CRÍTICA | O Formidável

by Thiago de Mello

O Formidável, cinebiografia dirigida por Michel Hazanavicius (ganhador do Oscar de Melhor Diretor por O Artista, de 2011) é, no mínimo, curioso – e aqui, isso não é necessariamente um elogio. Toda bela e inventiva linguagem cinematográfica utilizada ao longo da narrativa entra em conflito com a concepção do personagem principal, culminando numa apreciação problemática que prejudica parte significativa da experiência.

Um dos objetivos mais claros de qualquer cinebiografia é humanizar o ícone, ao mesmo tempo em que presta uma homenagem (quando desejado). Esse subgênero realoca tais ícones, retirando-os de seus hiperbólicos pedestais e colocando-os em nosso mundo. O processo dessa humanização é composto por eventos onde se apresenta o outro lado do indivíduo, o lado que erra, que demonstra sentimentos ruins, que apresenta desejos mundanos. Ou seja, seu lado humano. É isso que Michel Hazanavicius faz com Jean-Luc Godard, apresenta seu lado humano. Porém, a forma como o faz quase o desumaniza por completo.

É 1967. Jean-Luc Godard (Louis Garrel) está produzindo o problemático A Chinesa quando conhece a Anne Wiazemsky (Stacy Martin), atriz do filme e mulher que viria a ser sua segunda esposa. Baseado na autobiografia de Wiazemsky – que faleceu há pouco tempo, em 5 de outubro – o espectador acompanha a dinâmica do casal dentro do conturbado contexto artístico do cineasta franco-suíço e toda a efervescência do período que antecede as manifestações de maio de 1968.

Em ‘O Formidável’, Godard não passa de uma caricatura desprezível e sem talento

A narrativa de O Formidável acontece sob a perspectiva de Wiazemsky e é dividida em 10 capítulos e um epílogo. Embora sugira um olhar sobre o casal, o foco é unicamente Godard, relegando Wiazemsky a uma mera espectadora. A personagem, embora funcione, parcialmente, como condutora narrativa, figura em boa parte das cenas apenas observando o diretor e marido. Mas é através de seus olhos e sentimentos que os capítulos recebem sua tônica. A primeira parte, por exemplo, introduz todo amor, paixão e idolatria que ela nutria por Godard, como ela enxergava e se relacionava com o ícone.

Logo no começo, o filme começa a apresentar seu vasto vocabulário cinematográfico. Um dos elementos de grande destaque é a vibrante paleta cromática que se apoia fortemente nas forças da cores primárias. Godard “é” vermelho e amarelo. Ele é poderoso, vibrante, obsessivo, exuberante. Já Wiazemsky está constantemente utilizando azul, ou deitada sobre ele, refletindo placidez, melancolia e, até, certa impotência. As cores elaboram uma pequena narrativa própria ao compor e sugerir estados de espírito, desejos e conflitos. Quando, por exemplo, Wiazemsky utiliza um figurino verde, esse tom  já anuncia uma mudança da personagem.

Além das cores, Hazanacius utiliza vários outros elementos narrativos que dão força visual e narrativa ao filme. Aí está o grande mérito de O Formidável: sua autoconsciência cinematográfica. O filme sabe que é um filme e se aproveita disso com ironias (atores criticando atores), quebras da quarta parede (conversas diretas com o espectador), sons vindos da instância narrativa (a câmera que faz barulho de arma), cenários que literalmente narram elementos da história, etc. Uma brincadeira metalinguística de Hazanavicus que dá elegância e charme ao longa.

O problema de O Formidável não está em tais elementos, mas na concepção de Godard pelo diretor.

Jean-Luc Godard é um dos grandes nomes do cinema. Trata-se de um ícone indiscutível para a sétima arte principalmente por seus primeiros filmes, como Acossado (1960) e O Desprezo (1963), fundamentais para o estabelecimento do Nouvelle Vague. No recorte de O Formidável, Godard já é famoso (inclusive busca escapar do culto que o cerca) e está enveredando-se pela fase mais política de sua carreira. Assim, o Godard de O Formidável é humanizado pelo conflito interno (ele critica seus trabalhos anteriores, mas é lembrado e vive pela fama deles; critica a burguesia mesmo sendo burguês; critica a si ao mesmo tempo em que se acha revolucionário, etc) e pelo caos político e social da época. Os elementos da humanização, principalmente todo esse conflito, são interessantes e promissores. Porém, o roteiro de Hazanavicius peca pelo exagero.

O Godard de Hazanavicius não possui qualquer virtude. Seus novos filmes são ruins, suas condutas sociais e pessoais, piores. É um Godard que exala arrogância e cospe prepotência em todos ao redor, desde sua esposa até fãs aleatórios que desejam falar-lhe. Guia-se pela apreciação de terceiros, acovarda-se perante estudantes, agride verbalmente idosos, menospreza e diminui a esposa, afasta amigos, sugere antissemitismo. E assim segue a lista de ignorâncias que constroem (ou destroem) o personagem. O que seria uma humanização, muta-se para uma caricatura arrogante e sem talento.

Não é possível relacionar-se com o Godard de Hazanacius que parece tentar criar a antítese extrema do herói perfeito. Porém, é preciso citar que tal realização do personagem – mesmo negativa – é mérito da atuação de Louis Garrel. O ator consegue criar exatamente o que o diretor tinha em mente. Assim, dá vida a um Godard curioso e cativante, no primeiro capítulo (tal como Wiazemsky o vê no início), até o seu pior lado – que, pelo filme, aparenta ser o único lado. Já Stacy Martin, quando o roteiro permite, também realiza bom trabalho. A atriz conquista pelo olhar tão energético quanto cândido. Mas a química de ambos, porém, não brilha.

Os maus personagens acabam por atrapalhar até o ritmo do filme. Embora breve (1h47), há períodos onde o tempo se faz sentir e a impressão é de que O Formidável possui muitos minutos a mais. Isso é resultado direto do distanciamento ocasionado por um personagem antipático. Quando em cena, acaba cansando o espectador que pouco se importa com ele, com sua visão do mundo ou com suas obras. Mesmo com elementos rítmicos e narrativos interessantes – como a subtrama dos óculos (que representam mudanças de visão), dotada de humor natural, mas que falha ao não apresentar desfecho, soando, ao fim, aleatória –, o filme cria um desenvolvimento por vezes maçante.

Assim, O Formidável apresenta-se conflituoso. Há uma bela e bem trabalhada linguagem cinematográfica que fornece momentos de beleza e qualidades positivas, tanto visual como narrativa. Porém, os personagens, principalmente Godard, atrapalham essa apreciação. No fim, O Formidável apresenta-se como um bonito texto, de vocabulário exuberante, mas com personagens fracos que não têm nada pra dizer.

 


Título original: Le Redoutable
Gênero: Biografia, Comédia, Drama
Duração: 1h47
Classificação: 12 anos
País: França, Mianmar
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius adaptando autobiografia de Anne Wiazemsky
Edição: Anne-Sophie Bion,Michel Hazanavicius
Cinematografia: Guillaume Schiffman  
Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, Grégory Gadebois, Félix Kysyl, Arthur Orcier, Marc Fraize, Guido Caprino

 

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