CRÍTICA | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

by Thiago de Mello

Quando o Homem-Aranha debutou no Universo Cinematográfico da Marvel em Capitão América: Guerra Civil, os fãs do herói (como eu) já não aguentavam mais lidar com a ansiedade de vê-lo devidamente representado nas telonas. Afinal, desde 2007, com o infame Homem-Aranha 3 (de Sam Raimi), – e passando pela sofrível já extinta franquia Espetacular Homem-Aranha – não há uma personificação cinematográfica à altura do personagem.

Eis que após sua breve, porém promissora participação em Guerra Civil, o Aranha chega aos cinemas. E o resultado final é perfeitamente legal. Nada além disso.  O que não é ruim, já que o filme está mais preocupado em seguir a fórmula Marvel e estabelecer os alicerces do herói num terreno seguro do que tentar adicionar algo de novo ao gênero ou criar um longa grandioso.

Logo nos minutos inicias, no prólogo, o filme apresenta seus grandes méritos: Tom Holland como Peter Parker/Homem-Aranha e um humor leve e juvenil (mas jamais pueril), característico do herói. Se a Marvel costuma errar na quantidade e timing das piadas, em De Volta ao Lar o Estúdio encontra situações e espaços adequados para quase todas. Assim, a comédia recebe um protagonismo natural e eficiente, criando uma confortável atmosfera pubescente para o público. E para o espectador mais velho, tal como este que vos escreve, até nostálgica, emulando momentos à la o saudoso John Hughes, graças à divertida ambientação e atmosfera colegial em cena.

O Homem-Aranha de Tom Holland é a melhor coisa do filme

Tom Holland já havia demonstrado qualidade promissora em Guerra Civil. Mas é em De Volta ao Lar que ele se estabelece como o Parker/Aranha definitivo. Quando dá vida à Peter, Holland entrega um trabalho convincente e dotado de carisma ao interpretar um jovem comum, cheio de desejos e dúvidas, realizando um bom retrato da inquietação característica da adolescência – de uma maneira leve, obviamente. Já como Homem-Aranha, o trabalho físico e vocal do ator – aliado ao bom design do uniforme e qualidade do CGI – dão vida a um herói divertido e empolgante. Enquanto os Homem-Aranhas de Tobey Maguire e Andrew Garfield não conseguiam acertar em ambas personalidades, Holland encontra um ponto comum e acerta em cheio na criação e personificação do adolescente comum e do super-herói.

A boa composição de personagem não é exclusividade de Holland. O Adrian Toomes/Abutre de Michael Keaton é bem trabalhado, também com bom design, e o ator se esforça para dotar o vilão de valor. Porém, Keaton só obtém sucesso até onde o roteiro permite. Infelizmente, a Marvel ainda não aprendeu desenvolver vilões. O Abutre se mantém na mesmice dos antagonistas rasos: acreditando que foi prejudicado por Tony StarkToomes resolve construir armas ilegais unindo tecnologias terráqueas e alienígenas para proteger sua família (a qualquer custo). Embora não seja esquecível como os antagonistas de Homem-Formiga ou Doutor Estranho, o Abutre não transmite o senso de ameaça que o personagem exige, tampouco consegue transformar a motivação dele em algo que o expectador se realmente importe. Seu papel dentro da trama está mais para conectar o Homem-Aranha ao universo dos Vingadores do que servir como ameaça ao herói. Dessa forma, o desenvolvimento convencional do vilão faz com que o filme perca vigor considerável.

Vale destacar que mesmo com a constante citação aos Vingadores, além da participação pontual de Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr., numa mentoria divertida e funcional), De Volta ao Lar consegue manter sua identidade, sendo um filme do Homem-Aranha ao invés de um pré Guerra Infinita.

A direção de Jon Watts é competente, mas jamais consegue dar ares de grandiosidade às cenas de ação e provação do personagem. Enquanto caminha por uma narrativa objetiva e burocrática, porém eficiente, Watts consegue manter o público engajado graças à boa utilização da presença dos atores e as muitas piadas. Mas durante os combates, o diretor não consegue replicar o impacto e a dinamicidade necessárias para fazer o público vibrar. São cenas que jamais saem do “bom”. Os movimentos de câmera, edição e enquadramentos parecem prezar unicamente pela objetividade. Mas essa falta de criatividade impacta em algo maior. Quando o Homem-Aranha se depara com algum desafio hercúleo no qual precisa superar-se física e mentalmente, Watts jamais consegue capturar a grandiosidade do esforço do herói, deixando a cena pouco saborosa. Nessas situações, a qualidade de Tom Holland salva os momentos da mediocridade. No final, o gênero ação não obtém o mesmo êxito da comédia.

Mesmo assim, o resultado final de Homem-Aranha: De Volta ao Lar é positivo. A cartilha da Marvel permanece eficiente, embora demonstrando mais sinais de desgaste (tal como já havia feito em Doutor Estranho). Porém, tal como o personagem-título, o filme ainda é um adolescente tentando se entender, encontrar e se encaixar em algum lugar. Comete equívocos, realmente, mas demonstra vontade e potencial conforme amadurece. O futuro desse jovem Homem-Aranha, pelo que ele já demonstrou até aqui, é muito animador.

LEMBRETE – Há DUAS cenas pós-créditos. Uma delas já indica um possível novo vilão no futuro do herói. E a outra… é tão metalinguística e divertida que torna-se genial. Independentemente do conteúdo! 😉

Homem-Aranha: De Volta ao Lar estreia em 06 de julho.

 


 

Título original: Spider-Man: Homecoming
Gênero: Ação, Aventura, Comédia
Duração: 2h13
Classificação: 12 anos
País: EUA
Direção: Jon Watts
Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers
Cinematografia: Salvatore Totino             
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Donald Glover, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Jacob Batalon, Tony Revolori

 

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