CRÍTICA | Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

by Thiago de Mello

Não acho aconselhável elevar minhas expectativas para assistir aos novos trabalhos do oscilante Luc Besson. O cineasta é capaz de criar obras maravilhosas com a mesma facilidade que tem em dirigir trabalhos surpreendentemente ruins. Tendo isso em vista, fui assistir Valerian e a Cidade dos Mil Planetas com ânimo controlado. O que foi uma boa escolha já que o filme fracassa em grande parte do que se propõe.

Luc Besson repete um problema bastante comum em adaptações (como no decepcionante A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell) que é focar apenas em replicar visuais do material fonte ao invés de entender as qualidades narrativas da obra. Assim, baseado na obra em quadrinhos criada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, Besson se preocupar apenas em criar estéticas vistosas, ao invés de uma boa história e roteiro. E nem mesmo o belo visual recebe o destaque necessário para melhorar a experiência.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas conta a história de Valerian (Dane DeHaan), major com uma carreira impecável que se vê envolvido numa intriga que pode aniquilar a cidade Alpha, uma megalópole espacial artificial lar de milhares de formas de vida alienígenas. Porém, enquanto tenta salvar a cidade e desvendar os planos que a ameaçam, o verdadeiro objetivo de Valerian é conquistar Laureline (Cara Delevingne), sua parceira, incrédula do amor do major.

‘Valerian e a Cidade dos Mil Planetas’ é decepcionante de diferentes maneiras

Após o prólogo simples e promissor que conta – ao som de Space Oditty, de David Bowie – como surgiu a gigantesca estrutura que virou a megalópole ameaçada, o filme inicia uma vertiginosa queda de qualidade, principalmente por conta dos personagens principais.

As curiosas escolhas de Dane DeHaan e Cara Delevingne para estrelar Valerian já causam estranhamento. Enquanto DeHaan carece de carisma necessário para dar vida ao personagem, Delevingne mostra que ainda não consegue sustentar qualquer protagonismo. Mas é preciso ser justo e pontuar que a péssima construção de personagens de Luc Besson não favorece nem o ator e, tampouco, a atriz.

A primeira cena de Valerian e Laureline apresenta a motivação do major ao longo do filme, colocando a história de amor de ambos como o macguffin de Valerian. Com diálogos breves e superficiais (e algumas vezes, risíveis), ambos os personagens debatem sobre o porquê ou não e se relacionarem amorosamente. Ele a ama, mas é um mulherengo que guarda memórias de antigos casos como troféus. E ela… não tem nada que a defina. O roteiro de Besson cria apenas mais um troféu à masculinidade heroica de Valerian. Há tentativas de disfarçar essa péssima construção feminina dando à Laureline frases que demonstram inteligência ou habilidades de combate, mas tudo vai à baixo quando o filme cria artifícios irrelevantes para deixá-la de biquíni por várias sequências ou quando, mais de uma vez, em perigo, grita por Valerian para salvá-la. É impressionante como em tempos de personagens femininas fortes e bem trabalhadas (Mulher-Maravilha ou  Jyn Erso em Rogue One: Uma História Star Wars, por exemplo), um filme dessa magnitude opta por dar alguns passos pra trás quanto à representatividade feminina nas telas.

E se a construção e desenvolvimento de ambos peca individualmente, o relacionamento também sofre com as decisões do roteiro e falta de química entre Dane DeHaan e Cara Delevingne.

Sem personagens capazes de conduzir a space opera, resta ao espectador focar na história, o que é outro problema. Previsível e cheia de decisões equivocadas, a trama não consegue sustentar os longos e enfadonhos minutos de projeção (2h17). Para conduzi-la, são apresentados diversos personagens pela trama. Porém, tal como os principais, nenhum recebe bom trato ou relevância. Mas vale destacar o personagem Jolly (Ethan Hawke) que diverte o quanto pode graças à Hawke, que aparenta estar se divertindo com o papel.

Mas de todos os personagens que aparecem ao longo do filme, dois se destacam negativamente. O primeiro é o comandante Arun Filitt, interpretado por Clive Owen. O ator trabalha no automático e não parece nem um pouco interessado em dar o mínimo de valor ao personagem mal escrito e previsível. Mas é a Bubble de Rihanna quem surpreende pela má qualidade. Além de mal atuado pela cantora, e mal escrito por Besson, Bubble possui uma desnecessária história trágica, irrelevante para o filme, e sempre está contando piadas infantis e trocadilhos no meio de uma batalha. Porém, o pior é quando o desenvolvimento da trama para, literalmente, para a cantora realizar um pequeno clique. Inacreditável.

Há, sim, acertos, mas são breves e perdem importância em meio a tantos erros. Eles se resumem a alguns ambientes como partes da cidade Alpha e uma comunidade praiana, todos vastos, coloridos e com ótima profundidade de campo, dando valor ao 3D, além da boa qualidade da pós produção. Ou algumas curiosas criaturas. Só que grande parte do filme discorre em ambientes fechados, com os personagens humanos em evidência.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas tinha elementos suficientes para ser bem melhor do que é, mas o novo trabalho de Luc Besson decepciona em diversos aspectos. O diretor parece crer que uma space opera é apenas um apanhado de aventuras românticas, criaturas e personagens megalomaníacos misturados e espalhados aleatoriamente ao longo de uma história qualquer, maquiados por pós-produção. Ledo engano.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas estreia em 10 de agosto.

 


 

Título original: Valerian and the City of a Thousand Planets
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica, Fantasia, Opera Espacial
Duração: 2h17
Classificação: 12 anos
País: França
Direção: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson adaptando quadrinho de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières
Cinematografia: Thierry Arbogast
Música: Alexandre Desplat
Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock, Rutger Hauer

 

2 comments

Leia também

Esse site usa cookies para melhorar a sua experiência. OK