CRÍTICA | Medo Profundo

by Thiago de Mello

Durante uma mesma sequencia de Medo Profundo, o diretor Johannes Roberts consegue atingir duas situações distintas. A primeira é uma bem-vinda brincadeira com algumas das convenções do subgênero ‘terror de tubarão’. Porém, logo em seguida, Roberts recorre a imprecisões e incoerências narrativas (além de vários erros lógicos) para dar seguimento à trama. Caso houvesse equilíbrio entre esses altos e baixos, talvez o terror conseguisse atingir algum resultado minimamente satisfatório. Mas na quantidade com que essas incoerências acumulam-se, no fim Medo Profundo apenas decepciona.

Iniciado em 1975 com o aterrorizante Tubarão (de Steven Spielberg), esse subgênero possui algumas características que quando bem utilizadas elaboram uma atmosfera envolvente e assustadora. Talvez a principal ferramenta para isso seja a sugestão. Em alto mar, o perigo representado pelo tubarão pode vir súbita e implacavelmente. A imprevisibilidade do ataque, somado à eficiência mortal do animal, completam-se para formar um horror gráfico e/ou sugestivo. Com isso em mente, Johannes Roberts consegue elaborar boas sugestões com a utilização de planos fechados e abertos.

Quando a câmera se aproxima das protagonistas e irmãs Lisa (Mandy Moore) e Kate (Claire Holt), fechando o plano em closes, o extra-campo instiga o espectador que não consegue ver o que há ao redor delas. Quando o plano é aberto, dá-se dimensão ao isolamento do alto mar e da obscura profundidade onde se encontram. Tais mecanismos estão longe de serem novidades, mas conseguem criar alguma aflição nas primeiras vezes em que são utilizados. Além disso, outro valor instigante nasce sempre o diretor adia a aparição do predador, aumentando a expectativa do vindouro ataque. Roberts coloca as personagens em situações de perigo, seja por uma parte do corpo que fica de fora da jaula ou quando elas precisam nadar em busca de algo, e isso ajuda a dar carga de tensão à trama principal. Porém o roteiro expositivo, vazio e incongruente de Johannes Roberts e Ernest Riera não tarda em anular os breves e poucos méritos do filme. A começar pelos personagens.

Medo Profundo

‘Medo Profundo’ até parece interessante, mas rapidamente se mostra falho e enfadonho

A unidimensionalidade caracteriza todos os personagens de Medo Profundo. Vide, por exemplo, as irmãs Lisa e Kate. Em férias no México, Kate gosta de se divertir, enquanto Lisa tentar superar o fim de um relacionamento. Ponto. As personagens não possuem camadas além dessas duas características. Aliás, há uma camada extra. Lisa está nessa viagem para provar ao ex-marido que ela sabe se divertir. Imagina-se que com um argumento tão leviano o filme trabalharia uma metáfora de auto-aceitação e empoderamento já que a personagem passará por diferentes provações em busca da própria sobrevivência. Mas isso jamais se concretiza e o que resta é uma personagem sem amor próprio e que se define pela sugestão de um homem.

Essa superficialidade não apenas limita a narrativa com diálogos descartáveis e mal alocados (a conversa delas, no fundo do oceano, sobre quem são é ruim tanto no aspecto lógico – elas deveriam economizar oxigênio – quanto na qualidade do texto), como também diminui o apelo emocional entre as protagonistas e o público.

Com exceção de um único momento, tamanha superficialidade permite que o espectador preveja desde as mortes que ocorrerão até o plot twist da trama. Basta ouvir os diálogos expositivos do Capitão Taylor (Matthew Modine) ou do seu ajudante Javier (Chris J. Johnson). Enquanto Javier, em seu primeiro diálogo, indiretamente, evidencia seu destino, o Capitão Taylor, após tomar apenas as piores decisões possíveis para resgatar as mulheres (por que não enviar o tubo de oxigênio com o gancho? A justificativa não convencer simplesmente por que não faz o menor sentido), anuncia aquilo que seria o ápice climático de Medo Profundo.

Somado a isso, o filme abre mão da lógica para desenrolar uma narrativa rasa (trocadilho intencional) e preguiçosa. Repare, por exemplo, que as personagens conversam de baixo d’água por um sistema de comunicação embutido nas máscaras. Primeiramente, não há ruídos no áudio, que soa límpido demais, inverossímil até. Esse erro compromete a credibilidade do roteiro ao mesmo tempo em que deixa de elaborar uma atmosfera sonora que ajudaria a imersão do expectador na proposta do filme. Mas isso é um detalhe diante outro erro ainda maior: os ouvidos delas não estão tampados pelo capacete (!).

Além disso, leis da física do mergulho são ignoradas e/ou modificadas a bel prazer. Não há consequências reais de uma submersão tão abrupta (o nariz de uma personagem sangra após chegar ao fundo. Não fica claro se ela bateu na queda ou foi uma reação natural do corpo quando comprimido pela pressão da água. De qualquer maneira, os tímpanos das personagens deveriam, no mínimo, ter sofridos problemas sérios). Além disso, o tubarão realiza movimentos e ataques que, ouso dizer, são impossíveis (tubarões que, convenientemente, erram e acertam seus ataques).

No terceiro ato, o mais problemático, havia alguma possibilidade de um desfecho até positivo caso o filme não optasse pelo viés melodramático. Caso fosse encerrado alguns minutos antes, Medo Profundo ainda teria chance de terminar com um mínimo de valor pela coragem. Mas a conclusão se alonga mais do que o necessário ao tentar edificar de alguma maneira uma das personagens completamente carente de substância. A união sentimentalista da trilha sonora intrusiva e genérica com a fotografia que tenta reerguer a personagem como uma nova pessoa cria uma conclusão incompatível com o próprio texto, sem qualquer substância que justifique tal resolução.

Diferentemente do bom Águas Rasas, Medo Profundo não sabe o que fazer com seus personagens, humanos ou não. As convenções do gênero até recebem boas sugestões iniciais, mas não conseguem imprimir tensão além dos primeiros minutos. Consequência direta de um roteiro desleixado que jamais busca estabelecer coerência interna ou lógica básica, culminando num apanhado de clichês mal utilizados que se resumem numa experiência decepcionante.

 


 

 

Data de estreia: 8 de Março
Título original: 47 Meters Down
Gênero: Suspense, Terror, Drama
Duração: 1h29
Classificação: 14 anos
País: Reino Unido, República Dominicana, EUA
Direção: Johannes Roberts
Roteiro: Johannes Roberts, Ernest Riera
Edição: Martin Brinkler
Cinematografia: Mark Silk
Trilha Sonora: tomandandy
Elenco: Mandy Moore, Claire Holt, Matthew Modine, Chris Johnson, Santiago Segura

 

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