CRÍTICA | Parque do Inferno

by Thiago de Mello

O slasher é um subgênero bastante popular e cujas características, repetidas vezes, são apresentadas de forma meramente superficial, focando unicamente na violência gráfica para com as vítimas adolescentes e nos sustos mecânicos, os jump scares. Dessa forma, diferentes e incontáveis roteiristas e diretores buscam apenas a estética da violência, algo que choque, que tenha algum estilo ou qualquer parcela de criatividade, em detrimento da lógica interna.

Parque do Inferno, dirigido por Gregory Plotkin (Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma), padece dessa decisão. Há certo estilo nos assassinatos e a violência cria um ou dois momentos de choque gráfico de boa qualidade visual. Além disso, a trama ainda possui resquício promissor. O problema é que o sub-gênero não se limita a isso. Por trás horror visual, ainda há a óbvia necessidade de coerência narrativa e personagens minimamente interessantes. E tais elementos foram completamente ignorados pelo roteiro de Seth M. Sherwood, Blair Butler e Akela Cooper.

Os adolescentes Taylor (Bex Taylor-Klaus), Brooke (Reign Edwards), Natalie (Amy Forsyth), Britney (Courtney Dietz), Quinn (Christian James), Gavin (Roby Attal) e Asher (Matt Mercurio) compraram ingressos para a HellFest, uma festa de Dia das Bruxas itinerante. Altamente elaborada, a festa dispões de música, bebidas e ambientes diversos para assustar o público de diferentes formas. Pode ser aleatoriamente, por funcionários de fantasias caríssimas que surpreendem os transeuntes, ou em atrações cujo terror apresenta-se em labirintos interativos e temáticos, alguns até podendo tocar nos clientes (que assinam termos de permissão). Mas dentro da festa há um assassino…

Ainda que possua lapsos de criatividade, Parque do Inferno é completamente genérico e aleatório

O universo do filme pede ao espectador que ignore a lógica e aplicabilidade real do HellFest. O nível de tecnologia, a quantidade de funcionários, a produção e design, etc, são, para dizer o mínimo, surreais. Mas até aí, tudo bem. Basta uma leve pressão na suspensão da descrença. Porém, não há esforço que consiga dar lógica e engajamento à série de aleatoriedades, conveniências e acasos que permitem que a trama prossiga até a conclusão.

O prólogo adianta como funcionarão os assassinatos. Na abertura, que apresenta o assassino e o seu modus operandi, a primeira vítima depara-se com seu algoz através do mero acaso. Como o assassino sabe que ela viraria à esquerda (ou à direita, não me lembro mais)? Não interessa. Ele já tinha uma corda? Não importa. Vítima feita. O desfecho, porém, é instigante – e esse parece ser o único interesse da obra.

Essa série de acasos imprescindíveis é a única coisa que guia os adolescentes para seus destinos. Isso e as decisões absurdas (é melhor fugir do assassino correndo para fora do parque ou entrando num labirinto?). Um a um, eles sucumbem ao assassino que jamais corre, mas sempre aparece à frente deles. Parece se teletransportar ou utilizar passagens secretas jamais mencionadas. Isso, porém, não se restringe ao vilão. Até a protagonista surge, sem qualquer explicação, à frente do antagonista no arco final.

A estética das mortes é, por outro lado, minimamente elogiável graças a momentos que poderão causar algum grau de aflição no espectador (isso dependerá da bagagem cinematográfica de cada um). Há pequenos momentos de gore razoavelmente bem feitos, tal como alguns (poucos) sustos e uma condução de tensão por vezes eficiente já que no HellFest o assassino/horror pode surgir de qualquer lugar ou momento. Méritos da ambientação. Porém, o exagero visual e sonoro que preenche a narrativa torna-se cansativo rapidamente. O excesso de música, luzes, barulhos e cores constantes possui pouquíssimos momentos de alívio (geralmente nas mortes). Assim, a ambientação eficiente na elaboração atmosférica perder vigor conforme a exaustão sonora e visual se acumula.

Num primeiro momento, pela ordem da primeira vítima (do grupo principal), parecia que Parque do Inferno arriscaria subverter a característica do subgênero ao sacrificar alguém que não “se condenou” por sexo e/ou drogas, tal como dita a cartilha do estilo. Isso, porém, parece ter sido apenas outro “acaso” narrativo. Por um lado, consegue ser interessante, a princípio, ao não seguir essa cartilha à risca. Por outro, acaba dando mais tempo de tela a personagens absolutamente incômodos e irritantes (destaque para a insuportavelmente verborrágica e sexual Taylor), obrigando o espectador a compartilhar longos momentos de palhaçada juvenil recheado de diálogos imaturos sobre sexo (e até de fezes).

Mas se em poucos momentos há sugestão de mudança no estilo, o passo a passo genérico que define o gênero aparece nos momentos mais inoportunos. Não basta, por exemplo, que o vilão surja nos lugares corretos antecipando decisões impossíveis de prever, como também resolve, sem qualquer motivo aparente, não matar a vítima quando tem a chance (como na cena do secador). Ou decisões infundadas, como o roubo das fotos, que serve apenas como gancho para o prenuncio do assassino posteriormente. Essas decisões narrativas, que apenas prolongam a história, enfraquecem a trama principalmente por sua incoerência lógica. Se antes o assassino era preciso e mortal, por que noutro momento ele prefere não matar quando pode? Isso também fragiliza a conclusão do vilão que, felizmente, consegue apresentar um mínimo de originalidade, ainda que se apóie noutro clichê do estilo (o corpo que desaparece num parque já tomado por policiais).

Parque dos Infernos é o típico slasher imaturo. Os personagens – o grupo principal e o vilão – não apresentam lógica ou significado. Não há qualquer problema em ser gratuito e/ou abraçar o entretenimento. A falha reside em ser meramente descartável achando que apenas a estética (no qual os deméritos praticamente anulam os méritos) é suficiente para dar valor ao horror visualmente elaborado e violento.

 


 

 

Data de estreia: 22 de novembro
Título Original: Hell Fest
Gênero: Terror, Suspense, Slasher
Duração: 1h29
Classificação: 16 anos
País: Estados Unidos
Direção: Gregory Plotkin
Roteiro: Seth M. Sherwood, Blair Butler e Akela Cooper
Edição: David Egan, Gregory Plotkin
Cinematografia: José David Montero
Elenco:  Bex Taylor-Klaus, Reign Edwards, Tony Todd, Amy Forsyth, Courtney Dietz, Christian James, Matt Mercurio, Roby Attal

 

 

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