CRÍTICA | Colossal

by Thiago de Mello

Alguns filmes conseguem surpreender de várias maneiras. Pode ser apenas pela boa historia, por uma direção bem executada, boas atuações, relevância da mensagem, originalidade, etc. Colossal, escrito e dirigido por Nacho Vigalondo, é um desses filmes. Cada aspecto do longa, tanto técnico e quanto narrativo, é elogiável. E a junção de todos os elementos culminam numa obra criativa, original, divertida, tensa e relevante.

O início propositalmente vago de Colossal consegue intrigar o espectador, a partir de duas histórias distantes geográfica e temporalmente. Ambos os prólogos fornecem apenas o suficiente para situar o público dentro da realidade da trama, e para apresentar Glória (Anne Hathaway), uma mulher comum, que está desempregada há um ano e tem problemas com a bebida. Após ser expulsa da casa de seu namorado, Gloria retorna à sua provinciana cidade natal, buscando se restabelecer. Oscar (Jason Sudeikis, num trabalho que vai além de sua conhecida competência cômica), um amigo de infância, lhe oferece um emprego como garçonete em seu bar. Enquanto isso, Seul (capital da Coréia do Sul), começa a receber ataques esporádicos de um monstro gigantesco. E Glória tem alguma participação nisso.

Colossal

Divertido e tenso, ‘Colossal’ é uma das melhores surpresas de 2017, até o momento

A trama utiliza um elemento fantástico para narrar uma comédia dramática de suspense e ação. Sim, esse é estranho gênero melhor define Colossal. Vigalondo realiza uma direção precisa ao unir e transitar com extrema fluidez entre tais gêneros, oferecendo uma obra cuja combinação, em mãos menos habilidosas, seria destrutiva. Mas isso não é o caso em Colossal.

Quando comédia, o público é agraciado com diferentes momentos cômicos onde as reações variam de leves sorrisos a boas gargalhadas. Mas quando a narrativa extrapola o humor e se aventura por outros gêneros é quando Colossal atinge todo seu potencial.

Os arcos dramático e de suspense são inseridos aos poucos durante a linha cômica e vão ganhando volume com naturalidade, até suprimir por completo a comédia, numa mudança de gêneros orgânica e exponencial. Quando o filme respira apenas ares de tensão, o espectador já está envolvido demais para não sentir a opressão da nova atmosfera.

A direção de Vigalondo coloca o público bem no meio dessa tônica densa que se forma entre os protagonistas, enquanto Seul é atacada. A ótima dinâmica de Hathaway e Sudeikis é fundamental na imersão. O carisma natural de ambos, somado aos personagens bem escritos e competentemente personificados permitem que laços empáticos sejam construídos com facilidade. Assim que a conexão espectador-personagens é estabelecida, Vilagondo subverte seus personagens, mudando o gênero vigente. O que era comédia, agora é drama. O que era engraçado, agora resulta em consequências negativas. O drama vira suspense. O riso dá lugar ao receio e medo.

A alternância entre os gêneros dá consistência à uma metáfora sobre relacionamentos abusivos. E aí reside mais um valor do filme: nada é por acaso. O “Colossal” que batiza filme não se limita às dimensões gigantescas do monstro que assola a capital sul-coreana, mas também serve para mensurar a gravidade dos atos odiosos que um ser humano pode tomar. As consequências não se limitam à esfera pessoal e podem atingir pessoas completamente alheias e inocentes, do outro lado do mundo, e são realmente graves – ou colossais.

Os minutos finais dão ainda mais significância à mensagem, principalmente ao reparar nas figurantes que a câmera enquadra – mas sem tirar o foco da protagonista. Além terminar com uma leve piada, mas cheia de significado.

Conclusão

Preciso. Criativo. Divertido. Tenso. Relevante. É possível elogiar e categorizar Colossal com vários adjetivos. Mérito de uma direção paciente e objetiva, que brinca com as expectativas do público, colocando-o no meio de uma comédia para, posteriormente, contar uma história densa sobre relacionamentos abusivos. Mas é possível reunir todas as palavras elogiosas numa só: filmaço!

Colossal estria em 15 de junho.

 


 

Título original: Colossal
Gênero: Comédia, Drama, Ação, Suspense
Duração: 1h49
Classificação: 10 anos
País: Canadá/Espanha
Direção: Nacho Vigalondo
Roteiro: Nacho Vigalondo
Cinematografia:
Eric Kress            
Trilha Sonora: Bear McCreary
Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens

 

0 comment

Leia também

Esse site usa cookies para melhorar a sua experiência. OK