CRÍTICA | Jogos Mortais: Jigsaw

by Thiago de Mello

Jogos Mortais: Jigsaw deixa duas coisas bem claras ao final da sessão. A primeira é a preocupação em dispor para os fãs todos os elementos que caracterizam a franquia. Aparelhos mortais, sadismo, tortura física e psicológica, vingança, reviravoltas, sangue, John Kramer/Jigsaw (Tobin Bell) e plot twist. Está tudo ali, de uma maneira ou de outra, seguindo à risca a própria formula. A segunda é a preguiça. Embora estejam burocraticamente alocados ao longo do filme, tais elementos estão interligados por um farrapo narrativo incoerente cuja única função é disponibilizá-los.

Não é equivocado afirmar que Jogos Mortais: Jigsaw não se sustenta pelo enredo, mas pelas características já estabelecidas nos filmes anteriores. Com isso em mente, o roteiro de Pete Goldfinger e Josh Stolberg está mais preocupado em alocar fan services e do que justificar coerentemente a presença de Jigsaw e seus aparelhos.

Se no primeiro filme, lançado em 2004, havia alguma certa mensagem otimista por trás das estrambólicas mortes, nos filmes subsequentes, o torture porn tornou-se o guia único. A “mensagem” de outrora passou a ser uma sugestão, uma desculpa para justificar a necessidade de sadismo de John Kramer. Mas agora, no oitavo filme da popular franquia, nem mensagem há. A violência vem como único valor. E mesmo assim, ainda deixa a desejar.

A trama é burocraticamente funcional: corpos dilacerados começam a surgir pela cidade, sugerindo que após uma década de sua morte, John Kramer retornou e reiniciou os jogos.

Jigsaw

Jogos Mortais: Jigsaw não oferece nada além de fan services e Tobin Bell

Jogos Mortais: Jigsaw não parece disposto – ou capaz – a ser terror ou filme de investigação. Não há atmosfera técnica e/ou narrativa. Câmera, paleta de cores, trilha sonora, montagem, etc, tudo prioriza o convencional e deixa a entender que para ser terror, basta criar e filmar corpos lacerados. E nem isso faz adequadamente já que a violência gráfica foge dos momentos determinantes.

A direção dos irmãos Michael e Peter Spierig não consegue ultrapassar a barreira da sugestão. Nos momentos de violência, a câmera gasta poucos segundos. Já nos cadáveres mais agredidos, a câmera passa até mais tempo, porém apenas se a morte foi “menos” agressiva. E naqueles corpos ainda mais judiados, o foco funciona como distração para “mostrar sem mostrar”.

Quanto ao tom investigativo, Jogos Mortais: Jigsaw também peca ao desenvolver a dúvida e atiçar o interesse do espectador graças à fragilidade do roteiro, principalmente por conta personagens unidimensionais e descartáveis. Os atores e atrizes que distribuem-se em tela dão aos seus respectivos personagens apenas a qualidade cênica que o roteiro permite. Os personagens – caricaturas de corrupção, egoísmo, ganância e etc – pouco interessam. As vítimas dos jogos, por exemplo, têm participação cronometrada. Basta assistir um filme da franquia que é possível antever o destino de cada. Assim, não há aflição, senso de ameaça ou algo de dê ao público um motivo para se importar com qualquer um deles.

(Aliás, é um ponto a ser debatido. Num momento de efervescência social, de ânimos tão acirrados, Jogos Mortais vem como um deleite para a vontade de vingança. No filme, as vítimas fazem parte do universo binário de Kramer. Tudo é “certo contra o errado”, “bem contra o mal”. Não há tons de cinza, não há meio termo. Criam-se personagens odiáveis para matá-los em tela, com direito a torturas físicas e psicológicas, numa gana de saciação sádica. A vingança em sua melhor forma. Uma ode ao justiceiro. Kramer é júri, juiz e executor aplaudido e, direta ou indiretamente, venerado.)

A exceção é John Kramer, não pelo roteiro, já que a justificativa para recolocar o personagem no filme é tão preguiçosa quanto esdrúxula, mas por Tobin Bell. O ator replica o que fazia nos filmes anteriores, porém consegue fazê-lo com estilo cativante. A fala, os gestos e os olhares do ator dão uma imagem tanto frágil quanto firme ao personagem, dotando-o de uma presença implacável. Após tantos filmes, Bell conseguiu atingir níveis de associação natural ao personagem, tal como fez Robert Englund com Freddy Krueger (franquia A Hora do Pesadelo) ou Doug Bradley com Pinhead (franquia Hellraiser). Se o filme não se sustenta pelas próprias pernas, Bell pelo menos dá uma força.

Porém, o ator não possui a quantidade de tempo necessário para mascarar o roteiro inverossímil, nada coerente e sem coesão. Para o espectador mais atento, é possível adiantar praticamente todas as viradas narrativas. Quem vai morrer, quando, quem está por trás e por aí vai. Apenas uma peripécia pode surpreender, mas não de uma maneira positiva. O principal plot twsit vem de uma saída que, fazendo uma alusão à ideia de jogos, parece roubar para poder ganhar do espectador. Além, claro, de criar abertura para uma nova série de filmes.

Jogos Mortais: Jigsaw estreia em 30 de novembro.

 


Título original: Jigsaw
Gênero: Terror, Investigação
Duração: 1h32
Classificação: 18 anos
País: EUA
Direção: Michael e Peter Spierig
Roteiro: Pete Goldfinger e Josh Stolberg
Edição: Kevin Greutert
Cinematografia: Ben Nott
Trilha Sonora: Charlie Clouser

Elenco:
 Tobin Bell, Matt Passmore, Callum Keith Rennie, Hannah Emily Anderson, Clé Bennett, Laura Vandervoort, Paul Braunstein, Mandela Van Peebles, Brittany Allen, Josiah Black

 

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