CRÍTICA | Ma

by Thiago de Mello

Ainda que tenha conseguido me deixar tenso e engajado ao longo de boa parte da narrativa, creio que o grande mérito do suspense/terror Ma surge graças à qualidade da ótima Octavia Spencer. Ma é o típico filme que pode servir como exemplo de como a atuação é capaz de sustentar e até elevar o restante de uma obra fraca ou medíocre. Não estou dizendo, porém, que Ma seja realmente fraco pois, como eu disse, foi hábil em criar tensão. Mas ao analisar algumas decisões do roteiro de Scotty Landes, é possível notar que ela não é tão densa quanto tenta ser.

Em suma, Ma é sobre as graves consequências do bullying, capazes de perdurarem para sempre na vida das suas vítimas, manifestando-se de formas diversas, implícitas ou explícitas, com reverberações capazes de atormentar até mesmo gerações inocentes e alheias ao seu acontecimento. E isso é muito bem representado pela atriz – que, aliás, me agradou muito também por aceitar um papel tão incomum a sua carreira determinada pelo olhar estereotipado (perdão pelo eufemismo) da grande Hollywood.

Ann Sue (Spencer) surge aleatoriamente. Um (in)feliz acaso na vida da recém chegada Maggie (Diana Silvers) e dos outros adolescentes entediados da pacata cidade que tentam encontrar um adulto disposto a comprar bebidas alcoólicas para que eles possam se embebedar e curtir. Ann Sue não apenas aceita comprar as bebidas como, pouco tempo depois, oferece o porão de sua casa isolada como um porto seguro para que os jovens possam se divertir sem medo de serem flagrados pela polícia. E não apenas isso, ela também se une ao grupo e vira o centro das festas lotadas que promove, se divertindo com eles e amando a popularidade e a atenção. Suas duas únicas regras são: não vomitar no chão e não subir às escadas que dão acesso a casa.

Ma
Octavia Spencer tira o filme da mediocridade através de uma personagem dúbia

É a ternura inicial que chama atenção para Ann Sue. Ela se simpatiza (ao lembrar como também já foi adolescente) com os jovens. E os ajuda, mas também determina regras sobre beber e dirigir, por exemplo, demonstrando uma preocupação genuína. Mas nas entrelinhas dessa ternura, há uma dúvida: o que a motiva para manter essa relação? É fácil perceber que a resposta está no seu passado. Então a dúvida é ampliada: o que houve no seu passado?

A direção de Tate Taylor (que já havia trabalhado com Spencer no ótimo Histórias Cruzadas) conduz a narrativa mantendo esse mistério durante os dois primeiros atos. As revelações sobre o que aconteceu com Ann Sue são mostradas aos poucos, através de flashbacks, sugerindo que houve um trauma sem revelá-lo. E é essa dúvida que mantém Ma instigante. Mas não apenas a dúvida, como a protagonista. Spencer conseguiu me confundir em vários momentos graças a um trabalho aparentemente simples, mas bastante meticuloso (mas isso quase se perde após uma pequena olhada para o lado que Ann Sue dá, que muito fragiliza a dúvida). Há uma cena, durante e após a primeira grande festa que promove que foi capaz de me confundir sobre o que queria Ann Sue. Após um susto eficiente (ainda que um pouco gratuito na forma), é normal imaginar que tudo que a personagem faz é apenas parte de um plano maléfico. Mas forma como ela olha para os adolescentes se divertindo (e o claro prazer que ela sente ao ser bem tratada, principalmente após a vermos sendo menosprezada no trabalho por uma chefe abusiva – já já eu retorno à essa personagem) demonstra um carinho nostálgico e verdadeiro. O olhar caloroso de Octavia Spencer, umedecido por lágrimas contidas, e o sorriso singelo enfraquecem a certeza acerca das suas motivações. Talvez nem tudo seja parte de um plano. Talvez ela não seja má. Aliás, é na primeira festa que ela recebe o apelido carinhoso de Ma – que é uma forma de dizer “mãe”, dada pelo único integrante negro do grupo, muito característico às mães negras. Um pequeno comentário sarcástico sobre racismo que posteriormente recebe um complemento que o amplifica.

A condução do mistério sobre o passado e a dubiedade com que Spencer constrói sua personagem, alternando ou mesclando confiança e desconfiança, carinho e ameaça, amizade e hostilidade, etc, são os elementos que mantém Ma um suspenseintrigante durante os dois primeiros atos. Mas além deles, a superficialidade dos demais elementos prejudicaram parte do meu envolvimento. Através de personagens maniqueístas, principalmente a chefe de Ann Sue, doutora Brooks (Allison Janney), Mercedes (Missi Pyle) e Ben (Luke Evans). Suas funções são arquétipos monotemáticos da mesma coisa: todos são malvados. Só. Essa construção elimina uma possível complexidade que Ma poderia discorrer muito bem caso não utilizasse figuras tão rasas, demonstrando meras pessoas ruins como se o ser humano fosse apenas uma única qualidade. Se o tema da obra busca abordar as consequências do bullying, esse reducionismo não favorece a discussão já que o assunto em si é bastante complexo. Ainda que não invalide a mensagem final (extremamente importante), ele apenas raspa na sua superfície. Além disso, é uma pena possuir um elenco tão promissor e versátil e colocá-lo como meros figurantes de luxo (aliás, Allison Janey há pouco ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Eu, Tonya ao criar uma personagem extremamente complexa que também praticava, de certa forma, bullying. Que triste ironia…). Apenas Erica (Juliette Lewis), mãe de Maggie, consegue maior relevância e um pouco mais de desenvolvimento, muito bem representado pela atriz. Além disso, o filme se ancora muito na ignorância inconsequente dos adolescentes para manter o desenvolvimento da narrativa. São sinais claros de perigo – que eles inclusive percebem – ignorados convenientemente.

Já no terceiro ato, após a revelação, o suspense vira terror. Há algumas boas cenas, mas nada que eleva mais a obra, que termina de forma um tanto morosa. A força, aí, reside no valor da mensagem, em como as consequências para o bullying perduram, moldam e reverberam (o casamento fracassado de Ann Sue e a relação com sua filha fortalece esse reflexo cruel). Ainda que force uma relação complicada de Ann Sue para com Ben, a conclusão de Ma parece querer fazer uma poesia que foca apenas na beleza das rimas, mas esquece o valor dos sentimentos.


Data de estreia: 30 de maio

Título Original: Ma
Gênero: Suspense,Terror
Duração: 1h39
Classificação: 16 anos
País: Estados Unidos
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Scotty Landes
Edição: Lucy Donaldson, Jin Lee
Cinematografia: Christina Voros
Música: Gregory Tripi            
Elenco: Octavia Spencer, Diana Silvers, Juliette Lewis, McKaley Miller, Corey Fogelmanis, Gianni Paolo, Dante Brown, Tanyell Waivers, Luke Evans, Missi Pyle, Allison Janney

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