CRÍTICA | Kardec

by Thiago de Mello

Parte considerável da minha criação foi sob as influências do espiritismo. Quando criança, cheguei a fazer curso no Centro Espírita de Brasília, aos domingos. Uma espécie de catequização. E quando adulto também. Durante um longo período eu realizei o Culto em Casa, fiz cursos da Comunhão, li livros, rezei e cri nos ensinamentos com bastante convicção. Mas por vicissitudes ando me distanciando da doutrina. Mas embora hoje eu esteja longe de todo esse mundo, ainda assim fui assistir Kardec curioso pois, apesar de tudo, a figura do codificador foi parte determinante na minha vida.

Enquanto espectador “espírita”, o que assisti na grande tela foi uma tradução literal da imagem icônica dos livros para o cinema. O forte apreço pelo método científico, o ceticismo no início, a inteligência vasta, a dedicação à educação, a convicção e as consequências da codificação espírita. Tudo tal como eu li e ouvi, sem tirar nem por. Kardec dá som e movimento ao retrato icônico que pende nas paredes de tantos Centros e lares espíritas.

Mas isso não é tão satisfatório como se pode imaginar. A biografia roteirizada por L.G. Bayão e Wagner de Assis – que também dirige a obra –não oferece nada além do símbolo conhecido. Embora seja baseado no livro Kardec – A Biografia, de Marcel Souto Maior, a impressão é que a fonte é algo bem mais genérico, como a Wikipédia. A proposta, aparentemente, é apenas manter simbolismo da figura, e enaltecê-la enquanto ícone ao Inês de focar no “homem” em si. Então é bem fácil antecipar, por exemplo, que a obra não entraria nos aspectos do racismo ou do eurocentrismo de Allan Kardec, por exemplo.

Kardec
Não há interesse no homem Hippolyte Rivail, apenas no símbolo Allan Kardec

Já enquanto cinema, a direção de Assis segue a cartilha da “biografia religiosa”, sendo um tanto maçante quanto ao tema e burocrática na narrativa. Por vezes até um pouco exagerada, como na introdução do personagem. Ainda que o design de produção faça bom trabalho em recriar Paris do século 19 (o filme inicia em 1892), com ambientes e figurinos eficientes no imaginário da pompa da época, a direção prejudica parte desses valores com um uso pouco criterioso de luz e sombras. A fumaça que preenche os lugares como salas de aula ou os aposentos de Kardec funcionam para sugerir um ambiente “místico”. E se você acha que essa palavra não é correta, a forma com que Allan Kardec desaparece na frente dos olhos dos alunos, para reaparecer atrás deles, sugere essa característica. E também funcionaria o uso da palavra “mágico”. Nessa introdução, o roteiro coloca todas as facetas de Kardec de uma vez, numa pressa desnecessária. Um educador rígido, mas apaixonado, irreverente, desafiador, engraçado e sentimental. Aliás, a cena onde ele joga os livros para cima parece um aceno ao John Keating do saudoso Robin Williams, em A Sociedade dos Poetas Mortos (de Peter Weir, 1989) pela irreverência apaixonante, mas o resultado final se assemelha mais à paródia do Professor Whitman do talentoso John Michael Higgins no episódio Introduction to Film da série de comédia Community – episódio, aliás, dirigido por Anthony Russo, o diretor de um filme pouco falado chamado Vingadores: Ultimato. A partir disso, sobra pouco para discorrer sobre a personalidade que é resumida a tal ponto que não há novidades durante todo o resto do filme, ainda que um fato ou outro (como o fenômeno das mesas girantes) dê breves, mas escassos momentos de curiosidade. Enquanto isso a narrativa se desenvolve de maneira formulaica, o que não é um demérito, mas que pouco faz para manter a atenção. E quando tenta, opta por escolhas equivocadas, como, por exemplo, a presença da dupla de homens de preto que seguem, vez ou outra, Kardec pela cidade. O mistério envolvendo eles não possui substância narrativa e quando finalmente descobri o que querem, a primeira pergunta que me veio à mente foi: “tá, mas precisava disso?”. A resposta é “não”, caso queira saber. Sem contar as repetições desnecessárias que surgem segundos após algo que acabou de ser mostrado, como a sequência posterior ao suicídio de um soldado. A reutilização de uma imagem que ainda estava fresca na minha cabeça só consegue me dizer que a ideia não é contar algo, mas reafirmar o que já se sabe. Aliás, como uma sequência sobre um suicídio pode ser tão insípida ao ponto de não causar qualquer forma ou grau de aflição? Foi a partir dela que notei que embora Leonardo Medeiros, que interpreta Allan Kardec, esteja bem pela semelhança, o ator pouco conseguia ir além de recriações automáticas de sentimentos rasos. Mas entendo que o roteiro também não o ajudou nisso já que jamais vemos um homem, mas apenas o símbolo em tela.

É curioso notar como alguns pequenos detalhes podem prejudicar os méritos de outras partes da estrutura narrativa. Não digo nem os efeitos digitais que, boa parte das vezes, cumprem a função – embora o plano aberto do Arco do Triunfo seja perceptivelmente falso. Como disse, a recriação de época é bem eficiente, mas a atmosfera sempre se enfraquecia para mim quando alguns atores e atrizes não conseguiam (tampouco pareciam se esforçar, e o diretor menos ainda) mascarar o sotaque carioca. Havia uma quebra instantânea da imersão ao notar todos aqueles ‘ésses’ nos diálogos pomposos (e expositivos). E o resultado foi um humor acidental – “eles devem ser da parte fluminense da França”, eu pensava e ria. Além disso, alguns momentos da montagem me chamavam a atenção não pela fluidez, mas pela falta dela ao justapor sequências onde o posicionamento individual dos personagens sofria pequenas alterações de um corte para o outro. No começo eu apenas percebia que havia algo errado. Depois reparei que na mudança de planos, aquela cabeça que estava inclinada para a direita, já está olhando para baixo, por exemplo.

Ainda assim, em alguns momentos, o Kardec parece estar em sintonia com os tempos atuais ao criticar diretamente a ideia de doutrinação religiosa obrigatória nas escolas e o preconceito deplorável da perspectiva única – nesse caso, da igreja católica – que não permite pensamentos fora da normatividade regente. Ainda que não seja o foco do filme, é gratificante vê-lo tomando essa postura, seja ela proposital ou não.

Kardec não me parece um filme feito para aqueles que gostam de cinema, mas apenas como reafirmação do que já se sabe. Um filme direcionado aos espíritas que provavelmente sairão muito satisfeitos em ver o retrato do codificador de outra maneira: agora ele se mexe e fala.


Data de estreia: 16 de maio
Gênero: Biografia
Duração: 1h50
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Direção: Wagner de Assis
Roteiro: L. G. Bayão, Wagner de Assis
Cinematografia: Nonato Estrela
Música: Trevor Gureckis
Elenco: Leonardo Medeiros, Sandra Corveloni, Dalton Vigh, Julia Konrad, Genésio de Barros, Júlia Svacinna, Letícia Braga, Guida Vianna

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