CRÍTICA | mãe!

by Thiago de Mello

A exclamação em mãe! é um detalhe interessante. Quem é familiarizado com a carreira cinematográfica de Darren Aronofsky sabe que ele não pontuaria o título com uma unidade de sentido tão pungente por mero floreio. Portanto, essa exclamação está dotada de algum valor semântico. E parece ser a partir dela que mãe! inicia a ousada jornada subjetiva e alegórica que certamente afetará espectador de alguma forma.

A mãe (Lawrence) é singela e satisfeita. Veste uma roupa branca confortável e confortante, impecável. Mora com o marido (Javier Bardem) que ama, e se dedica a cuidar da casa onde moram tendo, inclusive, reconstruído-a após um incêndio. Aos poucos, a enorme morada ganha vida, sendo dedicadamente trabalhada pela mãe que deseja apenas criar um lar confortável para que Ele possa escrever e ambos viverem juntos, sós e felizes. Tudo isso começa a mudar com a chegada de dois estranhos, um homem (Ed Harris) e uma mulher (Michelle Pfeiffer).

Desde a primeira cena, mãe! demonstra forte desejo de causar incômodo no público, tirando-o do conforto da poltrona e inserindo-o na casa grandiosa, aconchegante e, ao mesmo tempo, misteriosa e opressiva. Com esse intuito, Aronofsky utiliza diferentes linguagens narrativas para criar uma obra imersiva e atmosférica. E o alicerce desse objetivo é Jennifer Lawrence.

É através da mãe que Aronofsky estabelece o envolvimento emocional com o espectador. Quando ela acorda, observa-se alguma forma de dúvida, de confusão pairar sobre ela. Mais distante, a câmera a acompanha enquanto ela explora a casa em busca do marido. Parece descobrir aos poucos onde mora, ambientar-se, até encontrá-lo. Mas a partir do momento em que chegam o homem e a mulher, Aronofsky inicia o dedicado trabalho de imersão e envolvimento emocional.

Mãe! causará impacto em quem assistir. Bom ou ruim, mas causará e será forte!

Com a chegada do casal, a mãe passa a ser enquadrada por um primeiríssimo plano que realiza diferentes formas de conexão e sugestão ao público. A câmera fortalece a grandeza da mãe ao mesmo tempo em que enclausura-a, resultando numa forte sensação de claustrofobia que dilata-se com o tempo. A candura de Lawrence também é valorizada, algo que vai além da mera exploração da beleza da atriz, possuindo significado narrativo, principalmente no arco final. Mas o primeiríssimo plano funciona, acima de tudo, para isolar a personagem do ambiente onde está, limitando a visão do espectador sobre o que está acontecendo ao redor. Dessa forma, a dúvida que assola a mãe ganha atmosfera sufocante e instigadora. Tal como a personagem, o publico está completamente confuso com o que está acontecendo. E assim permanece por quase todo filme.

As atuações têm grande mérito na construção da dúvida. Com o rosto em constante e forte evidência, Lawrence realiza bom trabalho, até um pouco acima da média de suas atuações – inclusive daquelas que lhe renderam prêmios. Porém, ao dividir cenas com nome de peso como Bardem, Pfeiffer e Harris, a atriz acaba ofuscada. Ainda assim, contribui positivamente para o desenvolvimento da trama.

A narrativa também trabalha para encorpar o mistério que preenche a obra. O roteiro de Aronofsky não entrega nada fácil ou mastigado ao espectador, deixando pra ele a responsabilidade de montar o quebra-cabeça audiovisual e metafórico disposto na tela. A fim de dar grandiosidade ao clímax (e justificar a exclamação do título), Aronofsky opta por uma narrativa lenta e envolvente, ancorada na experiência sensorial.

A edição e mixagem de som de mãe! recebe um papel de grande destaque. Os ruídos da casa, que reage às diferentes ações, ecoam por segundos e são favorecidos pela trilha sonora esparsa e pontual. Eles ressonam e ecoam para criar um envolvimento sonoro que desenvolve uma atmosfera realista (mesmo dentro de uma metáfora) envolvente, que abraça o espectador e coloca-o dentro dos amplos e opressores cômodos da casa.

Com o primor técnico que compõe o vigor sensorial de mãe!, Aronofsky aproveita para realizar seu trabalho mais ousado, subjetivo e autoral. E isso diz muito tendo em vista a carreira do diretor. mãe! possui o viés religioso que se espera de Aronofsky, tal como fez em Pi, Noé e Fonte da Vida. Porém, em mãe! a subjetividade do tema ganha novos ares, ainda mais grandiosos.

Desde os primeiros minutos já é possível absorver algumas metáforas mais óbvias – como a mãe afirmando que deseja transformar a casa num “paraíso” –, até outras menos sutis, como o “coração” pulsante da casa, os tons de amarelo ou a figura emblemática do marido. Até mesmo sobre quem é o casal, até o momento onde chegam seus filhos, os irmãos Brian e Domhnall Gleeson. Mesmo assim, mãe! é composto por diferentes alegorias e sugestões, desde detalhes no cenário, nas cores ou nos curiosos diálogos que parecem, paradoxalmente, dizer muito e nada ao mesmo tempo. Aronofsky teve clara liberdade para explorar e construir um subtexto que caberá ao espectador dar sentido – e aí reside um dos grandes valores de mãe!.

Essa mesma liberdade não se limita à mensagem de mãe!, mas também a forma de construção. Se a atual fase de Hollywood gera diversas criticas quanto ao comodismo dos filmes, narrativas burocráticas e histórias repetidas e de pouca significância, Aronofsky vai na contra-mão de tudo e realiza um trabalho completamente autoral, original e pouco ortodoxo. Desde a linguagem, até a forma ancorada no suspense, mãe! envolve o público de tal forma que, com a chegada do terceiro e derradeiro ato, o impacto é cruel e devastador. À sua maneira, Aronofsky desenvolve um terror latente.

Não seria equivocado afirmar que todo o terceiro ato de mãe! é o clímax do filme. A culminância não se limita a um evento, mas a uma sucessão de ocorrências gradativas e exponenciais que resultam num dos momentos mais assustadores e incômodos já dispostos na sétima arte. Todo o filme, cada detalhe narrativo e atmosférico mira no impacto de toda a sequência que envolve o bebê da mãe. O som, duro e seco, a imagem granulada e enegrecida, colorida pela incandescência efervescente de velas ritualísticas, iluminando os personagens vestidos de preto e em êxtase, compondo um chiaroscuro barroco, tão belo quanto assustador. A fotografia, límpida durante os dois primeiros atos, ganhas ares sujos e tensos. A casa outrora grande e aconchegante, torna-se prisional e angustiante.

Os minutos finais de mãe!, para aqueles espectadores que permaneceram até o fim, podem gerar  debate quanto à exposição. Ao mesmo tempo em que os diálogos conflitam com a proposta nada expositiva dos arcos anteriores, eles também encontram respaldo na piedade do personagem de Bardem. Ainda assim, um detalhe que deve ser ofuscado com a conclusão que fecha a rima (ou ciclo) que o filme inicia, numa poesia cinematográfica estonteante.

As bilheterias, notícias e críticas afora estão bastante polarizadas e isso é um reflexo direto da grandiosidade de mãe!. Aronofsky, tenho certeza, sabe o quanto seu novo trabalho é impactante e capaz de dividir as opiniões. Vaiado e ovacionado, mãe! é, acima de tudo, uma experiência sensorial que vai afetar o espectador de alguma forma. Você pode sair da sala do cinema (e esse filme merece a grande tela) irritado ou em êxtase (tal como eu). Porém é impossível sair indiferente. E não é isso que o bom cinema faz?

mãe! estreia em 21 de setembro.

 


 

 

Título original: Mother!
Gênero: Suspense,Terror
Duração: 2h01
Classificação: 16 anos
País: EUA
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Edição: Andrew Weisblum
Cinematografia: Matthew Libatique
Elenco: Andrew Weisblum, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig

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