CRÍTICA | História Assustadoras Para Contar no Escuro

by Thiago de Mello

Ainda que não tenha sido dito pela narração ou escrito na tela, para mim Histórias Assustadoras para Contar no Escuro começa com o clássico “Era Uma Vez…” que se apresenta na sugestão. A melodia que entoam o piano e os violinos da trilha sonora – composta por Marco Beltrami e Anna Drubich – inicia a envolvente atmosfera sinistra, tão onírica quanto idílica, que cobre à obra. Uma música familiar que instiga a atenção (e consequentemente a expectativa). É um momento breve e pouco chamativo, mas que dá início à chegada de uma história sobre o valor de contar histórias. Mas se essa primeira música funciona como introdução, é a canção Season of the Witch, clássico de Donovan, que determina a tônica de Histórias Assustadoras… .

O som característico da música , por si só, já transporta a imaginação para a efervescente década de 1960, nos Estados Unidos. Se a guitarra determina o tempo, a letra desenha o contexto do período e do próprio filme, seja pela interpretação mística (em tradução livre, Temporada da Bruxa), seja pela interpretação sob a perspectiva conjuntural, já que a letra também pode ser lida como uma metáfora para a intensidade de uma década marcada, também, pela Guerra do Vietnã. Mas enquanto a canção sugere, o design de produção (de David Brisbin), a fotografia (de Roman Osine) e a montagem (de Patrick Larsgaard) dão vida e personalidade a uma pequena e genuína cidadezinha interiorana estadunidense. A movimentação da câmera discorre sobre cultura da cidade. Nas ruas, movimento, comércio, bons carros, patriotismo e jovens comemorando a convocação para a guerra. Risos, cordialidade, despreocupação, paixão e otimismo, tudo apresentado através da montagem calma, que permite tempo ideal de assimilação ao expectador, e da fotografia de límpida e de tons quentes desenha um local aparentemente perfeito onde tudo funciona exatamente como deveria ser. Em outras palavras, o filme evidencia parte das suas ferramentas narrativas que são os clichês (toda a cidade parece ser um) e estereótipos, como Tommy (Austin Abrams), um clássico baderneiro. Porém, quando o filme adota uma perspectiva mais próximas dos indivíduos, dentro de suas casas, o otimismo que preenche a atmosfera exterior muda para um realismo desanimador. Lares com alguma tristeza, famílias prejudicadas pela guerra, personagens que destoam daquela “perfeição”. É através desse choque de realidade diferentes, de narrativas, que Histórias Assustadoras… pauta seu objetivo maior: homenagear, através da demonstração, o poder da estória.

O terror visual, ainda que não contenha sangue ou violência explícita, é mérito da narrativa e concepção de boas criaturas. Esse espantalho é muito assustador!

Mas para chegar nessa mensagem, Histórias Assustadoras… utiliza os elementos de terror através de um filme de amadurecimento. O roteiro de Dan Hageman & Kevin Hageman e Guillermo del Toro (baseado na obra literária homônima de Alvin Schwartz) e a direção de André Øvredal trabalham em sintonia harmoniosa para elaborar uma espécie de A Origem (Christopher Nolan, 2010)da narrativa. Histórias Assustadoras… estrutura seus discursos através de histórias (as mortes causadas pelo espírito da atormentada de Sarah Bellows), dentro da história dos adolescentes Stella (Zoe Margaret Colletti, talentosa), Ramón (Michael Garza), Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Austin Zajur) dentro do filme, que é uma história narrada (apenas no prólogo e epilogo, servindo como um abre e fecha aspas) pela protagonista Stella.

Øvredal já havia demonstrado bom domínio de terror no interessante A Autópsia (2016). A característica cadenciada do diretor na construção de terror torna a funcionar em Histórias Assustadoras… para criar, dentro da classificação etária (14 anos, ou seja não há sangue e violência explícita, mas um terror mais fantasioso), um clima soturno e sugestivo, apesar de alguns momentos com jump scares exagerados ou dispensáveis. A estrutura parecida com filmes de antologia (contos conectados através de um tema central) cria uma progressão narrativa envolvente, e as histórias de Sarah Bellows possuem bom aspecto macabro. Cada monstro que surge causa um incômodo visual e chega a ser difícil para mim dizer qual deles foi o mais assustador. Nesse aspecto, o trabalho de maquiagem e próteses merecem os devidos méritos ao criar criaturas realmente bizarras sem depender exclusivamente da computação gráfica que, por verses, prejudica sequência e filmes pela falta de materialidade aparente (o que acabou acontecendo no arco das aranhas). Mas mais do que o aspecto visual grotesco, cada monstro funciona como uma representação da barreira a ser superada por cada adolescente. Ou seja, são representações dos seus principais conflitos. Ao lidar com esses bem com esses arquétipos, Histórias Assustadoras… evolui enquanto cinema. Embora os contos do espantalho (uma figura realmente incômoda) ou da mulher no hospital sejam legais de acompanhar, foi a concepção do monstro de Ramón que realmente me impressionou.

O personagem é curioso pois é envolto em dúvida. Quem ele é e o que está escondendo? Enquanto o filme constrói a resposta, há um diálogo que chama a atenção. Em determinado momento, Ramón diz que “meu irmão voltou despedaçado da Guerra”. Seria despedaçado física ou mentalmente? Não dá pra saber. E a forma como ele fala (não tanto pela qualidade do ator pois ele destoa dos demais pela baixa qualidade ao criar um personagem quase inexpressivo) enfatiza um trauma muito forte. É o poder da escolha das palavras. Despedaçado. Essa classificação pesa e comunica muito – aliás, a importância da escolha das palavras também se destaca no momento onde um dos adolescentes afirma que “se está no jornal, deve ser verdade”. O foco está no “deve ser” (must be, no idioma original) que, pelo contexto do filme que mostra o presidente Nixon e suas mentiras acerca da Guerra do Vietnã (um paralelo com Trump e suas fake news e pós-verdades), indica a influência e, consequentemente, a responsabilidade daqueles que elaboram as narrativas, tal como a imprensa. O que está no jornal não apenas é uma “verdade”, como também tem a obrigação de ser. Mas voltando ao monstro de Ramón. Após chegar o seu pequeno conto, o filme elabora uma criatura que literalmente despedaça o próprio corpo e cuja expressão corporal e facial criam uma figura insana ou despedaçada mentalmente. Ela concepção artística reflete perfeitamente o horror que o persegue e que precisa ser confrontado.

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro trás orgulhosamente (não dava para ser diferente) o nome de Guillermo del Toro estampado nos seus trailers e cartazes. Conhecido por ser um grande contador de histórias, além de uma mente muito fértil para o terror, é possível perceber a participação do premiado diretor de A Forma da Água (2017), O Labirinto do Fauno (2006) e outros ótimos filmes nesse filme. Histórias Assombradas… é uma homenagem boa e saudosa ao valor e poder narrativo que funciona não apenas dizendo o quão gostoso é ouvir e ler uma boa história, mas demonstrado como é possível contar algo interessante e que tenha valor utilizando clichês e estereótipos como ferramenta para chegar aos arquétipos. Uma demonstração de como uma narrativa pode criar verdades através de mentiras. Em como uma história pode determinar alegrias e dores igualmente intensas. Em como a paz ou o caos são conquistados através de palavras.

Mas a mensagem não atingiria tamanho resultado caso o filme não construísse paralelos com a nossa própria realidade. O papel da imprensa, as falas do presidente Nixon, o preconceito que sofre Ramón, dentre outras situações, criam laços entre a nossa realidade e aquela ficção. Uma boa história, pelo menos para mim, não é apenas aquela apenas com bons personagens e situações impressionantes, mas as que metaforizam nossa realidade para dar significado ao caos do dia a dia. E Histórias Assustadoras para Contar no Escuro é repleto de significados. Além de dos bons monstros.


Data de estreia: 08 de agosto
Título Original: Scary Stories to Tell in the Dark
Gênero: Suspense, Terror, Fantasia
Duração: 1h51
Classificação: 14 anos
País: Estados Unidos, Canadá
Direção: André Øvredal
Roteiro: Dan Hageman & Kevin Hageman e Guillermo del Toro
Cinematografia: Roman Osin
EdiçãoPatrick Larsgaard
Música: Marco Beltrami, Anna Drubich
Elenco: Zoe Margaret Colletti, Michael Garza, Gabriel Rush, Dean Norris, Austin Zajur, Austin Abrams, Natalie Ganzhorn, Kathleen Pollard

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