CRÍTICA | Missão: Impossível – Efeito Fallout

by João Rafael

Acho que já podemos dizer com certa segurança que a franquia Missão: Impossível é uma das mais bem-sucedidas do gênero de ação na história de Hollywood. E não digo isso me referindo à sua igualmente próspera bilheteria, mas em relação à qualidade que continua a exibir e a refinar a cada sequência. Depois de exibir sua primeira versão cinematográfica (um thriller de ação e espionagem quase impecável dirigido por Brian de Palma em 1996), adaptada da série dos anos 60 e 70, e dar uma tropeçada com o 2º filme (Missão Impossível 2, de John Woo, em 2000), a série encontrou o caminho transitando em estilos e diretores diferentes, porém compartilhando exatamente a mesma característica: a competência nos elementos básicos que definem seu gênero. O que falta cada vez mais aos atuais derivados lançados todos os anos na indústria parece sobrar para as sequências sobre as idas e vindas de Ethan Hunt com sua organização (a IMF) e seu governo. Ora, se o cinema pode ser profundo o quanto permitir, pode ser também tão arte na medida em que seu escapismo é tão bem executado que os 148 minutos de Missão: Impossível – Efeito Fallout são tão breves e satisfatórios como as melhores doses de adrenalina.

Já chegando no 6º capítulo da série, Ethan Hunt (Tom Cruise) se encontra novamente sob uma ameaça global quando um novo grupo terrorista pretende vender ogivas nucleares para um misterioso fanático que planeja agir sob o pretexto de “lutar contra a velha Ordem Mundial”. Em meio a tudo isso, ele precisa enfrentar as consequências pessoais de decisões que tomou no passado enquanto corre contra o tempo para recuperar os explosivos, contando novamente com a ajuda de Luther (Ving Rhames), Benji (Simon Pegg) e, ocasionalmente, de Ilsa (Rebecca Ferguson); além de agora ser submetido à vigilância do agente Walker (Henry Cavill), designado pelo governo americano em face à desconfiança quanto aos métodos de Hunt.

Como se pode notar, a premissa desse novo filme não é exatamente o que podemos chamar de original. A esse ponto, se tivéssemos a oportunidade de nos transportar com um pouco mais de realidade para dentro do universo de Ethan Hunt, provavelmente o veríamos com sérios transtornos ocasionados por anos e anos sendo traído por compatriotas, tendo que fugir para salvar e reconstruir a IMF e sendo constantemente questionado pelo seu país. Mas graças ao cinema, realismo não é o que procuramos aqui e podemos nos dar ao luxo de ser entretidos a cada vez que o personagem sofre para escapar de situações absurdas e se esforça para estar a um passo à frente de todos que possam o apunhalar pelas costas. Como o que realmente importa nos filmes não é sobre o que ele é, e sim sobre sua trajetória, não nos importamos de fato se a história não é das mais extraordinárias, desde que seja bem contada. E ser “bem contada” em termos de seu gênero continua sendo a especialidade dessa franquia.

É importante frisar – e para salientar logo uma das poucas fraquezas da obra – que não necessariamente a originalidade, mas a familiaridade é a que tem tornado o público cada vez mais preparado para esperar que certos “vícios” se repitam. Depois de 5 filmes anteriores, é inevitável que alguns elementos desse universo nos deixem mais capacitados a antecipar as artimanhas do roteiro. Qualquer um pode ser um traidor (e como já se mostrou diversas vezes anteriormente, alguém de fato será), a todo momento se espera um plot twist (seguido de outro, de preferência) e sempre vai ter alguém usando a icônica máscara como um elemento crucial (convenhamos que isso é bem legal na série). Se está lendo isso pensando ser qualquer tipo de spoiler, não é preciso se preocupar, é apenas um efeito causado pela repetição desses vários elementos ao longo dos 22 anos desde quando tudo começou, e aqui não é possível escapar sempre disso. Ao mesmo tempo em que a dúvida é bem-vinda para gerar tensão na narrativa, seu excesso nos distancia, já que tudo pode acontecer e provavelmente você vai acertar alguns palpites durante a história.

Mas para tranquilizar, ainda assim o trabalho de roteiro, realizado pelo próprio diretor, Chistopher McQuarrie, é competente. Mantendo uma estrutura bastante equilibrada entre a ação e os momentos para plantar pistas e dar recompensas, o equilíbrio do longa é bastante eficaz e sua longa duração não pesa. Há diversos momentos de adrenalina espalhados cuidadosamente de forma que aqueles em que os personagens e os meandros da trama são desenvolvidos não ultrapassem a capacidade do próprio texto. Nesse sentido, o cineasta dedica o tempo necessário para conferir alguma substância a Ethan e seus conflitos pessoais – o que, convenhamos, nunca foi lá o grande forte da série. Ainda assim, somado ao grande carisma costumeiro de Tom Cruise, o protagonista continua tendo o poder de nos investir na simplicidade de suas motivações. Há alguns tropeços – como a insistência em utilizar sequências onde o personagem imagina alguma coisa como num sonho ou uma espécie de premonição, o que acaba sendo um recurso narrativo meio preguiçoso –, mas, no geral, a obra tem consciência sobre até onde ir com as camadas de seu protagonista.

Por outro lado, o equilíbrio também aparece no tom e nas caracterizações. Simon Pegg continua com seu bom timing cômico e seu Benji jamais aparece inconvenientemente fazendo piadas deslocadas, se inserindo organicamente para dar a leveza necessária à história. Já Ving Rhames, embora sempre tenha sido mais um apoio do que qualquer algo mais, consegue usar a lógica da idade de uma maneira surpreendentemente eficaz em humanizar o protagonista e o próprio Luther – note, por exemplo, como sua imagem bem mais ponderada e sábia se distancia daquela de 1996. Ilsa continua a ser uma ótima adição como personagem vinda do filme anterior, além de contar com a excelente fisicalidade de Rebecca Ferguson. Por último, Henry Cavill prova estar cada vez mais carismático e imprime uma intensidade certeira a Walker. Quanto à trama, embora ocasionalmente mais complexa do que o necessário – o que acaba obrigando o roteiro a recorrer a muitos diálogos expositivos para não deixar ninguém perdido – não passa de uma boa desculpa para que sejam usadas as mais diversas locações diferentes de forma que a direção tenha seu leque na hora de brilhar.

Missão: Impossível – Efeito Fallout faz tudo certo para o gênero de ação.

O que nos leva, finalmente, ao que Efeito Fallout tem de melhor: suas excelentes sequências de ação. Provando que é possível recorrer ao máximo de efeitos práticos e ter a vantagem de contar com costumeira dedicação de Tom Cruise, o longa é uma aula necessária de como trabalhar bem com o gênero. Passando por Berlin, Paris, Londres e outros diversos locais (e suas ruas, becos e prédios), o valor de produção se converte nos cenários diversos e tudo que é possível colocar neles; por consequência, mais possibilidades de usar a criatividade na hora de conceber as perseguições, lutas e acrobacias. E para quem espera referências, elas estão lá: desde um interrogatório que lembra diretamente uma sequência similar do 1º longa até situações de perigo que remetem a alguns quadros icônicos das outras continuações.

Mas é mesmo nas loucuras do astro principal que depositamos nossa esperança (ainda mais depois de tanto trabalho de marketing pessoal para que isso seja sempre divulgado…). Provando porque ainda é uma das maiores estrelas do cinema, o ator não mede esforços para passar meses apreendendo a pilotar um helicóptero e ultrapassar 100 saltos de um avião a mais de 7.000 metros de altura, “apenas” para que tudo no filme seja o mais convincente possível. O resultado não só aumenta a credibilidade das próprias sequências, mas faz com que se diferenciem da grande maioria dos exemplares de ação, cujos atributos se dão muito mais por qualidade estética (vinda do uso intenso de CGI). Aqui esse efeito se converte numa tensão constante e no nosso investimento como espectador – o famoso “ficar na ponta da poltrona”.

Tudo isso, claro, também só é possível pelo excepcional trabalho de Christopher McQuarrie, que já tinha entendido nossas súplicas no filme anterior e agora surge ainda melhor. Não há nenhuma sequência sequer que seja mal orquestrada pelo diretor. Ao invés de recorrer à montagem esquizofrênica para esconder a inabilidade como outros fariam em seu lugar, ele faz o contrário justamente permitindo que acompanhemos tudo através de planos mais longos e abertos, que, além de explorar o potencial do ambiente, permite que a ação cresça em cima da tensão que sentimos ao saber os perigos que esses próprios planos nos permitiram enxergar. Como se não bastasse, ainda arrisca um plano sequência espetacular em um segmento que se passa em um avião, tendendo (ainda bem) a evitar os cortes que esconderiam as intervenções naturais de dublês. Fora essa, há pelo menos mais meia dúzia de outras sequências que já seriam admiráveis apenas por sabermos que o próprio astro do projeto as executou.

O resultado é que somos brindados com excelentes perseguições de moto, carros, caminhões e até helicópteros (há quanto tempo você não vê umas boas dessas?), acrobacias dignas de Tom Cruise e sequências de luta que se saem tão bem quanto – aliás, outro aspecto cujo mérito há de ser reconhecido, já que normalmente é um que costuma falhar até nos bons filmes do gênero. Divertido, tenso e com uma trama funcional o suficiente para ter sua parcela de surpresas, a 6º empreitada da franquia acerta em quase tudo, deixando os concorrentes muito atrás e se firmando como uma referência absoluta para as futuras gerações que queiram manter o respeito do gênero.

Missão: Impossível – Efeito Fallout é a prova do que há de melhor em um dos gêneros que mais tem a cara de Hollywood; também o que costuma sofrer preconceito por uma definição limitadora de “arte”. Para isso, só posso recorrer a uma excelente definição que li certa vez em um comentário (ou pessoalmente, ou em uma outra análise, para o qual daria imediatos créditos se conseguisse me lembrar):

Esse filme é absolutamente implausível e maravilhosamente cinematográfico”.

 


 

 

Data de estreia: 26 de julho
Título Original: Mission: Impossible – Fallout
Gênero: Ação, Thriller, Aventura, Espionagem
Duração: 2h28
Classificação: 14 anos
País: Estados Unidos
Direção: Christopher McQuarrie
Roteiro: Christopher McQuarrie
Edição: Eddie Hamilton
Cinematografia: Rob Hardy
Trilha Sonora: Lorne Balfe
Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Rebecca Ferguson, Ving Rhames, Simon Pegg, Sean Harris, Michelle Monaghan, Angela Basset, Alec Baldwin

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