CRÍTICA | Lucky

by Thiago de Mello

É emocionante falar e escrever sobre Lucky, fazer o exercício de refletir e revisitar mentalmente a obra. Aliás, revisitar talvez não seja a palavra correta. Assim que a última cena se encerra, complementando perfeitamente a rima poética e metafórica iniciada na abertura, o filme não sai mais da cabeça. Não se revisita Lucky. Não. Acostuma-se com ele.

De diferentes maneiras, Lucky surpreende. Desde as pequenas curiosidades (é a estreia do ator John Carroll Lynch na direção e o primeiro roteiro da dupla Logan Sparks e Drago Sumonja) até as tristes coincidências: Harry Dean Stanton, o personagem-título, faleceu, pacificamente, poucos meses antes da estreia do filme. Aliás, eu soube disso apenas após assistir Lucky. Isso deu ainda mais valor sentimental à experiência.

Essas informações não são elementos determinantes da crítica. Porém, sinto-me compelido a citá-las. De alguma maneira, elas não parecem acaso, mas algo calculado. Não são, fato, mas aparentam ser graças à magnitude de Lucky. Enfim, vamos ao filme.

É complicado resumi-lo. Não por entregar algum spoiler (é um filme que não tem nenhum), mas pela ingrata tarefa de sintetizá-lo em poucas frases e palavras. Assim como é o filme, serei direto: Lucky é sobre a contemplação de um homem que vislumbra o fim de sua existência.

Lucky

Lucky é simples, direto e grandioso. Cinema de excelência!

Posso dizer que não há nada além disso no filme e não estaria errado. Porém, isso também não me faria certo. Lucky expande os limites da temática e consegue realizar uma obra sobre o nada, que acaba sendo sobre tudo. Veja, não estou tentando ser poético. Essa é “apenas” outra síntese da obra de John Carroll Lynch. Mas o filme não fica apenas no conflito existencial. Acima de tudo, Lucky é uma ode à vida.

É prazeroso notar que Lucky atinge proporção tão grandiosa através da variedade de pequenos detalhes distribuídos cuidadosamente ao longo da trama e cenário, tal como os pequenos gestos do personagem. Coisas como um copo de leite na geladeira, os exercícios matinais entre as tragadas do cigarro, as palavras cruzadas, os comentários e olhares que troca com os amigos e demais pessoas de seu convívio cotidiano, por exemplo. Elementos pequenos que, aos poucos, unem-se em grandiosidade própria para elaborar o personagem de maneira objetiva, prezando pela qualidade narrativa que só o cinema permite, eliminando exposições fáceis e verbais ou didatismos desnecessários.

De todas as peças, talvez a mais significativa seja o dicionário aberto num suporte. Ali, resume-se parte considerável sobre quem é Lucky. O móvel que escora o livro é comumente utilizado para sustentar as bíblias de lares religiosos. Lucky, porém, utiliza-o para seu dicionário. Sem ostentação, sem ritualismo, apenas para si. A demonstração da mentalidade de Lucky (e a sua crença, ou falta dela) apenas num detalhe – dentre tantos outros. Portanto, quando um mal estar súbito acomete o personagem, a reflexão que Lucky fará acerca de sua morte toma um rumo já indicado pelo dicionário que ocupa o lugar da bíblia.

A direção de John Carroll Lynch é cirúrgica. As sequências alongadas determinam o ritmo ideal para a jornada espiritual (“isso não existe”, diria Lucky) do protagonista. Embora lento, a narrativa jamais fica enfadonha. Primeiro pela curta duração (1h28). Tempo suficiente para discorrer com elegância sobre tudo (ou nada). Segundo, pela dinâmica oriunda da montagem compassada e, principalmente, da atuação emocionante carismática de Harry Dean Stanton. O ator desenvolve um trabalho louvável. Lucky, com seus 90 anos, cigarro e palavras cruzadas, esbanja carisma natural, tão forte quanto sua personalidade, e uma força autêntica, mesmo diante a fragilidade aparente da sua idade. Há uma humanidade tão orgânica no personagem que conquista com naturalidade ímpar. E ao final da obra, Harry Dean Stanton parece antever seu futuro e realiza uma despedida simples e impactante, tão bonita e alegre, tão otimista mesmo diante o nada.

Os personagens coadjuvantes são fundamentais nesse desenvolvimento. Cada contribuição, cada fala, ato e gesto, soma à elaboração de Lucky, que absorve experiências e perspectivas alheias para encontrar direcionamento na própria contemplação existencial. Dentre um elenco digno da qualidade do filme, tanto pela atuação quanto pelos personagens, o destaque é o melhor amigo de Lucky, Howard (ninguém menos que David Lynch, amigo de Harry Dean Stanton, tendo inclusive, escalado o ator em algumas de suas obras). Howard proporciona debates que parecem aleatórios ou apenas cômicos (aliás, a subjacente comédia consegue causar despercebidos sorrisos na boca do espectador). Mas são desses diálogos que o filme elabora suas melhores metáforas narrativas e visuais. E, quem diria, tudo por causa de um cágado.

Poderia perder-me falando sobre a trilha sonora (fundamental para contribuir com a elaboração do personagem, criando até um motif apenas para quebrá-lo no fim, sugerindo a mudança sentimental de Lucky), da fotografia quente e ampla (características de sua mentalidade), do passado de Lucky e sua significância no presente, e mais e mais. Mas sinto que não colaboraria com o filme. Posso digitar por incontáveis caracteres, palavras, sentenças e parágrafos. Mas após assistir tamanha fluência para falar sobre o nada, sinto que jamais atingirei a objetiva eloquência suficiente para falar sobre o filme. Lucky é uma pequena grande obra. Não só um filme, mas uma homenagem à vida. Uma despedida emocionante. Algo para pensar e se acostumar.

Lucky estreia em 7 de dezembro.

 


 

Título original: Lucky
Gênero: Drama
Duração: 1h28
Classificação: 12 anos
País: EUA
Direção: John Carroll Lynch
Roteiro: Logan Sparks, Drago Sumonja
Edição: Robert Gajic
Cinematografia: Tim Suhrstedt
Trilha Sonora: Elvis Kuehn
Elenco:
 Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston, Ed Begley Jr., Tom Skerritt, Beth Grant, James Darren

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