CRÍTICA | Infiltrado na Klan

by Thiago de Mello

Infiltrado na Klan é, para dizer o mínimo, um estranho fenômeno.

O filme é baseado no livro Black Klansman: Race, Hate, and the Undercover Investigation of a Lifetime de Ron Stallworth que narra uma situação bem singular: nos anos 1970 o próprio Ron Stallworth – o primeiro policial e detetive negro do Departamento de Polícia de Colorado Springs – responde um anúncio no jornal e se infiltra no grupo supremacista Ku Klux Klan fingindo ser um homem branco (obviamente).

Antes de mais nada: Infiltrado na Klan é, em essência, uma comédia! O olhar irônico (somado ao estilo pungente, crítico e desafiador) de Spike Lee enxerga na situação a sua comicidade inata. Isso, porém, não significa que não há momentos dramáticos e tensão desconfortável oriundas do thriller policial, ou melhor, do blaxploitation, que também denota a obra.  Mas é a comédia que se destaca, em diferentes graus e estilos, a depender da situação, conseguindo instigar desde um sorriso sutil nos lábios até uma boa gargalhada. E tudo isso brota do elo que une os personagens: o racismo.

Infiltrado na Klan faz rir, de desconforto, pela curiosidade da situação. E ainda choca com a realidade escancarada

A situação permite elaboração variada da comédia: há Ron Stallworth (John David Washington, em atuação competente) um policial ambicioso numa realidade abertamente racista – uma ironia bem explorada em diversos momentos, principalmente dentro da força policial. Há, também, Flip Zimmerman (Adam Driver), o policial judeu que se passa por Stallworth nos eventos presenciais da KKK. Embora seja ficcional (não foi revelado que era o policial que se passava por Stallworth, que no livro era identificado apenas como Chuck), Zimmerman é um dos personagens mais humanos da obra, dotado de uma empatia envolvente. Mérito do roteiro de Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee. Zimmerman também protagoniza o humor oriundo do desconforto (ora ameaçador, ora bobo) da situação. E ainda há o “pastelão” com parte dos membros da KKK, como com o bufão Ivanhoe (Paul Walter Hauser) ou o casamento de Felix e Connie Kendrickson (Jasper Pääkkönen e Ashlie Atkinson, respectivamente), o casal apaixonado que troca juras de amor enquanto planejam atos terroristas e ataques raciais. O humor vem do desconforto, do absurdo.

É através de um humor ácido, pautado no preconceito e sua “lógica” incongruente, que Infiltrado no Klan reflete a realidade de ontem e de hoje, destacando como o discurso supremacista mantém-se firme e, de forma inacreditável, orgulhosamente descarado. A fragilidade desse discurso é exemplificada no curioso prólogo. O Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin) explica por que os negros são inferiores e como os arianos merecem a terra (no caso, os EUA). Ao longo do falatório, erros de bastidores, imprecisões diversas e falácias determinam o quão errado estão as palavras. As imagens projetadas ao fundo tomam o plano do doutor e elaboram imagens carregadas de estilo e ódio. Essas projeções de cinema, porém, não dão apenas charme, mas também evidenciam outro tema que será abordado: o cinema como comunicação.

Um dos filmes mais importantes da história do cinema é O Nascimento de Uma Nação, de D.W. Griffith, de 1915. O filme é conhecido por mudar a linguagem cinematográfica ao compilar técnicas já existentes e também desenvolver diferentes formas de composição visual/narrativa. É, sem sombra de dúvidas, uma obra-prima incontestável. É, também, incontestavelmente racista e responsável por uma das cenas mais vis da história da sétima arte: o suicídio de uma dama sulista que estava preste a ser tocada por um negro. Spike Lee utiliza a obra de Griffith como determinante na estrutura racial dos Estados Unidos, destacando como é a imagem do negro pelos olhos do preconceito. Mas não é apenas essa obra que surge em meio ao posicionamento (embora ela seja a protagonista). Até mesmo filmes como Super Fly, de Gordon Parks Jr., de 1972, um marco do Blaxploitation (sub-gênero dissidente da Nova Hollywood que dá destaque à personagens e temática negras) são abordados como influenciadores na imagem negativa que permeia o consciente coletivo dos Estados Unidos. Infiltrado no Klan possui uma autoconsciência cinematográfica que permite a utilização da metalinguagem de forma orgânica. E ainda permite que o trabalho de câmera e montagem explorem possibilidades visuais de maneira natural. As divisões dinâmicas da tela (lado a lado e diagonais) em diferentes diálogos e situações, opondo perspectivas e personagens conflitantes, fortalecem a linguagem e a mensagem da obra.  Ao utilizar o cinema para falar de cinema/realidade, Lee prepara um terreno segura para utilizar diferentes técnicas sem deixá-las como mera perfumaria.

Ademais, toda parte técnica recria muito bem a época. Granulação no filme, paleta de cores retro e uma (ótima) trilha sonora inspirada no blaxploitation elaboram uma realidade pulsante, própria para abrigar a efervescência dos embates étnicos que marcaram a época. Há, ainda, a característica técnica ride along, uma das identidades do cinema de Spike Lee, no arco final que elabora tensão estilosa ao destino de Ron, Laura Harrier (Patrice Dumas, um tanto monotônica, mas eficiente dentro da proposta) e, em geral, dos negros estadunidenses. A técnica, que movimenta a câmera e o objeto em foco (nesse caso, a dupla) pelo cenário, cria sensação de urgência inevitável, como se fossem tragados para a realidade opressora do mundo de fora.

O ride along, tal como os demais detalhes técnicos e narrativos, fortalece a conclusão dolorosa e revoltante. No cinema em que assisti, um silêncio reflexivo (assim me pareceu) tomou conta da sessão após o seu término. Em parte porque as imagens (e tudo que elas representam) chocam e machucam. Mas também por que após cerca de 2h15 minutos de comédia ácida, não estávamos preparados para lidar com a realidade sem o atenuante do humor.

Lee traça um paralelo entre o tempo da obra e os dias atuais de maneira agressiva (uma qualificação dura, mas verdadeira). Já havia um alerta disso na conclusão “alegre” do arco de Ron. O repentino fim às comemorações do grupo que infiltrou na KKK indicam como a realidade funciona. Lee ainda dá uma alegria final ao espectador ao criar um diálogo conclusivo entre Ron e David Duke (líder da KKK, que assinou pessoalmente a carteira de membro de Stallsworth e que também elogiou a visão do presidente eleito Jair Bolsonaro) que é catártico em sua sinceridade. É bem verdade que a conversa final nunca aconteceu, mas funciona bem como catarse pessoal, como desabafo. De certa forma, um último alívio antes do que se segue. A conclusão, que escancara que apesar dos esforços individuais, o sistema mantém a segregação em alta.

Infiltrado no Klan é uma comédia, realmente. Provavelmente te fará rir, mesmo que de desconforto, até o minuto final quando o universo ficcional se encerra abruptamente ao deferir um doloroso soco de realidade, sem parcimônia, em toda sua monstruosidade. Toda a comédia antecedente parece ter sido desenvolvida unicamente para amplificar ainda mais a potência indigesta da última sequência. Trata-se do Spike Lee em sarcasmo magistral. Talvez essa seja a grande piada do filme.

 


 

 

Data de estreia: 22 de novembro
Título Original: BlacKkKlansman
Gênero: Comédia, Biografia, Thriller Policial, Blaxplotation
Duração: 2h15
Classificação: 14 anos
País: Estados Unidos
Direção: Spike Lee
Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee, baseado em livro de Ron Stallworth
Edição: Barry Alexander Brown
Cinematografia: Chayse Irvin
Música: Terence Blanchard
Elenco:  John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Jasper Pääkkönen, Paul Walter Hauser, Ashlie Atkinson, Isiah Whitlock Jr., Robert John Burke, Brian Tarantina, Michael Buscemi, Corey Hawkins, Ryan Eggold

 

0 comment

Leia também

Esse site usa cookies para melhorar a sua experiência. OK