CRÍTICA | Rambo: Até o Fim

by João Rafael

Os traficantes de um cartel mexicano, armados até os dentes e motivados a se vingar de um septuagenário que havia massacrado vários dos seus comparsas, invadem um dos esconderijos de John Rambo (Sylvester Stallone), cujas habilidades de ser um exército de um homem só haviam subestimado. Assim que a confusão se inicia, a voz de Jim Morrison ecoa nos alto-falantes estrategicamente posicionados “five to one, baby, one in five, no one here gets out alive”. O verso que diz “ninguém sai daqui vivo” se adequa ao momento nesta nova continuação, Rambo: Até o Fim, quando os vilões percebem o erro de enfrentar um dos grandes símbolos do cinema brucutu dos anos 80.

Por outro lado, a canção do The Doors pertence à segunda metade da década de 1960, num contexto onde boa parte do rock servia de trilha sonora da contracultura crítica à Guerra do Vietnã, de onde a verdadeira ideia do protagonista nasceu. Quase 37 anos depois, a derradeira (pelo menos até agora) aventura de Rambo termina de afastá-lo bastante de suas origens, tanto tematicamente quanto cinematograficamente.

Criado pelo escritor David Morrell, o personagem aparece no romance First Blood, publicado em 1972. Após o sucesso de Rocky (John G. Alvidsen, 1976), Sylvester Stallone tinha se tornado um grande nome da indústria e, assim como fez neste, insistiu até que suas modificações no roteiro para a adaptação de 1982 fossem aceitas. Mesmo mudando completamente o final do livro (no qual o protagonista era morto por seu antigo superior), em uma óbvia aposta de continuações, o longa era surpreendentemente trágico e sabia unir muito bem a ação e uma dose de complexidade inesperada. É curioso notar como a figura de Rambo foi associada ao herói violento e hiper masculinizado das sequências que se seguiram no auge do escapismo da era Reagan, quando atingiu o auge matando comunistas para salvar os pobres afegãos em Rambo 3 (Peter McDonald, 1988); quando, de fato, sua estreia no cinema foi marcada por uma violência resultante de um trauma engatilhado pela forma como os EUA muitas vezes virava as costas para os seus veteranos.

Uma coisa é preciso reconhecer: Stallone entende seu personagem e fica evidente que há o desejo de voltar a desenvolvê-lo afim de lhe de fechar um arco iniciado há mais de 3 décadas. Se a violência, cujo auge se deu em Rambo 4 (Sylvester Stallone, 2008), permanece nesse novo longa, seu significado parece (ao menos em tese) retomar a complexidade de um homem totalmente quebrado pela guerra e descrente da bondade humana. Assim que a jovem Gabrielle (Yvette Monreal) revela querer encontrar seu pai no México, a reação dele é lembrá-la de que as pessoas não mudam e não há nada de bom para ela lá. Ele então parte para a fronteira e acaba encontrando um cartel de drogas e exploração sexual chefiado pelos irmãos Martinez, Hugo (Sergio Peris-Mencheta) e Victor (Óscar Jaenada).

Seu pessimismo é coerente com que havia sido apresentado no filme anterior e o ator ainda demostra conhecer Rambo o suficiente nos pequenos gestos, como quando mostra ter dificuldade de aceitar os agradecimentos de uma pessoa que acabara de salvar ao desviar o olhar, soltando uma resposta contida somente quando já se tinha se afastado em seus pensamentos. A introspecção do personagem já era característica marcante desde o primeiro longa, aqui retomada sob os anos de “aposentadoria” na fazenda onde cresceu. O design de produção de Franco-Diacomo Carbone até constrói um lar rústico e decorado com fotos de seu pai e de sua época como combatente, mas a importância dessa construção não ganha peso no decorrer da trama – o que tende a piorar nos diálogos expositivos que vão se tornando uma constante sempre que o roteiro precisa lembrar o público os conflitos do protagonista.

‘Rambo: Até o Fim’ até tenta trazer de volta uma personalidade para John Rambo, mas falha como cinema e não consegue se renovar.

O problema é que isso tudo está contido ali na premissa e nos primeiros momentos do 1º ato. Pelo caminho havia um filme inteiro pela frente e é aí que começam os problemas. Na teoria, não há impedimento nenhum em uma trama ser simples (basta constatar isso em Mad Max – Estrada da Fúria, por exemplo), mas o problema é quando a narrativa – isto é, a forma como essa trama é contada em seu uso da linguagem cinematográfica – se mostra frouxa e sem qualquer tipo de personalidade. Tudo já começa pelo roteiro escrito pelo próprio Stallone e Matthew Cirulnick. No pior significado da expressão, a trama é “novelesca” quase do início ao fim, especialmente na maneira como a dupla desenvolve os pavorosos diálogos que transformam alguns conflitos em uma exibição maniqueísta que beira ao riso involuntário. O dramalhão interminável parece surgir em um desespero para que John tenha motivação o bastante para se tornar violento posteriormente, o que demonstra uma falta de confiança na própria capacidade do personagem devido ao seu histórico e ainda torna basicamente dois terços do filme simplesmente aborrecidos demais.

Não ajuda também o fato do diretor Adrian Grunberg (Plano de Fuga) não apresentar, com exceção de uma sequência no 3º ato, nenhum momento de inspiração qualquer. À parte da violência gráfica – cuja abordagem que flerta com o gore até satisfaz os fãs e continua a tendência iniciada no longa antecessor – as sequências que deveriam justificar o rótulo de “filme de ação” são genéricas e mal concebidas. O mal dos cortes caóticos que costuma afligir o gênero aqui não perdoa nem as cenas relativamente simples de confrontos físicos – estes, apesar dos problemas, ainda ganham uma faceta nova com a vulnerabilidade inevitável que finalmente alcançou o personagem na casa dos 70 anos, o que é um ponto positivo que resgata um pouco da identificação que costumava despertar no público.

É somente no 3º ato que a obra parece despertar de um estado sonolento para entregar uma boa sequência ao final. Juntando tudo que o público tinha esperado, tanto do primeiro filme quanto das continuações, Rambo reaparece com o peso do mito que carregou ao longo de muitos anos descarregando a energia para cima dos inimigos e fazendo a festa dos fãs. Acontece que a espera é um preço alto a se pagar para obter apenas uma pitada do potencial que se prometia, tanto no aspecto puramente técnico quanto nas possíveis releituras que Sylvester Stallone poderia ter investido assim como fez com Rocky nas últimas aparições do personagem.

Rambo: Até o Fim se tornou provavelmente o mais divisivo da franquia pelo fato de ser lançado em uma época particularmente mais polarizadora politicamente que o normal. É importante frisar que toda produção cinematográfica reflete de algum modo a época em que foi realizada, mesmo que suas intenções estejam apenas ali na superfície de um exercício de gênero. O fato é que essa já nasce datada a partir do momento em que a lógica de mocinhos e vilões mira em um estereótipo dos mexicanos em um momento onde e era Trump procura construir um muro entre o país e os EUA. Esse é o grande problema do longa? Não. Antes de tudo, ele é apenas uma obra falha em muitos de seus aspectos cinematográficos. Em tese, não há problema em um projeto escolher seu lado abertamente e nem usar de elementos particulares de um gênero a fim de simplesmente fazê-la como uma mera execução sem grandes pretensões, só que suas falhas, aliado ao aspecto político, se somam em um resultado ainda pior.

É irônico que na mesma canção do The Doors, logo se seguem os versos “we get old and the young get stronger” (nós ficamos velhos e os jovens ficam mais fortes). Do mesmo modo que o sentimento crítico que permeava o primeiro filme foi empurrado a contragosto numa tentativa de retomar o mesmo simbolismo, me parece que o resultado é, na verdade, involuntariamente mais literal do que se pretendia. No fim das contas, John Rambo acabou envelhecendo mal.


Data de estreia: 19 de setembro de 2019
Título Original: Rambo: Last Blood
Gênero: Ação, Drama
Duração: 1h39
Classificação: 18 anos
País: Estados Unidos
Direção:
Roteiro: Sylvester Stallone, Matthew Cirulnick
Cinematografia: Brendan Galvin
Edição: Carsten Kurpanek, Todd E. Miller
Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Sergio Peris-Mencheta, Adriana Barraza, Yvette Monreal, Óscar Jaenada, Rick Zingale, Marcio de la O

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