruição e minha morte – são apenas mostrados por poucos segundos, revelados de forma banal e passageira, sem qualquer atenção ou destaque. Até mesmo a famigerada festa de Mercury, um momento marcante na história das loucuras do rock (o que significa muita coisa), é comentada de maneira banal. O filme parece ter medo ou vergonha de mostrar quem de fato fora Mercury. E isso o torna maçante tão como uma música padronizada.

Diante essa característica comedida (responsabilidade do roteiro, independentemente das justificavas dos bastidores), a montagem de John Ottman aloca momentos que surgem para pormenorizar o lado conflituoso da banda. As discussões são contemporizadas por saídas rasas como o baixista que toca o riff e todos param de discutir; ou Freddie saindo pra fumar quando os demais integrantes começam a brigar.

Graças ao roteiro, a montagem cria momentos melodramáticos desnecessários no arco final. A recriação do show da banda no Live Aid é emocionante por si só (mesmo com o CGI da público sendo chamativo demais). A encenação do momento é enérgica, cuidadosa e empolgante. Ela, por si só, consegue emocionar. Mesmo assim, há uma insistência em destacar choros emocionados e as lágrimas numa redundância emotiva que não apenas quebra o ritmo, mas também parace não crer na força do próprio filme. Aliás, o melodrama é reforçado também por liberdades temporais que fragilizam o contexto da banda. Isso deve incomodar mais os fãs e não é necessariamente um erro, mas uma decisão dúbia, que também demonstra a fragilidade do roteiro inseguro.

E não é apenas aí onde a tônica melodramática surge descaradamente. A reunião com a família de Mercury, por exemplo, chega a ser destoante. Desde a fotografia que capta os raios de luz, até os diálogos açucarados. Sem sutileza, o momento ainda retorna a especulação sobre as motivações de Mercury. Aliás, de Farrokh Bulsara (o verdadeiro nome do cantor), pois pela construção do filme, aquele não parece ser Mercury.

A música do Queen é, obviamente, outro elemento positivo e ajuda a impedir que o filme seja ruim. Os demais membros do elenco também colaboram, mesmo sem nenhum outro grande destaque. Há ótimos momentos de humor natural, oriundo do conflito de personalidades ou das idiossincrasias da época. Mas há também alguns construídos. Aliás, há uma piada que envolve o comediante Mike Meyers. Ele interpreta Ray Foster, ex-produtor da banda que comenta sobre o que ele considerava um fracasso que seria a canção Bohemian Rhapsody. Essa é para os conhecedores de Meyers em Quanto mais idiota melhor (1992).

Dessa forma, não é injusto dizer que Rami Malek carrega Bohemian Rhapsody nas costas. Há valores menores, mas é o ator quem entrega o Freddie Mercury que desejamos ver, mesmo que o filme pareça ter vergonha dele. Mas, infelizmente, ainda não foi dessa vez que vimos ao filme definitivo de Mercury e/ou Queen.

 


 

 

Data de estreia: 1º de novembro
Título Original: Bohemian Rhapsody
Gênero: Biografia, Drama, Musical
Duração: 2h14
Classificação: 14 anos
País: Reino Unido, Estados Unidos
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Anthony McCarten
Edição: John Ottman
Cinematografia: Newton Thomas Sigel
Elenco:  Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joe Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker,Meneka Das, Ace Bhatti

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