CRÍTICA | Resgate

by João Rafael

Em uma ponte cheia de veículos destruídos e corpos metralhados, Tyler Rake (Chris Hemsworth) surge cambaleando e ferido enquanto tenta avançar em meio ao caos de um tiroteio. Assim que consegue uma breve pausa se esgueirando entre os carros, percebemos se tratar de um evento futuro. É o mais do que comum recurso de apresentar o protagonista no que seria o clímax do filme para, em seguida, iniciar a trama em um grande flashback. A figura de alguns dias atrás, forte (o que não é surpresa para alguém interpretou Thor) e absolutamente confiante nas suas habilidades extraordinárias de combatente, desperta a curiosidade do público ao se contrapor ao homem gravemente ferido mostrado no início deste mais recente lançamento da Netflix, Resgate (Extraction, 2020).

Rake é um mercenário que ganha a vida realizando os trabalhos mais arriscados, cujas motivações se resumem ao dinheiro, não importando muito suas origens bastante questionáveis. Por essa razão, não hesita em aceitar a missão de resgatar Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal) – filho de um chefão das drogas na capital de Bangladesh, Daca – do sequestro para uma máfia rival, na promessa de um trabalho aparentemente rápido e lucrativo. Só que as coisas começam a dar rapidamente errado quando Saju (Randeep Hooda), um dos capangas do pai de Ovi, interfere na tentativa de levar a glória sozinho diante do chefe, fazendo com que Tyler seja obrigado a tomar para si a responsabilidade de salvar o garoto de um destino incerto.

Utilizando-se de um arquétipo bem recorrente, o do anti-herói traumatizado que encontrará a chance de algum tipo de redenção, o longa produzido e coescrito por Joe Russo (o dos irmãos Russo da franquia Vingadores), baseado numa HQ de autoria também do próprio (Cuidad, juntamente com Andre Parks e Fernando León González), investe no básico e aposta no carisma de Chris Hemsworth para despertar aquela empatia quase imediata do grandalhão que demonstra um pessimismo nas palavras, mas todos sabem que lá dentro há uma bondade esperando para reflorescer. Para isso, há os momentos representativos (óbvios, mas eficazes) da coragem inconsequente, por exemplo, quando salta de um rochedo gigante para um lago como se pulasse em uma piscina, e do trauma ao recorrer às bebidas e aos impulsos suicidadas como forma deixar clara sua falta de grandes incentivos para continuar vivendo (há até um plano que recorre à icônica imagem de John Wayne em Rastros de Ódio, mesmo que fique a impressão de que o tributo é meramente estético).

O que move de fato a trama e também o arco pessoal do protagonista é que suas angústias passam a se refletir na relação com o garoto resgatado. De um lado, um adolescente que só quer sair com os amigos para uma boate e esquecer que é filho de um drug lord, o que o torna sempre um alvo. Do outro, Rake encontra nele algo remanescente com o passado (logo o motivo fica claro). A interação sugere a substituição da figura paterna, ou talvez um irmão mais velho, que Ovi usa para mergulhar de uma vez na tarefa de socorrer o grandalhão de se afundar cada vez mais numa vida sem propósito. Parece profundo, mas o problema é que esse mote não chega a travessar a superfície e fica mais na caracterização exterior do que realmente algo que sirva para uma conexão um pouco mais sólida com os personagens. Se o filme ganha na ação (como veremos), também perde por não aproveitar bem suas pausas com o intuito de construir a ligação entre os dois. Há até uma tentativa de uma cena específica construída para que o herói exponha (resuma) logo todo o motivo de suas angústias, mas ela serve mais para confirmar o que já era praticamente certo e não surte o efeito que se imaginava.

Apesar de não escapar de uma trama clichê, ‘Resgate’ é compete na ação, se saindo como um bom filme de gênero

Esse sentimento geral negativo circunda também o mundo que está em volta de Tyler, especialmente na fotografia de Newton Thomas Siegel (Bohemian Rhapsody, X-Men: Apocalipse, Drive). O ambiente que compõe a cidade de Daca abusa da paleta amarelada e esverdeada, tudo num filtro que tende a sugar a energia e enfraquecer as cores, mesmo que elas estejam presentes nas ruas lotadas de gente e repletas das mais variadas formas e texturas. O cenário urbano ganha ainda mais degradação por estar povoado de violência vinda dos carteis, da polícia (na mão dos criminosos) e de crianças cooptadas para carregar armas pesadas. Nesse ponto, cabe ressaltar que essa tendência hollywoodiana de retratar lugares “exóticos” através de fotografias carregadas em tons marcados (quem não se lembra do México sempre hiper alaranjado) parece não ter acabado, e nem sequer a imagem de um local estrangeiro onde todos parecem desfilar com fuzis no dia-a-dia…

Mas voltando ao núcleo, o vilão da máfia inimiga que sequestra Ovi não passa de uma caricatura e mal tem peso na trama, deixando o papel ocasional (e duvidoso) para Saju – este ao menos tem uma dubiedade para transitar, deixando o espectador com algumas dúvidas em relação às suas ações. De qualquer forma, o antagonismo do filme fica mais por conta de uma corrupção generalizada que obriga Tyler a fugir de todo mundo numa espécie de labirinto urbano, onde se vê sitiado  – nessa hora, apela para uma ajuda de um outro mercenário, interpretado por David Harbour (Stranger Things, Hellboy), cujo pequeno papel fica marcado pela previsibilidade.

Mas o que interessa mesmo é que a qualidade de Resgate está na ação. Dirigido por Sam Hargrave, coordenador de dublês que trabalhou ao lado dos irmãos Russo em Capitão América: Guerra Civil e Vingadores: Ultimato, o longa bebe claramente de fontes de qualidade bem atuais, especialmente a franquia John Wick. Fica evidente a inspiração principalmente nos confrontos corporais intensos e que não poupam no impacto gráfico (até os headshots lembram Keanu Reeves e sua vingança dos assassinos de seu cachorrinho), tudo numa energia que prende a atenção e consegue ser tensa o bastante para segurar bem o público durante longas sequências de luta. Algumas dessas, aliás, são feitas sem cortes (dá para perceber claramente onde estão escondidos, mas para efeito de narrativa, é um plano-sequência), dando a Hargrave a chance de exibir um domínio técnico e criatividade na hora de explorar dinâmicas diferentes e cenários diversos – como é o caso de uma perseguição que começa na rua, vai para um carro, entra um prédio e termina nos telhados.

Portanto, quanto à sua função de gênero, a obra é competente (até mais do que a maioria), mas não chega a ser o bastante para elevar todo o resto. Apesar de uma atuação convincente de Chris Hemsworth – que não encontra muita dificuldade em encarnar um tipo de herói de ação moderno, mas durão – o esqueleto da trama é clichê, o que a leva, inclusive, a apelar para um dramalhão do 3º ato que não combina com a profundidade que a história julga ter alcançado. Entre outros pontos negativos, há o desperdício de alguns talentos que poderiam ter sido mais explorados, como é o caso da atriz iraniana (naturalizada francesa) Golshifteh Farahani, que já trabalhou com Asghar Farhadi, Ridley Scott e Jim Jarmusch, e esteve no ótimo recente Filhas do Sol. Seu papel se resume a aparições pontuais e senti muita vontade de vê-la mais inserida no contexto do personagem principal.

Entre várias tentativas de dar um peso dramático, o resultado fica mesmo marcado é pela experencia de ação bem sucedida de um diretor que trabalhou lado a lado com o gênero na maior saga de super-heróis do cinema. Se ele continuar assim, talvez entre para a lista de Wick, Ethan Hunt e outros que mantém a ideia de que também é arte assistir a porradas, explosões e perseguições, desde que sejam bem realizadas.


Data de estreia: 24 de abril de 2020
Título Original: Extraction
Gênero: Ação
Duração: 1h57
Classificação: 16
País: EUA
Direção: Sam Hargrave
Roteiro: Joe Russo
Cinematografia: Newton Thomas Sigel
Edição: Ruthie Aslam, Peter B.Ellis
Trilha Sonora: Alex Belcher, Henry Jackman
Elenco: Chris Hemsworth, Golshifteh Farahani, Rudhraksh Jaiswal, Randeep Hooda

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