CRÍTICA | Mulher Maravilha

by Thiago de Mello

Afirmar que Mulher Maravilha é o melhor filme do Universo Cinematográfico da DC (até o momento) é fácil. Isso, por outro lado, não é um grande mérito tendo em vista o quão divididas são as opiniões das obras anteriores do Estúdio – com exceção de Esquadrão Suicida que é considerado ruim quase por unanimidade. De qualquer maneira, o resultado final é positivo, mas assim como todos os filmes do UCDC, a sensação após o término da sessão é que poderia ter sido muito melhor.

Dirigido por Patty Jenkins (Monster: Desejo Assassino), Mulher Maravilha possuía enorme responsabilidade de consolidar o primeiro blockbuster de super-heroína, além de estabilizar o vacilante UCDC. Felizmente, Jenkins conseguiu, entre acertos e erros, fazer ambos. Principalmente ao exaltar a figura da Amazona, uma das maiores personagens da nona arte e ícone feminista do mundo pop.

No enaltecimento, Mulher Maravilha atinge alturas grandiosas. Sempre que possível, Jenkins e Matthew Jensen, diretor de fotografia, criam cenas e sequências carregadas de imponência e heroísmo. A imagem da Mulher está sempre recortada por cores vibrantes, destacada sobre os ambientes, em foco entre os personagens, enquanto reage às diferentes batalhas. Tal qual Super-Homem de Zack Synder, mas sem a mesma carga dramática, a Mulher Maravilha de Jenkins é grandiosa e divinal.

Vale destacar a ótima trilha sonora temática que a acompanha, composta por Rupert Gregson-Williams. Quando em cena e durante a ação, a orquestra começa a induzir o crescimento da presença da super-heroína com uma composição vibrante e robusta, apoiada em violinos dissonantes. Quando a música caminha para o que seria o seu “refrão”, a cena ganha corpo e alma, empolgando o espectador e conseguindo até dar mais vigor aos combates, onde a coreografia é apenas boa. As lutas são interessantes basicamente pelo constante uso de câmera lenta para criar belos momentos visuais quanto ao heroísmo da personagem. Mas o recurso é utilizado em excesso, demonstrando uma limitação criativa nas formas de retratar a magnitude da personagem.

Mulher Maravilha

Mulher Maravilha apresenta uma ótima personagem central, num roteiro de altos de baixos

Gal Gadot faz um trabalho determinante na construção dessa grandiosidade. A atriz possui uma presença física inata para o papel, além de carisma, e se esforça para dar vida à Princesa de Temiscira. É fato que ela já havia apresentado essa mesma qualidade em Batman V Superman: A Origem da Justiça, mas em seu primeiro filme solo, Gadot realiza trabalho à altura da presença física da personagem. Porém, nos momentos dramáticos, não obtém o mesmo êxito. Embora poucas cenas exigam uma interpretação além da mera presença física, Gadot não conseguiu exprimir a carga dramática quando exigida, afetando o instante de apreciação do filme.

Mas os erros que diminuem a qualidade final de Mulher Maravilha recaem sobre a direção de Jenkins e, principalmente, sobre o roteiro de Allan Heinberg. O filme narra a origem da Diana – do seu crescimento e treinamento na paradisíaca ilha de Temiscira (com cenários e ambientações de encher os olhos), à sua decisão de ajudar à humanidade, lutando na 1ª Guerra Mundial – de maneira básica e formulaica. O problema reside a partir dos momentos que o roteiro não prima pela qualidade narrativa ou se preocupa em detalhes, sejam eles grandes ou pequenos.

Quanto à trama, o filme constantemente opta por saídas fáceis e preguiçosas. Como na fuga de Steve Trevor (Chris Pine) que, ao roubar informações importantes sobre a arma química que os nazistas estão construindo, encontra um avião coincidentemente pronto para decolar; ou a facilidade com que a rainha Hipólita (Connie Nielsen) muda de ideia conforme a trama exige; ou os tiros durante a sequência da trincheira, dentre alguns outros. Sempre que caminha para um momento narrativo mais complicado, Heinberg se contenta em tomar a decisão mais fácil.

A falta de empenho do roteiro não se limita a tais artifícios, mas também atinge alguns personagens cuja descartabilidade  se manifesta na equipe montada por Trevor para levar Diana até as linhas inimigas. Composta por Charlie (Ewen Bremner), Chefe (Eugene Brave Rock) e Sameer (Saïd Taghmaoui), a pequena trupe tem participação quase nula dentro do mote central. Enquanto Sameer protagoniza uma cena com inexplicável diálogo em inglês com um soldado alemão (aliás, não há qualquer nazista falando alemão), Charlie apenas se limita a cantar, sendo, de longe, o mais descartável do grupo. Fica claro que a equipe possui apenas duas funções: alívio cômico e exposição. Sempre que necessário alguém revela algum fato sobre si ou sobre os demais, no que é mais um equívoco do roteiro. Mas felizmente o alívio cômico é uma das melhores coisas do filme.

O humor que preenche Mulher Maravilha é eficiente, fluido e bem alocado dentro da história. Além de não haver excesso de piadas, elas acontecem somente em momentos propícios. Jenkins e Heinberg que criam situações orgânicas para extrair divertidos respiros cômicos. Seja na estranheza do mundo moderno, nas diferenças sociais, de gênero ou, até, biológicas, o filme consegue aplicar um humor bastante eficiente.

Dentro da diferença de realidades, o filme também fornece bons momentos quanto ao discurso feminista. Como era de se esperar, Mulher Maravilha realiza um enaltecimento do gênero feminino, mas sem diminuir o masculino. Assim, o filme constrói a ícone feminista sem se tornar panfletário. A forma de condução do discurso permite a estreitar o relacionamento com a personagem, além de dar a ela ainda mais valor como símbolo de justiça social e grandiosidade mítica. E um detalhe importante dentro desse aspecto é que a Mulher Maravilha realiza esses discursos de maneira orgânica, sem jamais estereotipar a figura feminista.

Outro momento que destoa dentro da história principal é o romance. Rápido e insosso, ele fica deslocado na narrativa. Parece que seu propósito é demonstrar que Diana pode fazer o que quiser, além de valorizar sua feminilidade. Mas tudo isso já estava implícito – e explícito – em toda sua construção, o que torna-o descartável.

Por fim, o filme não consegue dar substância a um problema que assola boa parte dos filmes de super-heróis (e até de ação em geral): o vilão. Para evitar qualquer risco de spoilers – pois há um pequeno plot twist –, basta dizer que a grandiosidade do antagonista jamais é atingida como poderia e deveria. A motivação é básica demais e os diálogos são simplistas ao ponto de incomodar. Mas se não bastasse, a luta final erra ao apostar mais na representação da grandiosidade do duelo do que no combate em si. Ela é travada à distância, por vezes utilizando um CGI que tira grande parte do impacto do combate. Mas parece que a resolução do embate não toma ares definitivos, que é interessante e sugestivo.

Ao final do filme, há satisfação. A responsabilidade de Mulher Maravilha estava bem além de ser apenas mais um filme blockbuster qualquer ou outro mero capítulo de uma franquia milionária. Mulher Maravilha é a possibilidade real de um tardio início centrado em figuras femininas como protagonistas num universo predominantemente masculino. E mesmo com um roteiro falho, a Mulher Maravilha de Gal Gadot pode realmente ter iniciado essa jornada – eu certamente espero que tenha. Tomara que a bilheteria corrobore!

Mulher Maravilha estreia em 1º de junho.

 

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Título original: Wonder Woman
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 2h21
Classificação: 10 anos
País: Estado Unidos
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, adaptando história de Zack Snyder, Heinberg e Jason Fuchs
Cinematografia: Matthew Jensen
Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams
Elenco: Gal Gadot, Robin Wright David Thewlis, Connie Nielsen, Chris Pine, Elena Anaya, Lucy Davis, Ewen Bremner, Doutzen Kroes, Danny Huston, Mayling Ng,Eleanor Matsuura, Eleanor Matsuura, Eleanor Matsuura, Saïd Taghmaoui

 

 

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