CRÍTICA | Robin Williams: Come Inside My Mind

by João Rafael

Logo nos créditos iniciais, em uma entrevista de 2001 para o Inside The Actors Studio, é exibido um trecho onde o entrevistador James Lipton pergunta a Robin Williams como funciona sua mente. Tomado por uma súbita onda de empolgação, o ator se levanta e começa a improvisar uma série de rápidas gags enquanto usa qualquer coisa como uma deixa para engatar a próxima piada. Esta, claro, seria apenas uma demonstração de sua mais conhecida característica: o raciocínio afiado para o improviso combinado com surtos de hiperatividade momentâneos. Logo após, uma voz bem mais calma e equilibrada – ainda que carregada de um levo peso melancólico – confessa: “Eu tenho medo de me tornar enfadonho até me ir me transformando numa pedra…”.

A contraposição entre a reflexão do próprio ator e as imagens alegres que vemos na tela é a perfeita introdução para investigar a dualidade de sua figura fascinante neste novo documentário intitulado Robin Williams: Come Inside My Mind, produzido pela HBO (já disponível aqui no Brasil pela HBO GO e Net Now) e dirigido por Marina Zenovich (Polanski: Procurado e Desejado, Richard Pryor: Omit The Logic). A acertada escolha não é aleatória, já que coloca esse conflito principal como um motivador na jornada para mergulhar na vida e obra de um dos comediantes mais icônicos do cinema dos últimos 40 anos. O filme traça um retrato intenso e emocionante de sua história, desde o tempo das incertezas, quando fazia curso de teatro na conceituada Juilliard School (onde teve como colega de classe um certo Christopher Reeve…), até o imenso sucesso popular no cinema – com o diferencial que acompanhamos tudo em grande parte através do próprio Williams a partir de diversas gravações caseiras e trechos de entrevistas, o que torna a experiência ainda mais pessoal.

A cineasta Marina Zenovich mostra controle total sobre como quer conduzir o público a conhecer os principais momentos da história, equilibrando de forma bem calculada as abordagens pessoais e as viagens aos acontecimentos que marcaram a carreira do ator. Aliás, esse é um ótimo exemplo de como a concepção de um bom documentário não se difere da lógica por trás de uma narrativa ficcional. Um bom roteiro é aquele que apresenta seu protagonista com eficiência, introduz conflitos e faz com o espectador se engaje na sua trajetória, tudo isso em um ritmo que mantém os temas num jogo constante de expectativas e obstáculos. É exatamente dessa maneira que a estrutura concebida pela diretora evita que a narrativa se torne excessivamente episódica, correndo o risco da obra se transformar numa versão visual de um folheto informativo sobre a biografia e filmografia do ator. Embora a lógica seja, de forma geral, cronológica no seu todo, a montagem molda a narrativa para que os acontecimentos sejam lembrados a partir dos temas refletidos por amigos, familiares e o próprio ator, resultando numa coleção de ricas imagens e belas lembranças que obedecem mais a um tributo à sua personalidade do que propriamente um resgate periódico.

Assim, após acompanharmos seus primeiros anos profissionais até conseguir um papel na série Mork & Mindy, em 1978, o longa sempre encontra momentos pontuais para retornar ao passado e buscar as motivações pessoais e influências. Não é surpresa quando aprendemos, por exemplo, sua admiração pelo também comediante e ator Jonathan Winters, cuja habilidade em improvisar piadas a partir de objetos e deixas de diálogo é prontamente alternada pela aparição de Williams em um especial da Vila Sésamo, onde faz basicamente a mesma coisa. Por outro lado, alguns momentos depois somos pegos com um sorriso inesperado quando vemos Robin em uma entrevista com sua mãe, que exibe um senso de humor inesperadamente intenso e jovial – o que nos leva a pensar imediatamente: “é claro que isso veio de alguém da família…”.

Com um trabalho extenso de pesquisa, Zenovich e sua equipe conseguem exibir diversas imagens inéditas, tanto de seus momentos familiares e bastidores de shows até seus anos nos teatros de improviso, algo que viria a ser bem popularizado pelo programa Who´s Line Is It Anyway, primeiro a versão britânica e depois o spin-off americano (aqui no Brasil, a Cia. Barbixas de Humor faz um divertidíssimo trabalho há anos). Um dos destaques é o período de sucesso com a sitcom e os diversos shows de stand-up pelas noites de Los Angeles, no início dos anos 1980, quando conheceu David Letterman, Richard Pryor, Steve Martin, entre outros. Época também onde entrou no vício pela cocaína como resultado da intensidade na vida profissional e pessoal. Mas foi também quando teve o primeiro baque pela morte precoce de John Belushi por overdose de cocaína e heroína, tendo passado a noite anterior com ele e Robert De Niro (posteriormente chamados para depor nas investigações policiais).

Robin Williams: Come Inside My Mind é uma fascinante jornada pela vida e obra do humorista.

O uso de drogas marca um dos aspectos abordados pelo documentário para traçar o outro lado daquele personagem hilário que víamos nas telas, mas jamais incorrendo no erro de julgá-lo inteiramente por isso. Do contrário, o filme acerta em investigar com mais profundidade um traço de personalidade que o ator já tinha desde sempre, representado por uma necessidade de aceitação traduzido pelo humor que beirava ao incontrolável. Dessa forma, não é surpresa quando vemos o ator nos bastidores de Retratos de Uma Obsessão (2002) fazendo questão de quebrar seu personagem de um filme de suspense durante os intervalos entre os takes, algo que impressionava próprio diretor Mark Romanek, que deixava que o ator usasse o fato como um ritual de autocontrole. A partir de vários outros depoimentos, notamos que a estratégia era uma constante em sua vida e que os momentos de vazio existencial realmente não escolhem privilegiar os mais depressivos daqueles conhecidos por serem engraçados. Nada mais revelador que isso é vermos imagens de um homem esgotado física e emocionalmente deitado em um sofá no camarim depois de passar 2 horas entretendo uma plateia de 3.800 pessoas.

E é essa a grande qualidade do documentário: revelar a vulnerabilidade por trás de alguém que parecia inabalável em cima de um palco, mas que também o usava para manipular suas idiossincrasias através de uma versão mais exagerada de si mesmo. E ao invés de retratá-lo como uma vítima ou doente, a obra respeita sua história sem deixar de revelar os defeitos de uma personalidade que despertou uma curiosa afeição de muita gente. No campo profissional, basta observar a facilidade em conferir um ar de tristeza no olhar em seus papeis mais sérios, como pode se ver em Bom Dia, Vietnã (1987, Barry Levinson), Tempo de Despertar (1990, Penny Marshall), O Pescador de Ilusões (1991, Terry Guilliam) e Gênio Indomável (1997, Gus Van Sant) – este lhe rendendo o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, até nas comédias era possível notar o talento em mudar rapidamente do humor ao drama, fazendo com que alguns desses personagens só não se tornassem trágicos porque não era a proposta dessas obras.

Se trágico seria uma palavra bastante injusta para definir a história de Robin Williams, é impossível não se emocionar com algumas de suas aparições, quando era possível ver claramente o momento em que o ator parecia ligar um interruptor dentro de sua mente e passar de um rosto triste na multidão para um showman que toma um ambiente inteiro para si mesmo em questão de segundos – nesse caso, vale a menção do hilário momento em que sobre ao palco para celebrar a derrota no Critics Choice Awards de 2003, na categoria de Melhor Ator, para um empate entre Jack Nicholson e Daniel Day-Lewis. Entre idas e retornos de reabilitações, aquela expressão melancólica parecia cada mais presente, ainda que sempre disfarçada pelo humor sempre afiado e instantâneo.

Ao se aproximar do desfecho, Marina Zenovich deixa mais evidente o respeito e carinho pelo homenageado, também simbolizado pelas visões de alguns de seus grandes e notórios amigos pessoais, como Whoopi Goldberg e Billy Crystal. Sem cair em um melodrama ou jamais explorando sua morte de forma sensacionalista, Robin Williams: Come Inside My Mind é um belo e emocionante tributo a uma das personalidades mais icônicas de grande parte de uma geração (ou mais de uma).

Robin Williams não se tornou enfadonho e nem tão pouco uma pedra. Sempre que seus personagens forem lembrados, o seu legado vai ecoar da mesma maneira que seu personagem em Sociedade dos Poetas Mortos (1989, Peter Weir) declama ao mostrar aos alunos imagens daqueles que já se foram há muito tempo:

Carpe diem. Aproveitem o dia, garotos. Façam de suas vidas algo extraordinário…

 


 

 

Data de estreia: 06 de agosto
Título Original: Robin Williams: Come Inside My Mind
Gênero: Documentário, Biografia
Duração: 1h56
Classificação: 10 anos
País: Estados Unidos
Direção: Marina Zenovich
Edição: Poppy Das, Greg Finton
Cinematografia: Wolfgang Held, Nick Higgins, Jenna Rosher, Thorsten Thielow

Trilha Sonora: Adam Dorn
Elenco: Robin Williams, Steve Allan, Robert Altman, Roseanne Barr, John Belushi, George Carlin, Jim Carrey, Johnny Carson, Dick Cavett, Billy Crystal, Robert De Niro, Whoopi Goldberg, Michael Douglas, Shelley Duvall, Craig Ferguson, Ron Howard, David Letterman, Steve Martin, Richard Pryor, James Lipton, Edward Norton, Christopher Reeve, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Jonathan Winters

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