CRÍTICA | Eu, Tonya

by Thiago de Mello

Em determinado momento de Eu, Tonya lembrei-me de uma frase curiosa da ótima série The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, do canal FX. Não me recordo ipsis litteris, mas o contexto era de que os acontecimentos acerca do possível assassinato cometido por O.J. Simpson eram tão estapafúrdios – com tantos personagens e reviravoltas – que se fossem elementos extraídos de alguma ficção, seria uma péssima ficção. Eu, Tonya encaixa-se bem nessa ideia.

A direção de Craig Gillespie e o roteiro de Steven Rogers demonstram absoluta noção dessa quantidade de personagens e fatos esdrúxulos que compõem uma das histórias esportivas mais midiáticas do País e do mundo. Dessa forma a dupla realiza uma obra que reflete tamanhos absurdos através de algumas boas (ainda que inconstantes) decisões narrativas.

A biografia cômica/dramática de Tonya Harding (Margot Robbie) – uma das mais importantes patinadoras de gelo dos Estados Unidos – busca a irreverência como diferencial narrativo a fim de sair do formato clássico desse subgênero no cinema. Para isso, Gillespie e Rogers trabalham com o formato de falso documentário. Essa caracterização dá um aspecto documental curioso à história que, de tão estranha, beira o cômico. Mas a irreverência vem por outro elemento: a autoconsciência.

Eu,Tonya

Eu,Tonya entretém com muitos méritos e poucos deslizes

Os personagens estão cientes de que estão num filme, constantemente quebrando a quarta barreira, em diálogos e opiniões ditas diretamente ao espectador, ou pleno entendimento do desenrolar da trama. Há, por exemplo, intercalações entre as afirmações pessoais e os fatos conhecidos que criam momentos cômicos, interessantes, principalmente, dotam os personagens de humanidade, seres preocupados com a opinião do espectador, capazes até de mentir. Isso dá vida e dinâmica, além de criar uma relação mais pessoal entre o personagem e o espectador.

Mas durante alguns momentos, essa autoconsciência é utilizada sem cuidado. É o caso de um personagem que aparece após um bom intervalo, apenas para relembrar que está no filme e que tem consciência que seu arco narrativo está perto do fim. Ou quando um momento dramático está em cena e há um corte abrupto para outro personagem que deseja se explicar. Em ambos os casos, que não são os únicos, há quebras rítmicas e/ou emocionais. Assim o recurso perde parte de seu valor não apenas por atrapalhar a dinâmica, mas por mostra-se, por vezes, preguiçoso ao deixar os personagens contarem ao espectador o que estão sentindo.

As performances de Eu, Tonya, por outro lado, mantém qualidade elogiável do primeiro ao último minuto. Margot Robbie e Allison Janney, que interpreta LaVona Golden, a mãe de Tonya, justificam suas indicações às categoriais de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, do 90º Oscar. As atrizes elaboram personagens relacionáveis, às suas devidas proporções, e orgânicos. Acima de tudo, personagens cujas motivações e atitudes são compreensíveis dentro do contexto elaborado. Janney intimida como uma mãe dura e autoritária e, possivelmente, dotada de sentimentos. A personagem consegue surpreender e manter-se curiosa e imprevisível. Enquanto isso, Robbie – cuja maquiagem e customização também destacam-se – realiza a melhor atuação de sua carreira e cativa o espectador em diferentes momentos. Orgulhosa, sonhadora, determinada, agressiva, indiferente, e tantas outras qualidades e emoções são perfeitamente vividas pela atriz que chega como forte candidata ao prêmio.

Parte dos méritos da atuação de Margot Robbie está na montagem e na fotografia que acompanham atriz na pista de gelo. Com a câmera junto à personagem, acompanhando de perto seus movimentos, o filme consegue dar uma dinâmica vigorosa às cenas de patinação, dotando-as de energia. Além disso, há a ótima seleção musical que compõe tanto a atmosfera, como a personalidade de Tonya em diferentes situações.

Em menor escala, mas não menos importantes dentro do filme e, principalmente, dos fatos, os personagens de Jeff Gillooly (Sebastian Stan), marido de Tonya, e Shawn (Paul Walter Hauser), amido e Jeff e autoproclamado guarda-costas de Tonya, mantém a qualidade e colaboram de acordo com a necessidade dos seus papéis. O destaque é Shawn, pessoa excêntrica – afirma com veemência que é um espião condecorado – que funciona como ótimo alívio cômico.

Além da camada biográfica e esportiva de Eu, Tonya, o roteiro de Steven Rogers dá ao filme outro valor. Logo no primeiro arco, ao ser classificada como uma “verdadeira americana”, o filme apresenta mais um discurso acerca do famigerado Sonho Americano. Uma crítica, não muito firme, mas pertinente sobre a promessa quase utópica e a realidade por vezes devastadora que guiam pessoas por caminhos cujos fins, crêem, justificam os meios.

Em meio a toda balburdia de uma carreira marcada por agressões, medos, sonhos, conquistas e frustrações – e preconceito de gênero e de status – Eu, Tonya realiza uma obra com diferentes camadas. Há o entretenimento bem dirigido, apoiado em personagens curiosos e cômicos, além da história absurda. Há um bom filme esportivo, dinâmico e vigoroso. Atuações destacadas, dramas pessoais e uma biografia irreverente. Há metáforas sociais e críticas ao Sonho Americano. No fim, os percalços são detalhes que atrapalham parte da experiência, mas não tiram o grande valor do filme. Eu, Tonya é um bom entretenimento com substância.

 


Data de estreia: 15 de fevereiro de 2018
Título original:
 I, Tonya
Gênero: Biografia, Drama, Comédia
Duração: 2h
Classificação: 14 anos
País: EUA
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Edição: Tatiana S. Riegel
Cinematografia: Nicolas Karakatsanis
Trilha Sonora: Peter Nashel
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Paul Walter Hauser, Julianne Nicholson, Bobby Cannavale, Mckenna Grace

 

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