CRÍTICA | O Estranho que Nós Amamos

by Thiago de Mello

Enquanto procurava e recolhia cogumelos, a jovem Amy (Oona Laurence) encontra um soldado da União ferido, ao pé de uma árvore, que lhe pede ajuda. Inocente e criada sob fortes valores religiosos, Amy leva o desconhecido até o internato onde mora, em Luisiana (um dos estados da Confederação), habitado apenas por mulheres que tentam sobreviver durante a Guerra de Secessão (1861 a 1865). Por trás desse início aparentemente simples, a diretora e roteirista Sofia Coppola já indica a atmosfera duvidosa e claustrofóbica que envolve O Estranho que Nós Amamos.

A jovem Amy catava cogumelos, mas sem saber diferenciar, com certeza, os venenosos dos comestíveis. É durante a colha que a adolescente encontra o soldado John McBurney (Colin Farrell). Pertencente ao exército inimigo – nesse ponto já há uma inversão de valor curiosa: Jonh está do lado “bom” da guerra, aquele contra o avanço da escravidão. Já as mulheres do internato fazem parte dos confederados, pró-escravismo – o único homem no internato da senhorita Martha (Nicole Kidman) é um perigo ou não?

Sofia Copolla não trabalha com respostas em O Estranho que Nós Amamos, mas sugestões. Isoladas numa mansão, cada mulher reage de maneiras diferentes com a chegada do soldado. Há aflição por sua presença, felicidade pela nova companhia e até desejos sexuais. Independentemente do sentimento individual, a presença de John estremece o coletivo.

Copolla cria um complexo jogo de emoções ao aproveitar a repressão da cultura sulista em contradição com os desejos carnais inerentes no ser humano, durante um período de medo e isolamento.

Tenso e envolvente, ‘O Estranho que Nós Amamos’ é mais um grande trabalho de Sofia Coppola

Dividindo o foco entre John, Martha, Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning), principalmente, O Estranho que Nós Amamos desenvolve um suspense atmosférico ancorado nas relações entre esses personagens. Os interesses de cada um jamais são claros, tal como suas atitudes sugerem algo além do que aparentam.

O quarteto principal (John, Martha, Edwina e Alicia) recebe performances certeiras de seus respectivos ator e atrizes. Embora o roteiro ignore parte das demais habitantes da casa – além de Amy, há Jane (Angourie Rice), Marie (Addison Riecke) e Emily (Emma Howard), todas pouco ou nada aproveitas – os personagens principais conduzem bem a trama, apresentando alguma dubiedade de seus respectivos personagens. Não se tratam de papéis profundos, de muitas camadas, mas de intensidade nas emoções básicas. São personagens guiados por emoções e instintos inerentes como o desejo, o medo, a sobrevivência e o ódio. É através dessas emoções tão comuns – e familiar a todos nós –  que O Estranho que Nós Amamos ganha força.

Porém, é preciso destacar a performance de Nicole Kidman. A atriz se sobressai aos demais graças a um trabalho minucioso e impactante, cuja presença, guiada pela etiqueta sulista cristã, é tão misteriosa quanto sincera.

Para dar uma atmosfera tão envolvente aos personagens, Copolla e Philippe Le Sourd, diretor de fotografia, realizam um ótimo trabalho quanto à ambientação e iluminação. Todo espaço da grandiosa mansão vai sendo, aos poucos, preenchida por uma sugestão de ameaça resultante da tensão entre cada personagem que se instaura paulatinamente. Se a casa era espaçosa no começo, torna-se sufocante ao longo da trama. O tom claustrofóbico também ganha vigor graças aos mise en scènes. Há um duelo entre as sombras e a diminuta luz quente de dezenas de velas que criam um chiaroscuro sugestivo e opressor que se espalha pelo campo e compõe não apenas a atmosfera, mas os personagens em cena, criando belos momentos de valor estético e narrativo.

O Estranho que Nós Amamos é a primeira investida da talentosa Sofia Copolla no suspense, e a diretora realiza um trabalho excepcional. Através de uma narrativa calma e imersiva, Copolla trabalha com personagens dúbios, tão humanos em seus desejos e imperfeições, para construir uma atmosfera de tensão palpável. O novo da diretora não almeja conclusões maniqueístas, mas trabalhar uma experiência emocional. E consegue!

O Estranho que Nós Amamos estreou em 10 de agosto.

 


 

Título original: The Beguiled
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 1h33
Classificação: 14 anos
País: USA
Direção: Sofial Coppola
Roteiro: Albert Maltz e Irene Kamp adaptando obra de Thomas Cullinan. Adaptado por Sofia Coppola
Cinematografia: Philippe Le Sourd
Música: Laura Karpman
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Kirsten Dunst, Oona Laurence, Angourie Rice, Addison Riecke, Emma Howard

 

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