CRÍTICA + VÍDEO | Midsommar: o mal não espera a noite

by Thiago de Mello

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Crítica com pequenos SPOILERS.

Um dos efeitos mais fascinantes da arte é a emoção estética: o encontro entre ideia e emoção. Um sentimento que ocorre no momento e que pode ser bastante intenso e significativo. A estória é o caminho para a emoção estética, e quanto melhor o uso da linguagem cinematográfica, mais intensa é a emoção. Em Midsommar: o mal não espera a noite, o diretor e roteirista Ari Aster é eloquente ao conduzir uma obra guiada por e mirando esse fenômeno através de um universo diegético vivo e simbolicamente rico. Para isso, logo no prólogo, a pequena cortina bordada em dourado (que conta uma história de luz, prados e harmonia) estabelece a perspectiva da obra, oferecendo viés curioso. O abrir das cortinas indica a perspectiva do narrador que nos conduz. E para ele, a história não é de terror, mas um conto de salvação, o renascimento da protagonista Dani (Florence Pugh).

Sob essa perspectiva, a realidade que a cortina apresenta não é apenas fria, mas também impiedosamente dolorosa, já que a ascensão de Dani não pode ser fácil. Quanto maior o sacrifício, maior o mérito. Cada aspecto da linguagem compõe uma ópera moderna e fabulesca de horror, a fim de dar substância à dor da protagonista. A fotografia de Pawel Pogorzelski estabelece uma paleta cinza lavada e o uso de sombras que envolvem Dani em escuridão. Em alguns momentos, as sombras tapam seus olhos, refletindo o quão perdida e cega está. Em casa, Dani está apavorada com os emails aparentemente suicidas da sua irmã bipolar, e quando busca o conforto do namorado, pelo celular, ele apenas minimiza (no mau sentido) sua preocupação em resposta condescendente. Poucos diálogos depois, Dani demonstra submissão à retórica manipulativa de Christian (Jack Reynor). A mise-en-scène intensifica todo desespero solitário que pressiona Dani. Além disso, o cenário mantém a tônica folclórica que permeia o filme. A decoração simboliza os papéis e os destinos dos personagens dentro da fábula.

Após a apresentação dos personagens, Aster conduz sua ópera de dor através de uma sequência cujo conhecimento causa antecipação enervante. Sem muitos detalhes, a câmera percorre, fria e pacientemente, os quartos da família de Dani, dando ao espectador conhecimento em forma de ironia dramática, culminando num clímax que me fez desabar na cadeira do cinema – e ainda me faz estremecer quando lembro. Uma explosão repentina de dor que surge do celular, ainda que ela fosse esperada. Aster elabora a revelação até seu limite, criando uma carga emocional desesperadoramente dolorosa. Mas é quando a dor entranhada no grito de Dani se funde à tensa trilha sonora e atmosférica do The Haxan Cloak que o sofrimento ganha pulso e substância suficiente para, finalmente, iniciar a jornada de salvação de Dani.

Midsommar
Para Ari Aster, não há horror maior do que o sofrimento

As cores vivas e a claridade sem sombras do isolado vilarejo sueco são diametralmente opostas às penumbras opressoras do mundo da protagonista. Quando Christian, Dani e seus amigos Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren) chegam ao vilarejo, às vésperas de um raro e antigo festival pagão de solstício de verão, são cobertos de luz, flores, músicas e cordialidades idílicas. O soft focus que retrata o local cria uma sensação quase onírica, enquanto as drogas naturais dão tons de fantasia alucinógena (os fundos disformes são envolventes e incômodos). A própria câmera parece flutuar e planar ao adotar movimentos leves que passeiam pela comunidade na brisa do ar, junto com a música das flautas que se repetem em mantra hipnótico. Adotando o seu próprio ponto de vista, a imagem do vilarejo pode ser confundida como uma idealização romântica do Paraíso. Mas o mais interessante é que embora a comunidade seja iluminada por luz constante (a luz do dia tem 22 horas de duração), não há uma única tomada do sol. É através de todos esses detalhes – e tantos outros – que Ari Aster elabora a atmosfera surreal que molda Midsommar.

Por não contar com a falta de luz como elemento do e para o terror, Ari Aster combinou duas formas para elaborar o gênero. A primeira foi a criação de uma sensação mística que ronda – e conduz – cada personagem. A segunda foi o fator explícito, que parece ser um contraponto direto ao poder da sugestão resultante das sombras. Sem as dúvidas macabras que a falta de luz pode sugerir, Aster deu foco à certeza que a luz revela. Assim, Midsommar é um filme que justifica a classificação indicativa de 18 anos com violência explícita e momentos idilicamente grotescos – as oferendas no tempo são tão plácidas quanto inquietantes. Mas até mesmo o cenário se adapta para receber a violência, e o grotesco se justifica. No primeiro sacrifício do festival (não é spoiler: é um festival pagão secular, há sacrifícios), pedras e morros pálidos e o terreno austero e marrom indicam algo que não é bonito como os verdes e cores da vila, mas não deixa de ser natural e, principalmente, indiferente. Uma representação contextual eloquente sobre como a cultura dos Hårga – o nome da comunidade – observa e encara a morte.

Ainda que não haja desconhecimento oriundo da falta de luz, Aster constrói a inquietação pelo desconhecido através da narrativa lenta e misteriosa, como com a escolha de não traduzir em legendas o idioma falado da comunidade. Essa dúvida, fortalecida pelos tons proféticos e as diferenças culturais do local, cria uma inquietação carente de respostas. E as respostas vêm, cada vez mais estranhas, aos poucos, até a revelação catártica e conclusiva.

Até lá, o filme discorre com tal cadência que pode incomodar espectadores afoitos por um terror mais convencional ou comercial. Midsommar busca contar uma história de terror em seus próprios moldes, evitando algumas convenções como a sombra ou um antagonista vilanesco, como uma força do mal irrefreável. Por isso, chega a ser curioso quando, em um dos raros momentos fora da luz, um jump scare (que susto!) toma a tela de repente, numa quebra do senso de espaço e tempo. É um repente tão inesperado, até mesmo pela estrutura da obra, que parece o diretor dizendo: “olha o que dá pra fazer no escuro”. E ele ainda termina a sequência com outra imagem bizarra, mantendo a lógica do filme. Aliás, o jump scare só se mantém coerente graças à característica fantástica que denota o filme. Caso contrário, teria caído no abismo do uso mecânico e preguiçoso. E ainda há uma rima visual com os destinos dos personagens que profanaram, ingenuamente ou não, os símbolos dos Hårga.

Em determinado momento do prólogo, a relação entre Dani e Christian – não consigo deixar de imaginar que o nome dele é alguma piada ou comentário sarcástico – é perfeitamente ilustrada no mise-en-scène do quarto do casal. No início da conversa, Dani surge grande e impositiva em relação ao namorado, que é visto sentado e pequeno através do espelho (uma falsa imagem dele). Conforme ele manipula a conversa para diminuir Dani – que vai diminuindo visualmente no plano conforme ele se levanta e se aproxima dela –, a imponência de antes dá lugar a uma submissão humilhante. A forma como Dani acredita depender de Christian – talvez seja essa a piada – é triste de ver e, além disso, se apresenta como o real desafio da protagonista. Sua jornada com os Hårga busca a confiança, a autoestima afirmativa que carece. Inconscientemente, Dani caminha para se tornar plena.

É dentro dessa jornada que a catarse de Dani ganha intensidade. A decepção solitária e dolorosa encontra apoio nos gritos sinceros e empáticos da comunidade, que parece sentir o que sente Dani e se preocupa genuinamente com ela. Novamente a trilha sonora e o som diegético se combinam em aflição expurgante, elaborando uma sequência emocionalmente estranha e envolvente. Seguindo a perspectiva do narrador, aquela dor, assim como todo o imaginário profano – para nós, pelo menos – dos Hårga é belo. A dor é um elemento necessário. O sofrimento é natural. Lidar com eles, realmente lidar em aspecto pessoal, é fundamental. Assim, a forma como ela surge nos minutos final, magnânima e grandiosa, cercada de cores vivas, é emocionante e positiva, o que é um feito respeitável dentro de um filme tão excêntrico.

Para Ari Aster, não há horror e dor maiores do que o sofrimento. Bem como fizera em 2017 com o magnífico e aterrorizante Hereditário, Midsommar utiliza a dor como conexão emocional e empática, e isso não seria capaz sem uma execução afinada da rica linguagem cinematográfica em prol da narrativa. Ambos os filmes do diretor apresentam em tom bastante pessoal e envolvem uma ideia forte do valor, da influência e da necessidade familiar, que não se limita a laços sanguíneos. A ideia de Hereditário é ser, principalmente, um drama familiar, mas que culmina em horror intenso. Já Midsommar é um conto folclórico edificante onde o horror é só uma perspectiva. A força narrativa de Ari Aster vem da forma como ele encara o terror. Para o diretor, as convenções do gênero são capazes de assustar, mas o verdadeiro terror reside em algo comum, primal e relacionável: no sofrimento, o que é tão necessário quanto inevitável. E isso lhe confere alguma espécie terrível e sincera de beleza emocional: a emoção estética.


Data de estreia: 19 de setembro
Título Original: Midsommar
Gênero: Terror, Drama, Fantasia
Duração: 2h27
Classificação: 18 anos
País: Estados Unidos, Suécia, Hungria
Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Cinematografia: Pawel Pogorzelski
Edição: Lucian Johnston
Trilha Sonora: The Haxan Cloak
Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill

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