CRÍTICA | O Bar Luva Dourada

by Thiago de Mello

Dentro de um apartamento opressor, com paredes sufocantes e sufocadas por dezenas fotos de mulheres nuas, inquietantes bonecas de pano testemunham a brutalidade de um assassino ansioso. Ofegante, ele se move com dificuldade pelo espaço apertado. Não aparece o rosto, apenas movimentos brutos e erráticos dentro de uma roupa suja e suada, em esforço para ocultar o corpo deitado em sua cama velha. Os tons amarelados destacam o ambiente doentio. As sombras, a atmosfera soturna. E o som denso da cabeça que bate, degrau por degrau, quando arrastada emite eco seco e profundo, completa um horror sensorial pungente e claustrofóbico. É apenas depois dessa construção enervante que vemos o rosto do assassino de aparência monstruosa que surge corcunda, num close incômodo, com olhos sórdidos e dentes malfeitos. O retrato doentio do assassino serial Fritz Honka (Jonas Dassler)e a atmosfera macabra que o cerca é recriada com habilidade, logo nos minutos iniciais, em O Bar Luva Dourada.

Baseado em fatos e ambientado em Hamburgo durante os anos 1970, o novo filme de Fatih Akin busca, acima de qualquer outra coisa, materializar o horror de Honka. E quanto a isso, o filme consegue bons méritos. A eficiência da construção de ambiente e protagonista assustadores funcionam graças à coesa combinação de elementos como a maquiagem (que deixa o belo Jonas Dassler tão sinistro quanto irreconhecível), o design de produção opressivo e meticuloso de Tamo Kunz, a fotografia suja, fria e próxima de Rainer Klausmanna, a trilha sonora e design de som (irônicos, trágicos e atmosféricos) e a atuação hipnótica de Jonas Dessler, cuja fala e movimentos alternam entre controle e insanidade violenta com naturalidade enervante. Fatih Akin rege tais elementos numa arquitrama fluida (tempo linear, protagonista ativo e único, final fechado, etc) em direção ao incômodo, que é a tônica do filme.

‘O Bar Luva Dourada’ incomoda, e é isso que ele deseja

Ao longo de seus 155 minutos, O Bar Luva Dourada me trouxe sentimentos distintos. Num primeiro momento, um cansaço que, agora, atribuo à experiência de acompanhar uma figura tão horrenda por ambientes sufocantes. A proximidade que Akin mantém com o público de Honka é indigesta. Alcoólatra, Fritz Honka possui uma instabilidade vulcânica ao buscar se “relacionar” com mulheres – geralmente bem mais velhas. Durante quase todo filme, ficamos próximos de um misógino absoluto. Cada ação dele, por mais repulsiva que seja, é mostrado por uma câmera fixa e imparcial, e uma montagem mínima. Assim, a violência ganha substância e, embora seja mais sugerida do que mostrada, incomoda, ainda que eu não tenha a achado tão chocante quanto o marketing tenta vender. Ainda assim, há momentos de repulsa (como a ótima montagem entre um dos assassinatos e a cabeça cozida de algum animal, numa sobreposição de imagem e som que me fez estremecer um pouco na cadeira). Mas o que achei mais interessante foi como durante alguns desses atos grotescos havia breves lembretes de uma humanidade naquele monstro. Não digo humanidade como algo bonito, como compaixão, já que ele jamais se arrepende do que fez, mas no titubear ao decepar um corpo, precisando beber antes, ou a reação ao cheiro podre dos corpos que escondia em seu apartamento. Não há sentimentos em Honka, mas ainda assim, apesar da figura grotesca, era humano. Isso deixa o terror mais vívido, mais próximo já que a figura não transita num mundo imaginário, mas na nossa realidade. E isso ganha mais peso com o pequeno arco dos adolescentes Petra (Greta Sophie Schmidt) e Willi (Tristan Göbel) que, inocentes e alheios, têm seus destinos em xeque. O arco de Petra, inclusive, é um contraponto interessante às vítimas e quase-vítimas de Honka, além de uma tensão inerente graças ao bom uso da ironia dramática. Um lembrete da necessidade de objetivos e planos para não ficar à mercê de homens obscenos e violentos.

Por trás da violência de Honka, porém, O Bar Luva Dourada faz comentários sobre o período pós-guerra de uma Alemanha abalada. Na instabilidade da crise econômica da década, ainda consequência da derrota na 2ª Guerra e os traumas do nazismo, a população marginal é retratada por deformidades físicas e morais, principalmente através do bar Luva Dourada, local onde Fritz Honka conhecia e atraía suas vítimas. A vulnerabilidade e a perversidade da geração definida pelos horrores da grande guerra é exposta de diferentes formas. Enquanto o jukebox entoa uma melancólica e tocante música sobre dor e amor, as mulheres, vulneráveis e desamparadas, choram diante o sentimento que parece existir somente no som mecanizado do bar. Enquanto isso, os homens, velhos e bêbados, comentam vulgaridades sexuais infantis e machistas. O Luva Dourada é um lugar de decadência onde aqueles esquecidos e excluídos buscam, às suas maneiras, alguma forma de atenção ou afeto através da letargia de quantidades intoxicantes de álcool. Um submundo para os “sub-humanos”, vítimas do nazismo e da guerra, ignorados e excluídos, numa confluência baixa de sobrevivência e exploração.

Através de diálogos vulgares, o roteiro de Fatih Akin (que adapta livro homônimo de Heinz Strunk) indica como Honka é fruto dessa realidade desalentada. Ou seja, um humano monstruoso criado não pelo diabo ou forças sobrenaturais, mais pela própria humanidade. Uma figura errante que não sabe a diferença entre amor e ódio, sexo e estupro, carinho ou violência.

Como disse no terceiro parágrafo, O Bar Luva Dourada me trouxe sentimentos distintos. Além do cansaço (que percebo ser efeito consciente da direção), houve também uma sensação de que faltava algo. A história, ainda que represente de maneira cruelmente interessante suas mensagens, parece não sair do lugar, o que deu vez a uma espécie de frustração em mim. Mas agora também imagino que isso não seja um acaso, mas outro desejo de Fatih Akin. Ainda que a construção narrativa do filme seja uma típica arquitrama, a jornada de Honka, enquanto personagem, se aproxima mais da antitrama, uma estrutura predominante justamente no cinema europeu pós-Segunda Guerra, tal como é o tempo da obra. Essa proximidade é aparente no uso de coincidências ao longo do filme, que ditam os destinos variados das pessoas próximas de Honka, assim como o dele. Ambas as estruturas criam um resultado estranho e frustrante. Uma história que evolui enquanto o personagem permanece o mesmo, sem qualquer alteração de valores ou aprendizado. Isso, porém, parece coerente com o retrato e realidade de um assassino serial tão odioso. A realidade é por vezes, no mínimo, frustrante e esse parece ser um dos objetivos almejados por Akin.


Data de estreia: 18 de julho
Título Original: Der goldene Handschuh
Gênero: Drama, Terror, Suspense, Crime
Duração: 1h55
Classificação: 18 anos
País: Alemanha, França
Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin
Cinematografia: Rainer Klausmann
Edição: Andrew Bird, Franziska Schmidt-Kärner
Elenco: Jonas Dassler, Margarete Tiesel, Adam Bousdoukos, Katja Studt, Martina Eitner-Acheampong, Tristan Göbel, Greta Sophie Schmidt

0 comment

Esse site usa cookies para melhorar a sua experiência. OK