CRÍTICA | Sobrenatural: A Última Chave

by Thiago de Mello

Há, basicamente, um único elogio pertinente a ser feito em Sobrenatural: A Última Chave graças ao prólogo do filme, que vem pela sinceridade ao invés da qualidade. Indiretamente, a abertura faz mais do que apenas apresentar a história que pautará a missão dos personagens principais. Ela também deixa claro para o espectador qual é o tipo de suspense que determinará a obra: o preguiçoso.

A introdução de A Última Chave é convencionalmente objetiva ao transitar pela sala da família Rainier apresentado os elementos que definirão os personagens unidimensionais da história. Há o pai ultraconservador, Gerald (Josh Stewart), sentado em frente à TV com seu uniforme de guarda da prisão, bebendo uísque e assistindo algum programa anti-marxista/comunista/stalinista. Há a bondosa mãe, Audrey (Tessa Ferrer), lavando a louça da janta. A primogênita Elise (Ava Kolker), que desenha uma figura assustadora no caderno enquanto cita fatos macabros. E também o caçula, Christian (Pierce Pope), a criança assustada. As características dos personagens estabelecem a dinâmica dos arcos que se apresentarão. Quem crê na presença de espíritos, quem não crê e as consequências de cada ato. Mesmo demasiadamente que simplórias tais características não seriam grande problema caso o roteiro de Leigh Whannell (Jogos Mortais) e a direção de Adam Robitel possuíssem qualquer lampejo de coerência ou criatividade.

Sobrenatural

‘Sobrenatural: A Última Chave’ não assusta e nem envolve

Ainda no prólogo, o filme demonstra o que entende por suspense. Robitel utiliza as convenções do gênero de maneira burocrática para construir momentos cujo impacto acontece apenas pelos jump scares (vários e vários jump scares), culminando numa obra sem atmosfera e anticlimática. Além dos picos de volume, A Última Chave limita-se a “assustar” com aparições repentinas de espíritos (quase sempre atrás do personagem e por breves segundos) e pelos cenários escuros. Aliás, a casa, um elemento fundamental no gênero, é mal explorada no filme. Robitel não consegue dar dimensão ou imprimir as delimitações de espaço da casa, tornando-a um cenário estéril. O “mal assombrada” é apenas dito, mas jamais sentido.

A direção de Robitel não falha apenas na sugestão, mas também no explícito, no horror visual, principalmente com a elaboração da presença do vilão, a entidade KeyFace (Javier Botet). Embora o design da criatura tenha valor (as mãos disformes com longos dedos de chave são intimidadoras), Robitel exagera na forma de apresentação. É apenas na culminância do problemático terceiro ato é que a criatura é mostrada por inteiro. Antes disso observa-se apenas uma série vã de tentativas de construção da ameaça. O diretor apenas mostra partes (os dedos, na maioria das vezes) da criatura num exagero de elaboração que elimina o peso da presença quando aparece realmente. A forma do mostro, assim como seu “poder”, é pulverizado pelas aparições picotadas.

A direção, porém, não conseguiria ir muito longe com a incoerência lógica do roteiro de Leigh Whannell. A preocupação em elaborar o plot twist parece maior do que estabelecer uma lógica interna para os personagens, principalmente para a protagonista Elise.

Ainda adolescente, Elise foge de casa para escapar da violência do pai que não aceita que sua filha veja e ouça espíritos. Muito anos depois, já idosa, Elise, que agora trabalha ao lado de Specs (o roteirista Leigh Whannell) e Tucker (Angus Sampson) – os alívios cômicos de poucas piadas boas – numa pequena empresa de atividades paranormais. Mas quando Elise recebe uma chamada que a obriga a retornar à casa de sua infância, ela precisará lidar com traumas passados, além da entidade que assombra seu antigo lar.

Há uma boa história na ideia do roteiro, mas ela jamais ganha vigor na tela. Embora exista uma surpresa quanto a um importante trauma da adolescência de Elise, ela perde parte considerável da força graças à inconsistência dos personagens durante o conflito final. Nunca fica realmente claro qual é a ameaça, o que deve ser feito para acabar com KeyFace, quais as habilidades de Elise, etc. Em determinado momento,Elise demonstra poder mostrar o futuro de outra pessoa, em outro ela tem habilidades telecinéticas (para abrir uma porta que já estava aberta. E só.), noutro ela consegue ir para ou ver o passado (jamais fica claro se ela só observa ou pode manipulá-lo) dela ou de outros e por aí vai. Cada “poder” aparece aleatoriamente, conforme necessidade do roteiro. O mesmo acontece com KeyFace e a resolução do seu arco que acontece de repente e sem qualquer explicação. O roteiro busca formas para criar momentos grandiosos, mas não se preocupa em desenvolver a coerência, fornecendo, assim, mais um exemplo do suspense preguiço que caracteriza a obra.

Mesmo tendo a limitação de amarrar o final do filme ao início do antecessor (A Última Chave acontece diretamente após os eventos de Sobrenatural: A Origem, de 2015, sendo que ambos são prequelas do original, Sobrenatural, de 2010), fica a impressão de que o Sobrenatural – A Últiuma Chave poderia ter ido bem além do que apresentou caso prestasse atenção no próprio filme. Exemplos como Annabelle 2: A Criação do Mal ou Ouija: A Origem do Mal mostram que é possível realizar histórias de origem (onde o final já está “definido”) com muito mais cuidado, atenção, suspense, terror e, consequentemente, valor.

 


Título original: Insidious: The Last Key
Gênero: Terror, Suspense
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
País: EUA, Canadá
Direção: Adam Robitel
Roteiro: Leigh Whannell
Edição: Timothy Alverson
Cinematografia: Toby Oliver
Trilha Sonora: Joseph Bishara
Elenco:
 Lin Shaye, Leigh Whannell, Angus Sampson, Kirk Acevedo, Caitlin Gerard, Spencer Locke, Josh Stewart, Tessa Ferrer, Aleque Reid, Bruce Davison, Javier Botet

 

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